O Estalajadeiro

Capítulo 335

O Estalajadeiro

Naquele dia, as aves-sol no céu desapareceram no horizonte, dando origem a um pôr do sol raro naquela terra, e trazendo uma escuridão que duraria por muitos dias. A temperatura caiu drasticamente, tanto que a neblina começou a se formar a cada respiração.

A estalagem não tinha controle de temperatura como a Taverna Real, e a adição de uma lareira era algo que Lex não pensara na época das primeiras reformas. Depois de ponderar a situação por um momento, Lex comprou uma formação simples para resolver o problema. Mas, ao invés de implantá-la diretamente, pediu a Rick que a montasse manualmente, para que seus hóspedes vissem.

Levaria algumas horas para montar, e cobriria apenas o salão principal, mas isso já era suficiente.

Sim, isto não passava de uma simples taverna. Mesmo a formação para aquecimento era simples.

Diferente da universidade, que tinha luz solar perpetuamente o tempo todo, e contava com sistemas bem definidos e automatizados para quando a luz desaparecia, o restante do reino era bem diferente.

A escuridão era absolutamente letal nesse reino, de formas variadas. Na ausência de luz, por motivos desconhecidos, a energia espiritual começava a sofrer mutações, envenenando quem tentasse absorvê-la. Nem mesmo a raça Cristal e Kraven eram imunes a esse tipo de envenenamento.

Se a escuridão persistisse, a energia espiritual mutante começaria a se aglomerar, dando origem a criaturas estranhas. Não havia um padrão fixo para o tipo de entidade maligna que a escuridão poderia gerar, e existia uma teoria bastante popular de que os próprios Kraven nasceriam da escuridão, devido ao limo preto que cobre todo o corpo deles.

As monstros formados possuíam uma consciência básica, suficiente apenas para os cheirar e sentir desejo por carne e sangue de qualquer espécie. Felizmente, as criaturas que surgiam geralmente eram fracas, e levaria meses de escuridão para dar à luz monstros fortes o bastante para ameaçar cidades inteiras.

No entanto, viajantes solitários, pequenos grupos e postos avançados não protegidos eram vulneráveis a esses monstros, sendo as principais vítimas.

Esses ainda eram apenas o perigo mais comum na escuridão. Quanto mais tempo uma região permanecesse na penumbra, maior e mais única se tornaria a ameaça que surgiria.

Por isso, cidades e vilas do reino Cristal funcionavam de formas diferentes dependendo de haver luz ou não. A principal diferença era que qualquer viagem fora da área urbana ficava estritamente proibida. A maioria das pessoas recebia folgas pagas ou tinha suas horas de trabalho reduzidas, de acordo com suas funções.

Não havia risco de mutação ou envenenamento dentro da cidade porque qualquer tipo de luz impediria que isso acontecesse, então todas as cidades eram bem iluminadas. O perigo, geralmente, vinha das áreas ao redor.

Para Lex, a chegada repentina da escuridão significava, na verdade, um aumento nos negócios. Desde marinheiros a carregadores, de trabalhadores braçais a mercadores ricos, de fazendeiros a senhorios, todos tinham o costume de aproveitar mais os primeiros dias de escuridão. As horas de trabalho eram reduzidas, e havia pouco ou nenhum risco vindo do entorno.

Claro que nem todos conseguiam folga imediatamente, mas havia gente suficiente para que Lex passasse de uma taverna quase vazia a uma quase lotada em menos de uma hora.

As trigêmeas logo entraram em ação, exibindo suas habilidades para Lex. Considerando que ele ainda estava com poucos funcionários, esperava que elas tivessem dificuldades em lidar com a multidão, mas a experiência de viver numa casa com outros oito irmãos as tornava especialmente habilidosas em lidar com aglomerações.

Ele rapidamente decidiu contratá-las. O que trouxe um novo desafio: não tinha certeza de quanto pagar, já que não conhecia qual era o salário padrão em Babilônia. Isso caberia discutir com Dino depois.

O dia passou rapidamente, e embora a taverna de Lex estivesse cheia, não tinha a animação de ontem. Aproveitou esse tempo para se familiarizar com alguns moradores, além de espalhar a notícia de que ainda buscava um bom cozinheiro.

Ao final da noite, Lex parou para si mesmo, satisfeito por ter conseguido passar o dia sem acidentes ou problemas. Sim, ele dirigia uma taverna completamente normal, sem nada excessivo ou misterioso acontecendo.

Claro que essa era apenas a sua visão, baseada na sua perspectiva. Porque, devido ao tempo que passou no mundo da cultivação e às experiências inusitadas que teve, era completamente alheio ao fato de que a Taverna da Meia-Noite já tinha adquirido certa fama, sendo o proprietário o mais misterioso de todos.

Ignorando o fato de que ele de repente apareceu e abriu uma taverna quase da noite para o dia, sem que ninguém tivesse ouvido falar antes, ainda havia algumas coisas que chamaram atenção como curiosas ou impressionantes.

Seu comportamento sob a pressão de um imortal nem precisa ser mencionado, pois já se entendia que essa única ação marcava Lex como alguém com uma origem poderosa e misteriosa.

A forma como conseguiu conversar com Pvarti, tratando-o como um hóspede comum e não bajulando, também chamava atenção. O timing da abertura da taverna também era suspeito, justo na hora de receber os irmãos Noel.

Mas esses detalhes eram notados apenas por observadores atentos. Além disso, Lex sabia que não recuar sob a pressão de Bertram atrairia atenção, mas seu plano era criar algum tipo de dissuasão contra os desordeiros e agressivos. Algo que planejava levar um tempo para desenvolver.

Não, o que realmente fez a reputação da Taverna da Meia-Noite ser inexplicável foi que as bebidas que servia eram simplesmente excepcionais. Mesmo a mais barata tinha um sabor excelente, ainda não havia dado ressaca a ninguém e ainda deixava muitos se sentindo mais saudáveis no dia seguinte.

Por mais que Lex fosse aparentemente comum, esse fato simples faria com que ele nunca parecesse uma pessoa normal.

Atualmente, não havia um consenso claro sobre a origem de Lex, pois os rumores ainda estavam apenas no começo. Mas todos concordavam que sua história era fora do comum.

Porém, o “todos” aqui se referia apenas aos poucos clientes que ele tinha até então, que eram poucos. Muitos outros só haviam ouvido falar da taverna recentemente, sem uma impressão forte a seu respeito.

Justo quando os últimos clientes de Lex se preparavam para partir, três homens, que só tinham ouvido falar da taverna, sem entender completamente, entraram. Como uma taverna respeitável, o bar e a cozinha não ficavam abertos a noite toda, e Lex estava quase para informá-los disso, quando percebeu que a energia no ambiente mudou.

Seus hóspedes, que se preparavam para sair, pararam, com os olhos fixos nos três homens. Havia uma expressão de apreensão em seus rostos, misturada a uma pitada de pena.

As ações dos clientes pareceram claramente exageradas, especialmente por olharem de forma ostensiva para os três, mas eles, os homens, pareciam não notar.

Os dois homens que estavam atrás eram grandes e musculosos, enquanto o que estava na frente era baixo, mais baixo que Lex até, mas sua aparência chamava atenção por outro motivo. Vestia roupas formais, embora seu traje parecesse desalinhado. Como se tivesse tentado montar um visual bem coordenado, mas as cores estivessem um pouco fora da harmonia.

Além disso, o chapéu que usava também tinha um aspecto bem estranho. É rude julgar ou fazer suposições, mas, à primeira vista, parecia que o homem tentava copiar o vestuário de alguém de uma classe social mais elevada, sem entender direito o que aquilo realmente envolvia.

Porém, nada disso tinha relação com Lex, que não era do tipo de julgar pelos superficiais, e preferia manter o foco no seu próprio negócio.

"Abarraço vai fechar por hoje", disse Lex com um tom de despedida triste. "Mas vocês ainda podem procurar um quarto, se for o caso."

O homem baixo, que até então tinha observado o salão, virou-se e olhou para Lex. Ele sorriu de forma calorosa e entusiasmada, tirou o chapéu e colocou sobre o balcão.

"Ah, tranquilo. Estava passando por aqui e ouvi falar da festa louca que vocês fizeram ontem à noite. Só queria dar uma olhada e fazer umas apresentações. Meu nome é Elio Ricci."

"Prazer em te conhecer, Elio. Sou o Lex."

"Oi, Sr. Lex, parece bem jovem pra quem é dono de uma taverna. Estou impressionado. Se não for incomodar, gostaria de trazer meu pai aqui amanhã para aproveitar sua hospitalidade. Se tem uma coisa que meu pai gosta, quase tanto quanto uma bebida forte, é de conhecer gente nova e fazer amizades."

"Será uma honra", respondeu Lex de forma simples. Até então, Elio não tinha feito nada que destoasse, então Lex não faria distinção entre ele e um hóspede comum. Contudo, ele sabia que seus outros convidados ainda estavam paralisados, então Elio definitivamente não era alguém comum.

"Muito bem, Sr. Lex. Muito bem. Nos vemos amanhã." Com isso, ele pegou seu chapéu e saiu da taverna, sendo seguido de perto por seus comparsas, mantendo um sorriso cordial o tempo todo.

Seu saída, no entanto, finalmente permitiu que os demais hóspedes relaxassem.

"Aquele foi o filho do Sr. Ricci, Elio Ricci", sussurrou Naki, o mais velho dos trigêmeos, para Lex. "A rua dos padeiros faz parte do território deles. Eles cobram proteção de todas as lojas."

De repente, Lex entendeu o que tinha acontecido. Em vez de ficar preocupado, ficou empolgado. Sim, como uma taverna qualquer, ele certamente precisaria pagar proteção para os mafiosos locais. Talvez eles realizassem reuniões secretas na sua taverna. Quem sabe o chefe da turma, ou, ouso dizer, da máfia, fosse chamado de Padrinho como naquele filme famoso aqui na Terra?

Ah, sim, Lex tinha certeza de que ficaria animado. Seu único erro foi esquecer de esconder essa empolgação, o que fez todos na taverna olharem para ele de forma estranha.

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