
Capítulo 72
O Estalajadeiro
Haris e Ayesha estavam deitados na mantinha de piquenique, olhando para os papagaios nas árvores acima deles. Todos os papagaios da pousada tinham se congregado na árvore acima dos dois adolescentes, como se reconhecessem os líderes do grupo. Após voar por todos os lados, eles já estavam exaustos, e, depois do pequeno piquenique, o duo começou a sentir sono.
Na verdade, eles não chegaram a dormir, apenas ficaram ali, curtindo a companhia um do outro em silêncio. Em comparação com seu estado mais animado e meloso de antes, agora estavam bem mais contidos.
"Deveríamos voltar," eventualmente, disse Haris, com uma voz relutante.
"Quando sua família vai partir?"
"Provavelmente hoje à noite."
"Você sabe para onde irão?"
"Provavelmente vão me mandar para alguma academia. Acho que vou ficar sob supervisão até terminar essa parte."
Ayesha não respondeu, apenas assentiu. Haris permaneceu mais alguns minutos lutando consigo mesmo — ele queria dizer algo, mas não conseguia arranjar coragem. Apesar de toda sua bravata inicial, ele ainda era só um adolescente e sua experiência de vida era limitada — não podia deixar de ter medo de certas coisas.
Sem olhar diretamente para ele, Ayesha percebeu que havia algo passando pela cabeça de Haris. Ela esperou alguns minutos, aguardando que ele falasse sozinho, mas, ao ver que ele continuava hesitante, afirmou: "Não guarde seus pensamentos escondidos. Segredos não fazem bem para a sua alma, diga tudo o que quiser dizer."
Haris virou o rosto para encarar sua amada, e ela fez o mesmo. Os dois ficaram se olhando em silêncio até que Haris finalmente quebrou o silêncio.
"Ayesha, você acha que estamos cometendo um erro? Quero dizer… você… eu só… só…"
Ayesha sorriu. "Quem colocou essas dúvidas na sua cabeça? Foi seus pais? Ou os meus? Você está querendo dizer que eu poderia estar com qualquer um, então por que deveria estar comigo?"
Haris não respondeu, mas a expressão preocupada no rosto dele dizia tudo.
"Se eu posso estar com qualquer pessoa, por que não posso estar com você? De que adianta ser rico, ser poderoso, se ainda assim você não pode fazer o que quer? Se é forçado a fazer coisas que não deseja só para manter seu status ou poder, não estaria você sendo apenas um escravo dessas coisas? Meus pais acham que não sei de nada por ser jovem, mas só porque sou jovem não quer dizer que esteja errado."
"Ou será que suas preocupações são outras? Há algo mais na sua cabeça?"
Haris balançou a cabeça e disse: "Não tenho mais nada que me cause medo — nem meus pais, nem dificuldades ou lutas… mas tenho medo… tenho medo de que um dia eu me torne seu arrependimento."
Ayesha sorriu enquanto acariciava o rosto do rapaz com a mão. "Enquanto você me amar do jeito que ama, eu nunca vou me arrepender de estar com você."
Os dois adolescentes sorriram, completando a troca de sentimentos. Ainda levaria um tempo até que pudessem passar momentos assim novamente. Eventualmente, os dois partiram, recebendo cada um uma chave a mais além da que já tinham, pois ambos fizeram compras na loja de presentes.
Logo após irem embora, Lex retornou à pousada. Inspirou fundo, segurou o ar por alguns segundos e soltou um suspiro de alívio.
"Aqui o ar é muito melhor," comentou Lex para o holograma flutuante ao seu lado.
"Viver na pousada é tranquilo, mas e sua família? O que vai fazer a respeito?"
"O único motivo pelo qual ainda há alguma atenção voltada para mim é o Marlo. Vou esperar ele voltar e peço para esclarecer tudo. Assim que a atenção enjoar de mim, penso em alguma coisa. Ainda não quero apresentar minha família à cultivação, pelo menos enquanto não estiver forte o suficiente para proteger eles."
"Faz sentido," concordou Mary, assentindo.
"Percebi que minha MP aumentou de novo. O que perdi enquanto estive fora?"
Mary chamou Velma, que forneceu a Lex um relatório detalhado sobre Haris e Ayesha. Ela não conseguiu obter informações adicionais, pois só Lex podia ver os status dos convidados, mas ele tinha certeza de que havia muito mais do que parecia nesses adolescentes, especialmente considerando que Ayesha deixou um saldo de 10.855 MP!
Lex não teria acesso a essa MP até ela usá-la, mas seu saldo ficaria guardado e poderia ser utilizado a qualquer momento.
Ao descobrir suas aventuras aéreas, ele ficou um pouco surpreso, mas aliviado ao saber que eles não conseguiram entrar na Estufa mesmo voando. Era preciso alguém com um entendimento profundo de formações para manobrar pelos bosques.
Lex também teve algumas ideias ao imaginar os convidados voando ao redor da pousada. Usando a interface de design, ele adicionou algumas nuvens permanentes no céu e criou uma corrente de ar em loop. Se seus convidados voassem, poderiam pegar essa corrente e seria como um passeio. Ter algumas nuvens no ar também traria mais variedade. Decidiu, ainda, introduzir alguns animais e pássaros a mais.
Pássaros do amor, pombos e pavões surgiam magicamente por toda a pousada. Mas ele não parou por aí. Criou um pequeno lago de águas cristalinas perto da sala de recuperação e introduziu alguns peixes fofos. Não conhecia muitos peixes além de peixes dourados e precisaria pesquisar quais seriam boas adições ao lago.
Por enquanto, o lago era pequeno e rasa, pois o espaço era limitado, mas no futuro planejava ampliá-lo. Colocou um barco a remo no lago e sorriu consigo mesmo. Se os dois adolescentes voltassem para outro encontro, ao menos teriam mais opções de diversão. Todas as melhorias custaram 1500 MP, mas valeram a pena.
Lex não pôde deixar de imaginar levando uma garota ao local para um encontro futuro, sem perceber que exibia um sorriso bobo no rosto. Quem o visse poderia adivinhar exatamente o que ele estava pensando e resistia à vontade de facepalmar.