
Capítulo 619
O Estalajadeiro
Sob um céu noturno familiar, havia um campo de batalha repleto de destroços que, outrora, pertenciam a antigas ruínas, que sem dúvida alguma, foram testemunhas de uma civilização gloriosa. O campo parecia se estender até o infinito e, talvez, se os combatentes chegassem longe o suficiente, enxergariam novamente algumas ruínas de pé.
Mas turismo não estava exatamente na agenda dos dois combatentes, que estavam presos a uma luta até a morte.
O repertório de John consistia de ataques extremamente letais e mortais, mas a maior fraqueza dessas técnicas era que eram mais voltadas para assassinato do que para combate. Eram projetadas para serem rápidas, penetrantes e devastadoras. Contudo, por mais que tivessem poder, era preciso atender a certas condições para usá-las.
Cumprir esses requisitos em meio a uma batalha ativa era, no mínimo, complicado.
Porém, qualquer assassino competente saberia que, em caso de uma tentativa fracassada, poderia ter que entrar em combate real e, quem sabe, até enfrentar um cerco. Por isso, suas habilidades eram mais do que suficientes mesmo no combate, embora não tão refinadas quanto no assassinato.
No entanto, o problema de John era que a criatura que enfrentava, semelhante a uma centopeia gigante, era absurdamente forte. Mesmo nas melhores condições, John talvez não conseguisse assassiná-la, e muito menos agora, quando o alvo já estava ciente de suas intenções.
John, que estava perfeitamente escondido dentro da dobra do espaço, dentro de uma sombra, descobriu que, assim como no teste do Mistério, qualquer plano de assassinato que seu sistema ajudasse a criar sempre seria perfeitamente contra-atacado por esse inimigo. A única hora em que obteve algum resultado positivo foi quando tentou seus próprios métodos, apesar da abordagem do sistema ser mais completa do que a dele.
Ele não sabia quem era esse adversário, nem por que ele tinha enlouquecido ao provocá-lo, mas John não ia subestimar a situação. Mesmo que métodos de assassinato direta gerados pelo sistema não estivessem funcionando, ele tinha outros recursos à disposição.
O olho de John ficou negro e ele se preparou novamente para um de seus breves, mas mortais, encontros. Linhas negras começaram a se espalhar por sua pele, como tentáculos de um mal indescritível, avançando sobre seu corpo de um abismo desconhecido.
Enquanto John se preparava para o próximo ataque, a criatura parecida com uma centopeia permanecia silenciosa e confiante nos Territórios do Assassinato. Como membro de uma organização de caçadores do sistema, sua força foi julgada suficiente para caçar um usuário comum do sistema, mesmo sozinho. Não seria tarefa fácil derrubá-la.
Além disso, embora a criatura soubesse que seu oponente tinha um sistema, John não tinha noção de que seu maior segredo já tinha sido revelado ao adversário – ainda que de forma parcial.
Essa vantagem que o conhecimento poderia proporcionar poderia ser pequena ou enorme. Mas o que se tinha de certeza era que o resultado dessa batalha ainda não podia ser definido com base nas vantagens de um lado ou de outro.
*****
Toda a equipe de segurança cercava os três Rinocênturos, observando enquanto Luthor os provocava. Na verdade, as ações dele estavam quebrando as regras. Os três 'convidados' não tinham feito nada ilegal, portanto não era adequado puni-los bloqueando sua saída do Território do Assassinato. Tecnicamente, até mesmo o desafio deles aos Territórios do Assassinato havia sido legal.
Como se não fosse ruim o bastante bloquear a saída, Luthor veio com a intenção de atacá-los. Considerando que tudo isso contrariava as regras, os funcionários se sentiram bastante desconfortáveis com a situação. Mas o plano de Luthor tinha sido aprovado pessoalmente por Gerard, o chefe de segurança.
Além disso, o principal motivo de Luthor e de todos estarem tão agitados era o fato de terem uma memória bem nítida do que aconteceu com seus colegas de trabalho. Na verdade, além da equipe de segurança, Harry também estava presente na formação do cerco.
Apesar de, tecnicamente, não ser um combatente e não fazer parte dos trabalhadores convocados pelo Inn, seu vínculo com a Midnight Inn era um dos maiores. Como alguém que só podia confiar em suas próprias habilidades e conexões para sobreviver, ser aceito por todos e ter um lar como a Midnight Inn era mais do que um sonho. Antes mesmo de tudo na Terra ser completamente destruído, ele tinha muito mais chances de acabar sem teto e sem dinheiro do que de qualquer outra coisa.
Por isso, movido pelo sentimento de lar, amizade e lealdade, ele se colocou na linha de frente. Mesmo não sendo quem tinha sido desafiado para o combate até a morte, ele não ficaria de braços cruzados assistindo enquanto um de seus companheiros fosse ameaçado.
Recentemente, um sentimento silencioso vinha se espalhando entre todos os trabalhadores do Inn. A maioria deles não tinha memórias anteriores ao Inn e não conhecia outro modo de vida além dele. Mesmo após conviver com inúmeros hóspedes e aprender sobre o mundo exterior, eles não sentiam que estavam perdendo nada. Na verdade, sentiam-se ainda mais próximos de seus colegas e do próprio Inn.
Mas se havia algo que os hóspedes tinham e que eles muitas vezes não possuíam, e que os deixava algo invejosos, era um sobrenome. Em determinado momento, como uma brincadeira, um hóspede zombou dizendo que todos faziam parte da família Midnight. Mas, como uma brasa caindo sobre uma pilha de folhas secas, a brincadeira não desapareceu. Em vez disso, virou uma pequena fogueira que lentamente e de forma constante se transformava numa labareda ameaçadora.
Na verdade, sem que Lex soubesse, após se recuperar de ferimentos quase fatais, Harry havia abandonar seu sobrenome original, 'Styles', e adotado o sobrenome Midnight.
Assim, ao enfrentarem esses três conspiradores, não era Harry Styles quem estava pronto para a guerra, mas Harry Midnight, o orgulhoso e poderoso Feiticeiro de Encantamento da Inn.
Perto dele não estavam seus colegas e vizinhos, mas sua família escolhida. Afinal, o sangue do pacto é mais espesso que a água do ventre.