
Capítulo 204
O Estalajadeiro
Lex abriu a pasta que continha apenas algumas páginas. Na primeira havia uma lista de locais baratos onde poderia ficar, ordenados pelo distância geográfica de sua localização atual, que era o Empório. O restante das páginas trazia listas de trabalhos que ele poderia fazer sem precisar passar por um longo processo de avaliação, além dos requisitos básicos de cada vaga.
Não era preciso dizer que cada emprego era direcionado a cultivadores do reino de treinamento Qi. Não foi uma surpresa que o vendedor conseguisse determinar seu reino de cultivo, já que não havia como Lex escondê-lo, a não ser usando algum tipo de tesouro. Mas o que surpreendeu Lex foi a rapidez com que o homem conseguiu fornecer uma lista tão detalhada e bem organizada.
Lex havia apenas pedido, e o homem imediatamente forneceu.
"Oi, uhm... vim de um planeta só de humanos. Você teria uma lista de todas as raças existentes neste planeta e umas informações básicas sobre elas?"
"Não há problema algum em fornecer essa lista," respondeu o vendedor, invocando outro arquivo. "Como essas informações são de conhecimento geral, o preço é bem mais barato que o da sua primeira solicitação — apenas 2 moedas de ouro. Também posso fornecer uma lista mais detalhada, se desejar, mas isso aumentará o valor."
"Não, essa já serve por enquanto," disse Lex, pagando ao homem e colocando ambas as pastas em sua mochila. Ele se virou para sair, mas o vendedor o interrompeu.
"Com licença, senhor. Antes de partir, há algumas coisas que é minha responsabilidade te avisar, se tiver alguns minutos disponíveis."
Geralmente, Lex tinha uma boa impressão do Empório e decidiu ouvir o que ele tinha a dizer.
"Primeiramente, senhor, o Empório dá muita importância à privacidade dos clientes, e quero garantir que detalhes do histórico de compras de qualquer pessoa nunca serão divulgados, sob nenhuma circunstância. Esta é uma garantia do Infinity Emporium. Segundo, ao gastar um total de 10 pedras de espírito de nível comum, você se torna elegível para um cartão de associação básico."
"A associação possui vários níveis e, a cada novo nível, mais itens ficam disponíveis para compra. E, por último, o Empório está com uma promoção em produtos de cuidados com pele, asas e chifres, que vai terminar em 7 horas."
"Entendi, obrigado," disse Lex, brincando enquanto se despedia. O único cuidado com a pele que ele se permitia era substituir produtos como sabonete, xampu e espuma de barbear por três itens separados. Para ele, já era o suficiente.
Assim que Lex saiu do Empório, o vendedor não conseguiu segurar uma sobrancelha levantada enquanto murmurava: "Um Monóculo de Óculos Fino, hein? Faz tempo que não vejo um desses. Bem retrô."
A primeira coisa que Lex fez ao sair da loja chique foi ir na direção da taverna mais próxima onde poderia se hospedar, aproveitando para fazer um tour pelo caminho. A cidade onde se encontrava era uma mistura bastante incomum de tecnologia extremamente avançada e bem básica. Um exemplo disso eram os centenas de veículos voando pelo céu, enquanto um equivalente alienígena de uma carroça puxada por burros passava pela rua.
Ou as simples barracas de madeira, com vendedores virtuais ou holográficos. Ele também viu muitas raças diferentes de seres caminhando por ali, embora os humanos ainda fossem maioria.
Quando finalmente chegou à taverna, leu o nome "Banco de Bancos", escrito em um letreiro de néon, pendurado em uma varanda no prédio de madeira. Era um nome curioso, mas Lex não deu muita atenção a isso.
Ao entrar, porém, o estabelecimento estava completamente vazio. Lex teria esperado que um lugar tão barato estivesse cheio de clientes; ainda assim, nem uma alma podia ser vista — nem mesmo um funcionário.
À sua esquerda, havia um balcão de madeira comprido, e, à sua direita, uma sala retangular com várias mesas vazias. Bem na frente, havia um corredor que levava mais fundo no prédio, mas Lex achou estranho entrar de repente ali sem saber exatamente o que poderia encontrar. Talvez haja algo que ele ainda não sabia sobre a forma como as tavernas funcionam neste mundo.
Entretanto, justo quando pensava nisso, ouviu um som de respiração lenta e deliberada. Apoiado no balcão, percebeu um homem se balançando de um lado para o outro em posição fetal, respirando fundo com os olhos fechados.
"Uhh, você está bem?" perguntou Lex, de forma constrangedora.
O homem ficou surpreso ao ouvir a voz de Lex e virou-se para olhar. Quando percebeu um visitante, sorriu brilhantemente e disse: "Você pode esperar só um minutinho? Estou no meio de um ataque de ansiedade."
"Uhm, claro, acho que sim," respondeu Lex, enquanto o homem lhe lançava outro sorriso antes de fechar os olhos novamente e retomar o que estava fazendo.
Lex deu um passo para trás, para dar ao homem sua privacidade, enquanto esperava pacientemente.
Uns 15 minutos depois, o homem se levantou, se sacudiu e aproximou-se de Lex com um sorriso.
"Desculpe a espera, estava lidando com umas coisas. Sabe como é." O bartender parecia bem jovem, com cabelo bagunçado e um uniforme amassado, mas ao mesmo tempo bem apresentável.
"Ah, sim, claro, sem problema. Você está bem? Precisa de mais um tempo?"
"Não, estou de boa. Já aprendi a lidar com isso. Como posso te ajudar hoje?"
"Gostaria de alugar um quarto por uma semana."
"Sem problemas, isso vai custar 4 moedas de ouro."
Lex entregou as moedas ao homem, mas o barman não as aceitou imediatamente. Olhou-as com curiosidade e usou um dispositivo para escaneá-las.
"Bem, é ouro de verdade, mas não reconheço de onde veio. Deixa eu adivinhar: você acabou de chegar no planeta? Veio numa boa hora, meu amigo. Está quase na hora de colher a fruta Gugu, mas é preciso estar pelo menos no reino inicial de Fundação para poder colher."
"Que ruim, meu amigo, esses golpistas costumam omitir esse tipo de informação quando querem apenas encher os assentos nos seus transportes. Todo ano recebemos muitas pessoas procurando emprego, só pra depois descobrirem que o nível delas ainda está baixo."
Lex lançou um sorriso fraco para o homem, mas não comentou nada.
O bartender pulou o balcão e levou Lex pelo corredor até seu quarto.
"Aqui não tem serviço de quarto, então tente manter o lugar limpo, ou vai acabar vivendo numa bagunça. A cozinha está sem funcionar no momento, então, se quiser comer, terá que sair. Posso te passar uma lista de bons lugares aqui perto onde costumo comer, se tiver interesse." O homem continuou listando tudo de ruim no lugar, fazendo Lex se perguntar se valeria a pena pagar tão pouco por aquele lugar. Mas, ao ver o quarto, esse pensamento desapareceu.
Ao contrário do prédio antigo e mal cuidado, o quarto era impecável. Tinha uma janela enorme com varanda, uma cama de casal bem arrumada, uma mesa de estudos com o que Lex supôs ser um computador, e um banheiro privativo. Tudo muito limpo, bem organizado e de aparência relativamente nova.
"Aqui está a chave e desejo uma boa estadia," disse o bartender antes de sair. O homem parecia sempre sorridente, com uma atitude animada, o que dificultava imaginar o que poderia causar tantos ataques de ansiedade nele.
Lex deixou essa ideia de lado, entrou no quarto e começou a inspecionar tudo com seu Monóculo. Após certificar-se de que não havia câmeras, microfones ou dispositivos semelhantes, relaxou e puxou as pastas que recebeu do Empório. Escaneou os documentos novamente, com seu Monóculo, e começou a ler a lista de empregos possíveis.
Considerando o preço acessível do alojamento, Lex já não tinha tanta pressa em encontrar trabalho, mas achava útil estar por dentro das opções.
Como era de se esperar, nenhum dos trabalhos parecia muito atrativo, mas havia algumas opções alternativas que não o desagradariam experimentar. Uma delas, como se pode imaginar, era apostas. Aparentemente, estava ocorrendo um torneio em uma das academias agrícolas, na direção do próximo período de colheita.
Ficou de cabeça feita, não porque tivesse interesse em apostar, mas porque queria aprender mais sobre a cultura deste mundo. Quando terminou, passou para a outra lista — a que continha todas as espécies e raças deste planeta.
Claro, essa lista não abrangia todas as criaturas e animais selvagens, nem gado, mas apenas as espécies reconhecidas pelo Império como cidadãos legais. A que Lex notou logo de imediato foi: Dragões!