
Capítulo 372
O Estalajadeiro
O serviço de creche do Inn da Meia-Noite, que havia existido por exatos 3 minutos e 21 segundos, foi surpreendido pelo cerco dos guerreiros Pavo. Montados em suas criaturas viscosas, eles saltaram sobre as paredes acolchoadas e seguras para crianças, entrando direto na zona infantil.
Alguns aterrissaram no labirinto de arbustos, cheio de frutas maduras e deliciosas, prontas para serem colhidas e devoradas. Outros que saltaram sobre as paredes caíram na piscina de bolas, ou melhor, no mar de bolas plásticas coloridas. Outros ainda pousaram em casas feitas inteiramente de superfícies como trampolins, enquanto alguns se encontraram no parque de aventuras que ficava acima de uma grande piscina.
Doces irresistíveis estavam escondidos como tesouro no centro do parque, visíveis para todos, mas o caminho até eles era perigoso.
— Princesa Layla, o inimigo colocou armadilhas — disse Jimmy, fixando o olhar na gelatina mais balançante já vista, escondida no centro de um labirinto de espelhos.
— Os guerreiros Pavo não conhecem o medo — ela respondeu com coragem. — Avançar! Os nossos territórios conhecerão nossa força!
Mas antes mesmo de a marcha começar, os coelhos da Nação Coelho apareceram um a um, confusos. Eles tinham sido contratados como cuidadores na creche, mas ninguém tinha vindo deixar crianças lá, então de onde tinham saído aqueles pequenos?
Infelizmente, ninguém respondeu a eles.
Os coelhos pouco sabiam como lidar com crianças, então começaram a pular ao redor, tentando acalmá-las. Mas, na verdade, só facilitaram que fossem alvos fáceis para os guerreiros Pavo.
Assim, teve início a primeira das grandes escaramuças entre os Pavo e os Coelhos.
Lex, triste por não saber do que seus funcionários estavam passando, dispensou Mary e voltou ao salão principal da taverna. Depois de retomar o controle do sistema — e de conseguir melhorias e benefícios — o humor de Lex melhorou bastante ao retornar para a família Noel.
O homem no balcão ainda chorava, com a cabeça coberta por uma toalha que Rick jogara na direção dele. Bertram e outro homem também estavam sentados no bar, bebendo uma bebida quente enquanto aguardavam o retorno de Lex.
Apesar de a cidade precisar da ajuda deles, a situação não era mais de emergência, então podiam esperar com calma. Afinal, todos os monstros estavam mortos e as pessoas presas no subsolo estavam apenas presas, não feridas — ou pelo menos, assim parecia.
Mesmo que fosse assim, compreender a verdade por trás não só da taverna, mas também daquele aura misteriosa de antes, tinha prioridade. Afinal, seria muita coincidência uma taverna capaz de sobreviver aos ataques de Zagan surgir justamente ao mesmo tempo que uma entidade poderosa e desconhecida, que eles nunca haviam descoberto na região.
Mesmo que não fosse hostil, eles não podiam simplesmente ignorar a presença. Afinal, aquele era território deles e tinha muitos segredos ocultos. Mesmo que no momento não houvesse conflito, isso não significava que no futuro não pudesse haver, caso esses segredos fossem revelados.
— Peço desculpas pelo meu comportamento mais cedo. Houve algo que exigiu minha atenção — disse Lex ao se aproximar de Bertram.
— Considerando tudo que aconteceu aqui recentemente, é completamente compreensível que tenha algumas chamas para apagar por aí — respondeu Bertram. — Deixa eu te apresentar. Este é meu pai, Joseph Noel — senhor deste território.
— É uma honra conhecê-lo — disse Lex de maneira educada, embora tenha apenas dado uma leve cabeça, ao invés de uma reverência elaborada, como se faz diante de uma pessoa tão importante. Já era tarde demais para ele fingir ser alguém comum, então não fazia sentido tentar ser excessivamente formal.
— Seu estabelecimento oferece um serviço surpreendentemente bom — comentou Joseph, levantando um pouco sua caneca. — Surpreende-me que tenham aberto uma taberna em uma cidade tão pequena e não em uma das grandes metrópoles.
— Cidades pequenas têm seu charme rústico — respondeu Lex. — Além disso, não estava muito na vibe de agitação. Uma taverna simples em uma cidade simples já é suficiente para mim.
— Uma taverna simples? — repetiu Joseph com um sorriso divertido.
— Sim, em uma cidade simples — confirmou Lex, encarando o homem nos olhos. — Aliás, tenho algo para lhe entregar.
De dentro do bolso, Lex retirou uma pilha de papéis e entregou ao homem.
— Sem querer te ofender, mas, como senhor do território, imagino que vá cuidar das despesas com hospedagem e alimentação dos sobreviventes durante esse período, certo?
Os papéis consistiam em uma fatura detalhada de todos os serviços prestados por Lex durante esse tempo para todas as pessoas que se entupiram na taverna. Primeiro, por senso de humanidade, Lex decidiu não cobrar nada, considerando a situação de emergência. Mas, como o “senhor do território” estava ali, não havia motivo para ele continuar arcando com os custos.
Afinal, ele tinha um negócio, não uma instituição de caridade.
Joseph teve dificuldade em manter a expressão séria ao receber a conta, que foi entregue a seu filho sem sequer olhá-la direito.
— É claro que vamos cuidar disso — respondeu Joseph. — Mas, falando em cuidar de sobreviventes em uma emergência, é impressionante que sua taverna tenha sobrevivido à destruição de Zagan.
Era hora. Lex precisava dar algum tipo de resposta, por mais vaga que fosse.
— Acho que sim — disse Lex. — Foi graças a uma formação protetora deixada por um amigo meu, que se preocupava muito comigo.
— Que Deus abençoe amigos assim — comentou Joseph, embora fosse incerto se ele acreditava na história.
— Seu amigo ainda está por perto? Com uma habilidade dessas, eu não me incomodaria de pagar pelos serviços dele pra montar uma formação ou duas. Afinal, perigo surge a todo momento nesta região. Até Zagan, o rei do oceano, foi assustado pela aura de outro ser poderoso próximo. Eu mesmo fiquei surpreso, mas nem todos que escaparam da sua taverna sentiram essa aura.
Essa proteção realmente é notável — elogiou.
— Meu amigo saiu há um tempo, mas agradeço em nome dele pelos elogios à sua habilidade. Não sei qual aura você menciona, pois também não a senti, mas talvez devesse dar uma olhada no subterrâneo. Existem várias auras estranhas vindo de lá recentemente — sugeriu Lex.
Embora fosse tudo educado, os testes sutis e as investidas do senhor foram facilmente desviados por Lex.
Quando Joseph insinuou que Lex poderia saber ou estar ligado à aura que assustou Zagan, ou que até mesmo ela poderia pertencer ao seu misterioso “amigo”, Lex respondeu que não tinha intenção de revelar nada e que, se perguntas precisassem ser feitas, algumas poderiam ser feitas por ele mesmo sobre o que estava acontecendo na cidade.
Afinal, até a Lótus nas costas de Lex tinha sido atraída pela aura revelada anteriormente. O que estivesse escondido lá embaixo era realmente algo inestimavelmente valioso. Talvez, talvez, toda a razão de a cidade ter sido fundada exatamente ali fosse usar uma formação de proteção como fachada para uma formação muito mais elaborada — cuja verdadeira finalidade seria esconder os tesouros abaixo.
Houve um momento de silêncio, quando Joseph esteve prestes a responder a Lex, mas o homem choramingando ao lado deles se levantou rapidamente.
Ele removeu a toalha da cabeça e olhou para Lex com olhos cheios de linhas vermelhas!
— Quero mais! — disse roucamente. Já fazia tempo que não ficava tão embriagado, como na última vez que experimentara algo tão magnífico. Infelizmente, os efeitos da bebida, embora maravilhosos, não duravam muito. Com seu nível de cultivo, mal conseguia ficar bêbado por uma hora.
Como um viciado, ele naturalmente estava desesperado para beber de novo. Mas Lex não se esqueceu de sua última missão: ajudar o homem a vencer o alcoolismo, e fazê-lo em 3 dias.
Essa tarefa não seria fácil, mas Lex definitivamente tentaria. Na verdade, ele já tinha duas estratégias na cabeça para resolver o problema.
A primeira era um plano complexo, baseado na disposição do próprio homem em colaborar. A segunda era transformá-lo de alcoólatra em dependente de drogas. Não era a solução mais ética, mas, com apenas 3 dias, era preciso ser um pouco criativo.
— Desculpe, só me resta mais uma dose e o preço da bebida mudou — disse Lex.
— Não importa. Não importa o preço, posso pagar — respondeu o homem.
— Não se trata de dinheiro — afirmou Lex, ao se despedir do saldo de 500 mil MP que receberia com a venda — Você precisa fazer algumas coisas por mim. Vamos começar por aqui.
Lex soltou um bauzinho de farfalhar, convocando Fenrir, que saiu da cozinha balançando a cauda.
— Tire ele da cidade e ajude-o a caçar monstros por um tempo. Ele nunca teve uma oportunidade assim, então é a melhor chance de treinar. Mas, claro, sem deixá-lo se machucar — pontuou.
Honestamente, uma vez que o papel original de Fenrir era proteger a inn, era hora de ele começar a treinar um pouco como caçador.