O Estalajadeiro

Capítulo 631

O Estalajadeiro

Desde tempos imemoriais, existe uma relação especial entre um homem e seu modo de transporte. Nos velhos tempos da Terra, toda sorte de animais era criada com o propósito exclusivo de transformar-se em veículos excepcionais. Cavalos ou raças raras eram buscados com mais afinco do que ouro. Elefantes eram adornados com mais joias do que reis e rainhas de verdade.

Os rinocerontes eram tratados como montarias especiais, dignas apenas dos generais e soldados mais fantásticos.

Então veio a revolução industrial, e os tempos mudaram. A modernização passou a ser o caminho do mundo, e assim o mundo se adaptou.

Desde o primeiro ciclo, passando pelo primeiro carro até o primeiro trem, a relação romântica com veículos se tornou cada vez mais intensa. Balões de ar quente, dirigíveis e, finalmente, aviões foram recebidos no mundo.

As pessoas eram reconhecidas em suas cidades e sociedades, não pelo que eram ou pelo que faziam, mas pelo tipo de carro que dirigiam. Um piloto não era celebrado se não pilotasse um jato, e não um avião comercial ou pulverizador agrícola. Uma pessoa só era considerada “legal” e “incrível” se dirigisse uma motocicleta suficientemente fantástica.

Por muito tempo, o reconhecimento de um homem vinha antes de qualquer coisa pela sua caranga. Era natural, pois muito podia ser deduzido sobre alguém pelo carro que ele dirigia.

Para deixar claro, embora o monólogo interior de Lex insistisse na paixão entre o homem e seu carro, ele não era sexista. Quando dizia “homem”, referia-se mais à raça do que ao gênero. Estava bastante claro que uma mulher também poderia elevar ou diminuir seu status dependendo do veículo que conduzia.

Assim, quando homens e mulheres eram igualmente absorvidos pela beleza de um veículo, como Lex poderia ser diferente?

No magazine à sua frente, na página dupla bem espalhada, estava a imagem de uma nave espacial preta! Ela tinha curvas perfeitas, sem arestas ou cantos agudos em lugar algum, exceto na ponta. Parecia como se a ponta fosse o ponto de início do próprio navio, como se toda a nave emergisse daquele único ponto.

O interior da nave não era visível, e não havia painéis de vidro transparentes por qualquer parte, mas isso só aumentava o mistério dessa nave elegante e esguia. Na parte de trás, parecia haver um motor de impulso principal, com um menor saindo das duas asas laterais.

Ao perceber a expressão de espanto de Lex, Powell apenas assentiu como se confirmasse que essa era a reação certa.

"Esta é a Silent Night, a mais nova produção da classe de corvetas pessoais da Havalier Industries. Até agora, existe apenas uma, e diz-se que ela consegue realizar viagens intergaláxicas em poucos meses! É uma nave completamente de colecionador!"

Até a voz de Powell carregava inveja, mas Lex focou em algo totalmente diferente.

"Espera, o empório não está vendendo essa?"

"Não, não, como vamos conseguir uma assim? Como já te falei, ela foi produzida pela Havalier Industries, e só eles podem vender. Sem contar que todo mundo sabe como são os Greydar."

De fato, Lex não sabia nada sobre os Greydar, nem quem ou o que eram. Mas não chamou atenção para sua ignorância por ora, pois nos documentos recentes que adquiriu no empório provavelmente havia as informações relevantes. Era apenas uma questão de tempo até descobrir. Em vez disso, seu foco permaneceu na nave.

"Você não vende, tudo bem, mas pelo menos vende outras naves?"

"Sim, claro! Uma embarcação privada é fundamental para quem precisa atravessar uma região espacial para outra. Vou te avisar, formações de teletransporte não são baratas nem comuns. A maior parte do comércio é feita por naves espaciais, e, a menos que a distância cubra vários sistemas estelares, a viagem também é feita via naves. A Silent Night é um pouco diferente, com certeza."

"Ela consegue até atravessar espaços entre galáxias, então viajar dentro de uma galáxia é muito mais rápido. Mas é raro encontrar naves desse calibre no mercado aberto. Apenas alguns impérios muito grandes as usam para fins governamentais."

"Ou seja, você tem naves, mas nada tão avançado quanto a Silent Night?"

Apesar de Lex se interessar, ele se segurou. Já tinha uma nave enorme na estalagem, se fosse realmente precisar. Além disso, se algum dia quisesse uma menor, tinha mais esperança de consegui-la pelo sistema do que de outra fonte.

"Vamos logo ao negócio. Depois olho outras naves em outro momento."

Mesmo dizendo isso, Lex deu mais uma última olhada na Silent Night. Provavelmente seria a última vez que veria aquela nave, e a chance de cruzar com ela ou seu dono no futuro era quase zero. Não era nada proposital; só que ele não estava despertando sinal algum para um encontro futuro com aquele navio.

Era só uma nave, não é como se ele tivesse criado algum apego emocional por ela após um único olhar.

"Se me acompanhar," disse Powell, guardando a revista e voltando ao trabalho, "vou te levar primeiro à sala de teletransporte. Depois de concluir a troca, você pode voltar pelo mesmo caminho. Fique tranquilo, o empório preparou toda a logística para sua viagem e segurança no destino."

Zuri Adisa, cliente antiga do empório, já fazia várias trocas desse tipo sem nenhum histórico de problemas. Eu mesmo te acompanharei, mas a política do empório é não permitir que funcionários saiam do recinto."

Lex apenas assentiu e seguiu Powell pelos corredores desconhecidos, enquanto se perguntava se agora, com a função de teletransporte aprimorada, conseguiria estabelecer ligação com o novo planeta que visitaria. Logo descobriria.

Powell o guiou por corredores inusitados, sempre se certificando de manter Lex ocupado com conversas triviais. Embora não demonstrasse, sua recente promoção devia tê-lo deixado imensamente contente. Powell não parava de falar de todas as novidades que descobriu.

Por fim, chegaram ao destino, e embora Powell parecesse um pouco relutante por estar gostando de conversar com Lex, não atrasou o procedimento. Dentro da sala, havia uma plataforma circular pequena, flutuando poucos centímetros do chão.

"Esta é a plataforma dedicada ao planeta da Zuri," explicou Powell. "Embora possamos ativá-la daqui, o teletransporte só ocorrerá se a própria Zuri permitir. Mas você já está autorizado a viajar, então, quando estiver pronto, é só ficar no centro que eu ativarei a plataforma."

Lex assentiu, aproximou-se do centro e aguardou o início do procedimento. Powell não apertou botões nem ativou ningún interruptor, mas a plataforma começou a funcionar sozinha.

Um círculo de luz brilhante envolveu Lex, e novamente ele sentiu a sensação de ser transportado pelo espaço. Nada se compara ao teletransporte suave do Inn, mas o percurso desta vez foi bem mais tranquilo do que nas experiências anteriores.

Senti uma pressão incômoda no corpo, que o mantinha imóvel enquanto era movido através das dobras do espaço. Antes, o processo deixava Lex desorientado e desconfortável, pelo menos um pouco, mas agora ele se sentia até confortável. Quase como se pudesse entender para onde estava indo.

O Elixir da Erosão Cósmica! De repente, Lex percebeu que vinha bebendo dele sem parar, e que esse elixir continha leis relacionadas ao espaço. Será que isso de alguma forma desenvolveu nele alguma afinidade com o espaço?

Antes que pudesse refletir mais sobre isso, apareceu em um cenário que certamente deveria ser o paraíso.

Estava em uma plataforma semelhante à dos fundos da estalagem, cercada por pilares brancos no estilo da arquitetura romana. Acima de sua cabeça, havia uma pequena cúpula, como se dissesse a ele que tinha sombra. Mas era só isso. Não havia paredes nem barreiras, e toda a estrutura parecia estar situada dentro de um campo de flores de um conto de fadas infantil.

O ar era tão puro e fresco que até a Midnight Inn parecia insossa, e a brisa suave carregava o aroma de flores silvestres.

Ervas cresciam por toda parte, com um mar de margaridas ao redor. Ao longe, árvores enormes alcançavam as nuvens, formando uma espécie de limite ao campo de flores.

Pequenas criaturas corriam pelos campos, e pássaros ainda menores voavam ao redor, bebendo o orvalho das pétalas de flores.

Porém, o espanto de Lex não durou muito, pois logo percebeu que, seja pelos pássaros do tamanho do seu dedo mindinho, pelas criaturas minúsculas que se moviam pelos campos ou até mesmo pelas flores balançando ao vento… todas elas tinham um nível de cultivo muito superior ao dele!

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