O Estalajadeiro

Capítulo 751

O Estalajadeiro

A criatura era humanoide, embora não tivesse nenhuma semelhança com um ser humano. Na escuridão, era impossível distinguir a cor dela, mas as costas pareciam cobertas por uma carapaça espessa e irregular, enquanto a parte frontal era protegida por uma pele extremamente resistente, tornando a criatura altamente durável.

Ela parecia não ter olhos, embora certamente possuísse uma boca repleta de dentes extremamente afiados. Lex conseguiu perceber alguns outros traços em seu rosto, alguns dos quais poderiam talvez servir de narizes e orelhas, embora fosse um mistério para que serviam os demais.

A criatura parecia inteligente, pois usava algum tipo de vestimenta que aumentava suas habilidades de furtividade, e Lex conseguiu, através do seu sexto sentido, perceber uma leve surpresa vindo dela. Na mão direita, tinha uma lâmina que parecia feita de um dente extremamente afiado, porém a sua habitual letalidade parecia ter falhado com ela naquele dia.

Ela tentou cortar seu pescoço num movimento rápido, mas seus golpes nem chegaram a fazer um barbear. Ao invés de sentir o satisfeito retorno de uma vitória, foi recepcionada com o choque de atingir um objeto incrivelmente sólido.

O impacto quase provocou a torção de alguns tendões de seus dedos, mas, no final, conseguiu segurar firme.

Lex apenas levantou uma sobrancelha enquanto olhava para a criatura, enquanto um horror absoluto tomava conta dos três corações dela. Ela tentou recuar o mais rápido possível, mas Lex foi rápido demais.

Ele estendeu a mão e segurou a do animal, impedindo sua fuga. Acerrou levemente, tomando cuidado para não rasgar a mão. Mesmo assim, a força do aperto foi suficiente para que a criatura perdesse a pegada na faca e a derrubasse — embora, ao mesmo tempo, ela tenha conquistado a admiração de Lex, pois conseguiu suprimir seu grito. A criatura era bem treinada.

— Acredito que não temos nenhuma animosidade — disse Lex calmamente. — Por que você de repente tentou me atacar?

Enquanto aguardava uma resposta, Lex simultaneamente consultava as informações que recebia por meio de suas lentes de contato Fancy.

A criatura era conhecida como Frigal, uma variante local de uma espécie estreitamente relacionada a dragões. Elas formavam sociedades e comunidades ao redor de dragões, e os veneravam. Cada dragão geralmente tinha seu próprio país de seguidores, que também eram descendentes do próprio dragão que serviam.

Por serem uma espécie vigorosa, os dragões frequentemente acasalavam com qualquer criatura adequada no habitat, originando mestiços e diferentes variantes de Frigal, que passavam toda a vida venerando seu ancestral dracônico, devido à forte influência de seu sangue.

Porém, não é como se os dragões de fato comandassem seus subordinados, então esses seres frequentemente formavam suas próprias sociedades, com culturas e ideias independentes, sem falar na intriga e na política.

Este Frigal em particular, ao perceber que não poderia escapar do aperto de Lex, cortou decididamente sua própria mão e recuou. Mas a criatura conseguiu dar apenas um passo para trás antes que Lex agarrasse sua outra mão.

— Vai cortar essa também? Mas você precisaria de uma mão para isso. Vai mordê-la? — perguntou com uma curiosidade aparente. Porém, quanto mais displicente ele parecia, mais o Frigal sentia medo.

Reunindo coragem, a criatura pulou para frente e deu um joelhada no rosto de Lex. Ele se moveu rapidíssimo e reuniu toda a força, impossibilitando Lex de reagir. Quando o joelho tocou seu rosto, a criatura sentiu uma sensação de euforia, mas o sentimento desapareceu ao ver que Lex permaneceu completamente imperturbável!

— Vejo que você não está numa disposição muito cooperativa — comentou enquanto pensava no que fazer. Deveria tentar algum tipo de tortura? Como poderia extrair a informação?

Depois de alguns momentos pensando, durante os quais o Frigal continuou atacando incessantemente Lex, ele decidiu mudar de estratégia. Giro suavemente sua mão, causando a deslocação do braço da criatura. Avançou um passo, logrando desviar perfeitamente de um dos ataques do ser, e cortou delicadamente o pescoço do Frigal.

— Bem, para os padrões de Lex, foi uma coisa suave, mas para a criatura foi fatal. Com o pescoço quebrado, ela caiu ao chão, sangrando pela mão cortada.

Lex não pôde deixar de cheirar o ar. O cheiro do sangue dessa criatura era incomumente forte, como ovos podres, e provavelmente permaneceria por bastante tempo. Ele fez mentalmente um lembrete para não se sujar de sangue, para não ser facilmente localizado, caso alguém o estivesse procurando.

Lex vasculhou o corpo da criatura e, além da adaga com a qual tinha tentado atacá-lo, encontrou vários dardos e agulhas, todos embebidos de veneno.

Por onde quer que essa criatura fosse, seus motivos não eram puros.

Ele olhou novamente ao redor e, ao confirmar que ninguém tinha testemunhado o que aconteceu, rapidamente se afastou. Mudou-se para seu traje de furtividade, facilitando sua ocultação, embora não soubesse o quão eficaz aquele traje era aqui. Afinal, ele não conhecia os sentidos que esses seres utilizavam. Se era o ouvido, o tato ou o sentido espiritual comum, Lex tinha suas bases cobertas.

Mas, se fosse algum sentido estranho ou diferente, bem, aí Lex descobriria quão bom realmente era seu traje.

Não levou muito tempo até que Lex encontrasse outros Frigals, o que fazia sentido, já que ele estava em uma espécie de cidade. Curiosamente, o clima em toda a cidade parecia extremamente pesado, carregado de ansiedade e tristeza.

Lex se posicionou atrás de um arbusto peculiar, que parecia imune ao frio e à escuridão, e cuidadosamente estendeu seu senso espiritual para tentar espioná-los. Mais uma vez, ele tentava sua sorte como espião.

Poucos momentos depois, Lex ergueu uma sobrancelha. Havia acabado de ouvir algo interessante.

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