O Estalajadeiro

Capítulo 443

O Estalajadeiro

A brisa constante soprava suavemente sobre e ao redor da criatura rochosa. O campo onde ela meditava ficava longe das áreas populosas da Estalagem, e estava desprovido do burburinho da população. Em seu lugar, apenas os sons da natureza a acompanhavam.

Embora a criatura não tivesse tecnicamente ouvidos, ela podia ouvir qualquer som que tocasse seu corpo rochoso. Portanto, não era exagero dizer que ela ouvia com todo o corpo o som do mato farfalhando, o sussurro do vento, o bater das asas dos pássaros e o cooar das muitas pombas que estavam espalhadas por toda a sua superfície de pedra.

A criatura não possuía pele, mas era extremamente sensível às nuvens frescas que passavam por seu corpo. Ela não tinha nariz, mas conseguia perceber o aroma da natureza ao seu redor de formas que nem imaginava. Havia outros sentidos que ela não tinha na vida anterior, mas agora os sentia claramente.

Sentia a paz ao seu redor, sentia a beleza que o envolvia, sentia a própria vida lhe concedendo uma nova chance que nunca tinha pensado ser possível. E, mesmo com todas as bênçãos que tinha, como poderia se superar, num único instante, apegando-se de forma definitiva a tudo que restava de sua vida passada?

Com os olhos fechados, lembrava-se claramente dos dias de verão vividos na sua vida anterior, dias que não se comparam em conforto à paz do campo onde agora repousava. Ainda assim, trocaria essa tranquilidade num simples batimento de coração que já não possuía, pois a companhia que mantivera naqueles dias se perdera para sempre.

Nesta paisagem, vira flores de beleza indescritível, mas a criatura só se recordava de uma primavera que passou numa vila suja, fingindo ser uma pessoa comum ao lado da princesa que jurara proteger. Mesmo machucada e cansada, com o rosto sujo e o suor na testa, ela era mais bela do que qualquer rosto que o universo pudesse oferecer.

Qual seria a utilidade de uma segunda chance, quando ainda se carregava aos pedaços os fracassos da primeira? Como poderia satisfazer às exigências do sistema que lhe concedeu nova vida, quando a dor da derrota impregnava cada fibra do seu ser?

De repeatedly, seus últimos momentos na vida anterior voltavam à sua mente. A nação estava em guerra, o inimigo estava bem perto, eles se prepararam para a batalha, mas tudo deu errado de forma rápida demais. Lu Bu apareceu para matar a princesa dentro de sua própria casa, os guardas estavam todos mortos, o caos havia se instaurado.

A criatura se lembrava de ter segurado os inimigos para dar à princesa uma chance de fugir, mas uma lâmina atravessou seu coração, atingindo-o pelas costas.

O que tinha acontecido? Quem o havia traído? O que foi feito da princesa? Por mais força e poder que seu novo corpo continha, a criatura sofria somente com um lamento angustiado, incapaz de derramar lágrimas para expressar alguma de sua dor.

"Disseram que você queria me encontrar. Espero que não seja uma hora inconveniente."

Uma voz cortou o silêncio da noite, e com um sobressalto, despertou a criatura de seus pensamentos desesperados.

Quando a criatura abriu os olhos, viu um homem no ar bem na frente de seu rosto, como se estivesse de pé nas nuvens. Sua voz não assustou a criatura pela sua abruptidão, mas, ao contrário, a despertou de seu estado de depressão e a limpou das emoções negativas que a dominavam.

Percebendo que a criatura não respondia, Lex continuou.

"Ah, acho que esqueci de me apresentar. Sou o Estalajadeiro, dono deste humilde local. Espero que sua estadia na Estalagem esteja sendo agradável."

A criatura balançou a cabeça tristemente e disse: "Neste momento, não consigo aproveitar muita coisa."

"Está tudo bem? Alguma coisa errada?"

A criatura não respondeu de imediato, apenas olhou para o Estalajadeiro, enquanto uma batalha mental acontecia dentro dela. Não era inexperiente nem burra. Sabia que alguns assuntos deviam ficar em sigilo. Mas estava desesperada, e esse desespero começava a dominar as partes racionais da sua mente, que tentavam guardar os seus segredos.

"O universo… é mesmo… grande demais." Finalmente, a criatura falou, exalando o que Lex só pôde imaginar ter sido um suspiro, e não uma rajada de vento.

"Eu não o entendo. Nem esta forma," disse, olhando para seus braços de pedra. "Vai além do que eu posso compreender, do que imaginei ser possível. Ainda assim, estou vivo e preciso de respostas. Esperava que você, por ser alguém com uma força enorme e que criou algo tão grandioso, pudesse me ajudar a entender."

Lex fitou aqueles olhos rochosos e sinceros. Isso… não era o que ele esperava. Mesmo com a forma diferente, naquela expressão ele viu uma dor que era demasiado humana.

"Só posso dizer que farei o possível para responder às suas perguntas. Se forem assuntos sensíveis, gostaria de levar você a um lugar mais reservado antes de começarmos?"

A criatura assentiu, e antes que pudesse se levantar, Lex teleportou ambos para seu escritório.

Durante os Jogos da Meia-Noite, Lex acrescentou à Estalagem um recurso que permitia às criaturas gigantes diminuir de tamanho automaticamente ao tentar entrar em edifícios, assim elas podiam usar todas as instalações do local. Caso contrário, se Lex tivesse que recriar todas as estruturas para cada tamanho, tudo seria bastante trabalhoso.

A criatura de pedra também se surpreendeu com a mudança repentina de localização e de tamanho, mas logo se adaptou. Pareceu ainda mais confiante no poder do Estalajadeiro.

"Esta… é minha segunda vida," começou a criatura, indo direto ao ponto.

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