O Estalajadeiro

Capítulo 392

O Estalajadeiro

Ele buscaria uma oportunidade para testar o cartão de visita do Fogueiro em alguém inconspícuo, explorando suas habilidades e limitações. Por ora, no entanto, ele tinha outro item que desejava experimentar.

Ele pegou o cortador de cartas e, sem esperar pelo clima de suspense, usou-o para abrir a carta. O selo de cera saiu facilmente, e o envelope se desenrolou sozinho, revelando uma única página que começou a pairar no ar automaticamente.

Graças ao conversor de Língua Universal que Lex havia recebido, ele conseguia ler e escrever praticamente qualquer idioma que encontrava com muita facilidade. Na verdade, essa foi a razão dele conseguir se comunicar com os Kraven.

Mas ao ver a escrita na carta, a bela caligrafia roxa na página, ele soube instantaneamente duas coisas. Primeiro, que independentemente de possuir ou não o conversor de idiomas, conseguiria compreender tudo que estivesse escrito ali. Segundo, que precisaria aprender uma caligrafia própria se algum dia quisesse escrever uma carta como a do Fogueiro.

Deixando de lado seus pensamentos aleatórios, Lex começou a leitura.

'Honrável Fogueiro, sua presença e atividade no reino da Origem foram notadas e reconhecidas. A Henali gostaria de agradecer por ter escolhido o reino da Origem para estabelecer seu negócio e convida-lo para a assembleia centenária da Henali, onde poderá conhecer e interagir com outros indivíduos influentes e de ideias semelhantes.

'Caso você não esteja familiarizado com a assembleia da Henali, trata-se de um encontro que reúne todos aqueles no reino da Origem que tocaram o Dao, sob a proteção da Henali, para discutir acontecimentos atuais. Não há necessidade de filiação para participar, e os participantes podem manter sua identidade anônima.'

'A assembleia da Henali é também o único portal por onde um Daolorde pode solicitar sua entrada na corte da Henali, além de outros eventos essenciais e restritos a afiliados.'

'Esta carta também funciona como uma chave para entrar na assembleia, e só pode ser ativada na primeira hora do evento.'

'A Henali aguarda com expectativa sua presença.'

'Tempo para a assembleia: 104 horas, 33 minutos, 59 segundos.'

Lex leu e reliu a carta várias vezes, analisando o máximo de informações possível. Seu coração acelerava imensamente ao ponderar a possibilidade de ir, e todos os riscos envolvidos.

Se fosse para ir pessoalmente, ele nunca arriscaria encontrar um Daolorde por um motivo bem simples: não era preciso ser um gênio para perceber que o reino dos Daolordes era ainda mais avançado que o reino em que Bastet estava, já que sua cultivação era apenas intitulada como Demi-Daolorde.

Além disso, agora que sabia que cultivadores de nível elevado poderiam detectar seu sistema, ele preferia evitar ao máximo esse tipo de contato. Mas o cartão de visita oferecia uma solução potencial.

Como a 'aura do Fogueiro' era gerada pelo sistema, ele não duvidava que pudesse emular qualquer força que as pessoas atribuíssem ao Fogueiro. E como o evento estaria sob a proteção da Henali, que quer que fosse, ele não precisaria correr o risco de que sua consciência clonada fosse atacada ou até mesmo analisada em detalhes.

Ele estava extremamente tentado, e sua ganância habitual — que normalmente permanecia escondida — voltou a se manifestar. Seria uma excelente oportunidade, poderia obter muito… mas ao mesmo tempo arriscaria bastante. Além disso, a assembleia, que acontece apenas uma vez a cada século, ocorreria em pouco mais de 4 dias.

O timing era extremamente ruim, pois, se fosse só alguns anos adiante, Lex tinha certeza de que estaria muito melhor preparado para participar.

No entanto, o tempo não espera por ninguém, e ele tinha de tomar uma decisão — e só tinha alguns dias para isso.

Lex virou seu olhar para os outros dois itens deixados pelos representantes da Henali. A arca de madeira parecia um presente, mas o outro era uma cópia das convenções da Henali.

Independentemente de decidir ou não ir, ler as convenções lhe traria um enorme benefício, pois complementaria seu entendimento do universo, ou ao menos do reino da Origem.

Ele pegou o cristal roxo, de forma tetragonal e em forma de pirâmide, e tentou canalizar sua energia espiritual dentro dele, mas, como esperado, nada aconteceu. Então, canalizou sua energia espiritual através do cortador de cartas e, para sua surpresa, o cristal se quebrou, e um fluxo de energia invadiu sua mente.

Em vez de se fundir à sua memória, surgiu uma espécie de livro em sua mente que ele podia abrir e consultar a qualquer momento. Só porque o livro estava na sua cabeça não significava que Lex tivesse memorizado todas as informações, mas sim que sua velocidade de leitura seria astronômica.

Cheio de expectativa, Lex começou a ler as convenções, e muitas coisas finalmente passaram a fazer sentido. Ao mesmo tempo, ele finalmente entendeu por que todos tinham tanto medo da Henali.

Na mesma linha que humanos, demônios e dragões eram raças, a Henali era na verdade o nome de uma raça. Não havia muitas descrições sobre eles neste livro, pois isso não era totalmente relevante para as convenções.

O que foi mencionado, no entanto, foi que todo esse vasto reino da Origem — que os humanos na Terra costumavam imaginar como se fosse o universo inteiro, e não apenas um reino entre muitos — era apenas um dos reinos sob o controle da Henali. E suas convenções se aplicavam em cada um dos reinos que ela possuía.

Além disso, a razão pela qual Daolordes eram proibidos de participar de incidentes relacionados à civilização no reino da Origem era muito simples. Assim como o reino dos Imortais Terracota era o ápice do Reino de Cristal, o reino dos Daolordes ficava um nível acima do pico natural do reino da Origem. Se usassem toda sua força, poderiam destabilizar o próprio reino.

Ora, ao que tudo indicava, como o reino da Origem tinha apenas 19 bilhões de anos, ainda não tinha maturidade suficiente para suportar, de modo natural, seres de um reino de tal nível.

Quanto mais Lex lia sobre as regras, mais arrepios lhe tomavam o corpo.

*****

No coração do reino da Origem existia uma terra impossivelmente vasta. Não poderia ser chamada de planeta, pois que planeta seria tão grande que as galáxias parecessem pequenas? E, apesar de seu tamanho desafiar a ciência — pelo menos a ciência dos terráqueos — a massa permanecia em um estado estável.

Ela sustentava vida, tinha climas ricos e variados, era absurdamente carregada de energia espiritual — a ponto de, ao invés de água, frequentemente chover energia líquida — e, acima de tudo, parecia não afetar o próprio reino da Origem com sua gravidade, que deveria ser inimaginavelmente forte.

Mas não era só o tamanho dessa massa que desafiava a lógica. Seis correntes, cada uma composta de elos maiores do que o próprio sistema solar, se projetavam da massa para o espaço.

Como se isso não fosse suficiente, cada elo dessas correntes também desenvolvia seu próprio clima, criando seres de vida únicos e raças jamais vistas antes. Mas tudo isso era mero acaso. A verdadeira missão das correntes era agir como coleiras — e aquilo que elas prendiam deixaria qualquer um que entendesse mínimamente o universo assustado.

Seis buracos negros pairavam ao redor da massa, sugando tudo o que o universo tinha a oferecer — e, ao mesmo tempo, pareciam fugir da massa, como se tivessem alguma espécie de consciência. Infelizmente para eles, as correntes que os prendiam não estavam nem um pouco ameaçadas pelo poder assustador que possuíam.

Nesse continente, em algum lugar, havia um templo no qual uma ave, aparentemente feita de pura energia, lia algum tipo de livro. Ela parecia absorta, como se o próprio mundo não pudesse distraí-la dos segredos do universo que se deleitava em desvendar.

Porém, uma potente descarga de energia a atingiu, derrubando-a de seu poleiro e atraindo sua atenção.

"Pare de ler aquela porcaria pervertida e volte ao trabalho", retumbou uma voz etérea. "Outro epístola foi aberta, e, portanto, a presença de mais um Daolorde foi confirmada. Adicione mais uma cadeira na sala da assembleia, e descubra quem pode ser o novo Daolorde. Também averigue se ele ou ela estão participando do torneio dos Campeões da Henali."

O poço de apostas abrirá em breve, então, se houver novos participantes, precisamos fazer nossa investigação."

A ave de energia apenas rolou os olhos e, com um suspiro exausto, começou a seguir as instruções da voz.

Se alguém bem informado visse a ave, ficaria assustado até gastar todo o fôlego, pois essa ave era exatamente uma das poucas Fênix remanescentes no reino da Origem — e, no entanto, ela estava ali, sendo tratada como uma servente. A Fênix, contudo, não mostrava relutância ou hesitação enquanto começava a cumprir suas tarefas.

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