
Capítulo 505
O Estalajadeiro
“Quem é?” Lex perguntou, levantando-se e esfregando os olhos. Ele vinha anotando todas as interações importantes que tinha com o sistema, na medida do possível, tentando entender suas regras. Havia muitas coisas que poderia explicar, mas uma das maiores mudanças que não conseguia explicar direito eram as ameaças de morte insistentes do sistema nos seus primeiros dias, e o fato de elas terem desaparecido de repente.
Ele tinha algumas teorias, claro, como reforçar o comportamento de fazer missões ou talvez fosse apenas o procedimento padrão dos sistemas. Afinal, as missões de Lex tinham a ver com a Pousada, mas e se ele tivesse o sistema Assassino? Não faria sentido algum ele aceitar aleatoriamente uma missão que envolvesse assassinato — a não ser que sua própria vida estivesse em risco.
De qualquer forma, independentemente do que fosse ou do motivo pelo qual parou, tinha certeza de uma coisa: dar esse tipo de missão era exatamente a razão de Lex desconfiar tanto dos sistemas.
— É a convidada chamada Alysha, aquela que passa o tempo todo com o Homem-Crab, o John.
— Ah? — Lex ficou realmente surpreso. Estava pensando numa boa maneira de abordá-la, mas quem diria que ela acabaria entrando em contato primeiro.
Foi uma coisa boa Lex ter mandado a Mary ficar de olho nela, senão nunca teria descoberto que ela estava tentando falar com ele. Isso porque há inúmeros convidados que tentam conhecer o Hospedeiro. Às vezes Lex tirava um tempo para conversar com alguns aleatoriamente, mas com milhões de convidados na Pousada, não é possível atender a todos.
A Mary só avisava Lex sobre convidados que solicitavam encontros se ele estivesse prestando atenção especial neles, se eles tinham preocupações reais que só ele poderia resolver ou se sua identidade fosse algo especial. Claro, a Mary não consegue adivinhar a identidade de alguém assim tão facilmente, mas geralmente era fácil descobrir.
— Mande ela entrar no meu escritório — disse Lex, teleportando até lá.
— Ela já está lá fora. —
Mais uma vez, Lex ficou surpreso. Parecia que o assunto era bastante sério. Mas enquanto Alysha estava fora do escritório dele, na verdade, era difícil para ela chegar até Lex, pois a pressão que emanava do hall de recepção tornava tudo muito difícil. Só a sua própria determinação permitia que ela cruzasse o ambiente.
Lex se sentia bastante mal por tê-la colocado nessa situação, ainda mais porque ele mesmo queria encontrá-la, mas as funções específicas dos prédios, dadas pelo sistema, eram coisas que ele não tinha controle.
Ele fez uma anotação mental para não receber certos convidados no escritório.
Bem na porta do escritório, Alysha respirou fundo, arrumando a aparência desarrumada, pelo melhor que pôde, e entrou na sala.
— Bem-vinda, convidada — disse, com um sorriso gentil e acolhedor. — Espero que não tenha esperado muito tempo.
— Não… de jeito nenhum! — ela respondeu, numa voz quase inaudível. Não era por timidez — embora fosse —, mas porque passara tanto tempo sozinha que se acostumara a falar pouco, ficando bastante silenciosa.
— Ótimo. Por favor, sente-se. —
Alysha mal conseguiu assentar antes de correr para sentar-se em frente ao Hospedeiro, com os olhos baixos. Antes, ela não era tão desajeitada socialmente, mas agora tinha se tornado assim.
Ao perceber que Alysha não ia iniciar a conversa, Lex não quis esperar que o silêncio se tornasse constrangedor e perguntou:
— Como posso ajudar você hoje? Precisa de alguma coisa?
Ao mesmo tempo, ele se repreendeu um pouco. Com Alysha, tinha ido direto ao ponto, enquanto com o imperador, ficara falando besteira, querendo obter mais informações sobre William.
— Eu, er... na verdade… eu… — Alysha tentou encontrar as palavras, mas quanto mais se confundia, mais ficava sem saber o que dizer. Pelo canto do olho, olhou para o hospedeiro, mas o viu ouvindo atentamente às suas divagações, com um sorriso acolhedor ainda no rosto. Ele não parecia impaciente, e deixando ela terminar no seu ritmo.
Uma onda de confiança surgiu nela enquanto ela parava de falar, planejava a frase mentalmente e a soltava, de uma vez:—
— A Pousada anda ótima… Não, quer dizer, maravilhosa! A Pousada tem sido ótima. Mas eu pensei… fiquei pensando… Quer dizer, surgiu outro problema e acho que você pode me ajudar. Afinal, a Pousada é tão grande, tãoLegal, tão poderosa. Quero dizer, você é poderosa, não a Pousada!
Lex soltou uma risadinha suave e falou devagar, para não assustar a convidada:
— Não há nenhum problema, mas ainda não posso prometer que vou ajudar. Por que você não me conta do que precisa, e vejo se posso dar um jeito de ajudar?
— Eu, er… olha, tenho uma coisa na cabeça. Não, espera, não é só uma ideia — é real! Posso até controlar a coisa com meus pensamentos, só que ela é muito real, e me deu um prazo. Consegui cumprir o prazo usando a sala da Guilda, mas agora ela está me dando mais missões e… prometo, é tudo verdade.
— Não é invenção minha. É… —
— Por favor, calma, — disse Lex ao perceber Alysha ficando aflita. Seu sorriso até cresceu um pouco mais, mas não pôde evitar. Estava há tempos procurando uma forma de abordar esse assunto, mas ela mesma tinha começado.
— Você está falando do seu sistema, certo? Eu acredito em você. Calma, conte tudo do começo. —