O Estalajadeiro

Capítulo 308

O Estalajadeiro

Até certo ponto, Lex estava falando aleatoriamente, fazendo qualquer coisa para distrair o Kraven mesmo que fosse por um momento. Mas ao mesmo tempo, muitas das coisas que Lex dizia baseavam-se em suas próprias hipóteses. Ele vinha estudando a história do reino, e embora seu foco principal fosse o desenvolvimento da nação Hum, ao analisar a política, ele captava pedaços e mais pedaços do que acontecia com as outras raças.

Sob a ameaça real do Kraven, por trás da enorme máquina de guerra que a raça humana estava se tornando, além das ondas intermináveis de lavagem cerebral e propaganda que ensinavam às massas que o próprio propósito de sua existência era lutar ou matar o Kraven, Lex detectava uma severa falta de desespero. Isso não queria dizer que o homem comum não estivesse desesperado.

Não, a vida do cidadão médio era vivida sob a sombra de uma ameaça sempre iminente e de uma luta incessante para fazer absolutamente qualquer coisa para superá-la um dia. Até mesmo as classes média e algumas da alta sociedade tinham suas vidas marcadas pela desesperança.

Mas no mais alto escalão, onde eram tomadas as políticas e estratégias, onde o futuro era planejado e o rumo das vidas das pessoas era decidido, Lex percebia uma calma extremamente focada e calculada.

Como sua origem supostamente era de Gristol, ou pelo menos era de lá que tinha sido trazido, Lex estudou a retirada e a queda final das forças humanas de lá.

A forma meticulosa com que reforços eram enviados para a fronteira, e não para Gristol em si, e a precisão com que forças importantes eram retiradas enquanto permitiam que o núcleo principal do exército em Gristol lutasse até a morte pareciam extremamente calculadas aos olhos de Lex.

Se alguma verdadeira causa de desespero estivesse presente entre os governantes, eles teriam sacrificado o máximo que pudessem para garantir que o Kraven sofreria o maior dano possível, ao invés de simplesmente recuar.

Lex se lembrou de quando Vegus Minima ainda não havia caído sob controle das forças Jotun, de como Chen e Blane tinham ido numa missão suicida para distrair os zumbis, permitindo que sua caravana passasse sem serem detectados. A determinação e a coragem de Lily, a líder da caravana, ao enviar seu próprio irmão numa missão suicida transpareciam a desesperada luta pela sobrevivência.

A nação Hum, apesar de todos os esforços que fazia, ainda não tinha chegado nem perto disso.

Haviam alguns outros indícios que ele captou aqui e ali, mas, no resumo, o grande reino de guerra não era tão simples ou tão sombrio quanto parecia.

Ele esperava conseguir alguma resposta daquele Kraven em particular, mas depois de tudo que Lex falou, o Kraven simplesmente o olhou. Não foi que ele não tenha sido tentado pelo que Lex disse, mas que ele simplesmente não se incomodou em responder. Contudo, o ódio e a raiva em seus olhos eram incomuns. Era mais do que apenas gozação — ou pelo menos, foi o que Lex pensou.

"Tudo bem, não são marionetes, mas o que…"

Lex recuou rapidamente, usando a habilidade "Falar com a Mão" com as duas mãos, enquanto tentava evitar o Kraven que avançava velozmente. Seus arrepios percorriam seu corpo, e ele tinha certeza de que a luta tinha mudado bastante ali. Se antes o Kraven tratava as coisas com indiferença, o que infelizmente para Lex era o caso, agora ele não fazia mais isso.

Lex quase foi atingido por pouco, graças ao seu instinto que lhe alertou com antecedência, mas comparar a velocidade de um cultivador de Núcleo Dourado com a de uma criatura assim era uma decisão idiota.

Quando o Kraven se manteve de pé, tinha o tamanho duas vezes maior que o de Lex, mas sua agilidade era notável. Lex estava demasiado perto para fazer movimentos maiores e o ritmo da luta era rápido demais para fazer mais perguntas. Enquanto antes ele teria pulado para escapar de um soco, agora precisava limitar seus movimentos e mover só o necessário para evitar um golpe direto.

Era uma cena de filme, ou talvez de anime, enquanto Lex esquivava-se perfeitamente de cada garra do Kraven, movendo seu corpo antes mesmo dele iniciar o ataque. Por um tempo, eles se tornaram um borrão, encaixando a luta numa dança extremamente elaborada, com cada movimento sincronizado como se já tivessem praticado a coreografia milhões de vezes.

Pareciam duas máquinas, operando com precisão mecânica, mais do que inimigos.

Nos poucos segundos em que Lex ficou completamente suado, logo o suor começou a subir do corpo dele, transformando-se em vapor. Surpreendentemente, ele podia sentir seus músculos rasgando, ainda que levemente, não pelos ataques do Kraven, mas pela pressão extrema a que estavam sendo submetidos. Por mais que quisesse se afastar e criar distância, o Kraven não lhe dava uma chance sequer.

Porém, o balé espetacular terminou tão rápido quanto começou, quando uma pequena pedra sob o pé de Lex se desfez. Não foi suficiente para fazê-lo cair ou escorregar, mas foi suficiente para desequilibrar sua postura por um instante. E, nesse riscar de tempo, como se o Kraven tivesse planejado exatamente aquele momento, Lex viu não seus braços, mas a perna se estender em direção ao seu rosto.

O tempo pareceu desacelerar enquanto Lex olhava diretamente para as garras, que reluziam sob a luz azul suave, vindo em sua direção. Lotus ou não Lotus, se seu cérebro fosse atingido ali, não haveria salvação. Mas o que poderia fazer? A fera era rápida demais. Mesmo com o conhecimento de como se defender, levaria tempo demais para mover seus membros na posição correta.

Mesmo que tivesse uma técnica capaz de salvá-lo daquilo, não conseguiria acelerar o espírito de energia o suficiente para executar toda a técnica.

Mil pensamentos passaram por sua cabeça, levando-o a imaginar todas as técnicas, formações e itens que pudesse usar para mover seu corpo um pouco mais e escapar na hora certa.

Quando Lex não conseguiu pensar em uma solução eficaz… resortou a uma ruim. Com seu dedo indicador, começou a traçar o caractere de fogo, e então o arruinou!

O corpo de Lex foi lançado para trás, enquanto chamas de um laranja profundo lambiam seu corpo, e ele voava pelo céu. Lex ignorou a sensação desconfortavelmente familiar de sua pele queimar enquanto olhava ao redor rapidamente. Assim como ele, o Kraven também estava coberto de chamas, embora parecessem estar se apagando rapidamente.

Ele olhou para Cwenhild e os demais, percebendo que a batalha ainda prosseguia. Com um gemido, voltou seu olhar ao Kraven. Ficar apenas na defesa não estava levando a lugar algum. Por mais que quisesse evitar, ele precisava atacar.

O Kraven ainda estava atordoado. Não pela força da explosão, ou por algum ataque, mas pelo fato de ele ter levado a luta a sério e, mesmo assim, a criatura inferior conseguir sobreviver. Então, a sensação mudou para vergonha. Depois, para raiva.

Ele rugiu, levantando a cabeça para o céu, como se quisesse alertar até o próprio universo das consequências de cruzar seu caminho. Todos na redondeza, exceto Lex, foram afetados por aquele ataque espiritual semelhante a uma tsunami, emitido por sua voz, mas isso deixou o Kraven satisfeito. Para ele, seria fácil demais de outra forma. Ele rasgaria aquela criatura inferior aos poucos, membro por membro.

Mais uma vez, o Kraven correu em direção à criatura inferior, desta vez em velocidade máxima. Estranhamente, a criatura não parecia mais tentar evitar, ficando parada. Talvez tivesse aceitado o inevitável.

Mas, justamente quando o Kraven alcançava sua presa e prestes a desmembrá-la, os olhos do ser inferior mudaram! Suas pupilas ficaram negras, como se escondessem um vazio, e daquele vazio emanava a ameaça de morte que o Kraven sentiu.

Não houve raio de luz, onda de choque ou som que marcasse o ataque vindo dos olhos negros de Lex, exceto talvez o grunhido gutural do Kraven ao ser lançado ao chão, seu corpo arrastado pelo movimento residual até os pés de Lex.

Lex permanecia de pé, como um caçador diante de sua presa caída, mas a palidez repentina dele indicava algo mais. Ele vomitou um pouco de sangue, mas enxugou a boca enquanto observava os efeitos da Evisceração.

Era um ataque profundo à alma, extremamente potente, lançado a partir do olhar. Todo o ataque dependia apenas do fato de Lex estar encarando quem queria atacar. Não podia ser bloqueado com meios normais, exigindo ferramentas ou técnicas específicas para defender a alma. Além disso, não importava a distância do inimigo.

Sem aviso ou sinal, a técnica atingiria o alvo assim que fosse usada. E, como se não fosse suficiente, enquanto o Kraven tinha só aquela fraqueza física no núcleo do peito, sua alma era tão vulnerável quanto a de qualquer outro.

Na fase do Reino Nascente, onde a maioria das criaturas ainda não tinha meios para proteger suas almas, esse tipo de ataque era o mais perigoso. Mas há uma razão para Lex não ter usado a técnica desde o começo. Ele ainda não a dominava completamente, e, por isso, também sofreria bastante dano ao utilizá-la.

Uma vibração percorreu o corpo do Kraven enquanto ele levantava a cabeça para encarar Lex, com ódio mortal nos olhos.

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