Flores São Iscas

Capítulo 48

Flores São Iscas

Kwon Chae-woo estava cheio de hematomas pelo corpo. Quando ela cortou suas roupas ensanguentadas com uma tesoura, hematomas azulados e inflamados cobriam seu torso.

Uma besta com mais de 500 kg o empurrou com toda a força, então tudo não passava de um acidente de trânsito. O ligamento do pulso dele, que sustentava a estaca sob o pescoço do javali, estava bastante danificado.

O médico, que foi até a emergência após receber sua ligação, ficou surpreso ao ver Kwon Chae-woo. Afinal, o homem estava apenas levemente ferido, e não parecia alguém que tinha acabado de lutar contra um javali selvagem.

“Vou passar aí na sua casa daqui a pouco.” Após prestar os primeiros socorros, o médico saiu com uma bandeja de alumínio.

Graças ao médico, eles não precisaram preencher nenhum formulário ou documento na recepção. Ela dirigiu até a pronto-socorro sem pensar duas vezes e poderia ter se metido numa situação em que nem mesmo conseguisse anotar o número do RG do marido.

“Lee-yeon.”

Quando as cortinas se fecharam, restaram apenas duas pessoas na cama. Lee-yeon, exausta, se jogou na beirada da cama.

“Sempre quis te perguntar — quem é ele?”

“…Quem?”

“O homem.” Kwon Chae-woo fez um gesto de cabeça sem jeito em direção ao médico que estava sentado ao lado.

“O médico?”

“Sim.”

Kwon Chae-woo a olhou com um olhar penetrante. Seu torso estava coberto por bandagens brancas, e o rosto, com manchas de sangue seco, fazia-o parecer um bandido que acabara de sair de uma briga.

“E quanto a ele? É só um médico.” Confusa, Lee-yeon inclinou a cabeça.

“Hum.” Uma expressão fria, como se tentasse determinar se ela estava mentindo ou não. A forma como ele a encarava sem piscar sequer um instante era suficiente para arrepiar. Assustada, Lee-yeon de repente tentou justificar-se como uma esposa.

“Ele é o seu médico, Kwon Chae-woo.”

Ela foi recebida com silêncio, então continuou.

“Ele cuida de você desde que você ficou em estado vegetativo. Você o viu indo e vindo de casa para o hospital, certo? É porque ele é seu médico —.”

“A gente é tão rica assim?” Ele a interrompeu no meio. “Como você contratou um médico pessoal que vem na sua casa assim que liga?”

“Uh….” O coração dela batia forte contra o peito. Ela não conseguia entender a intenção por trás da pergunta dele, mas a sobrancelha levemente levantada dele a deixou nervosa.

“Quem comete uma falta pode pensar que todos estão falando dela.” Essa frase passou pela cabeça dela. Ela estava pensando demais e isso não ajudaria naquela situação.

‘Se eu não der uma boa resposta, ele começará a desconfiar de tudo e, eventualmente, descobrirá as mentiras.’

“E-sua família, quero dizer, seu irmão mais velho, deu total apoio!” Ela falou apressada, “Estou te falando, ele é um bom médico, então não se preocupe. Por que sua família enviaria alguém que não fosse qualificado? Ele trabalhou duro dia e noite.”

“Dia e noite?”

“Sim!”

“Essa pessoa entrou e saiu da sua casa quando vocês estavam sozinhos?”

De repente, Kwon Chae-woo se aproximou do rosto dela.

“Q-que?”

“Ele entrou?” Ele perguntou de novo com uma voz fria, pressionando-a.

“Sim…? É por isso que ter um médico pessoal é bom.” Ao mesmo tempo, Lee-yeon deu um passo para trás, e seus olhos castanho-escuros, que lembravam árvores, tremeram levemente. Ela garantiu não piscar por um instante, para não perder sequer a menor mudança no rosto daquele homem.

“Então, aquele cara é a primeira pessoa que vem à sua cabeça numa situação assim?” Kwon Chae-woo passou a mão devagar pelos cabelos dela.

“É porque você se machucou, e ele é o seu médico —”

“O que ele fez dia e noite?”

“Uhm… dar tratamentos?”

“Quem tratou quem e como?” Ele segurou a gola da camiseta e limpou o queixo. Seus dentes rangiam com tanta força que o som chegou a seus ouvidos. Foi nesse momento que ela percebeu algo estranho no homem.

“Estamos falando do mesmo médico agora? Sinto que não estou entendendo direito o que você quer dizer.”

Ele permaneceu em silêncio, encarando a parede com expressão carrancuda.

“Quer que eu chame o médico de novo? Acho que o que aconteceu antes afetou sua capacidade de raciocínio.” Lee-yeon observou o rosto dele e inclinou a cabeça, para ver melhor.

Kwon Chae-woo soltou um suspiro curto e disse: “Desculpe.” Ele fechou os olhos por um momento. “Por estar tão sensível a coisa pequenas.”

Com manchas de sangue no rosto, Kwon Chae-woo parecia um ator na sala de espera, sem maquiagem. Ele continuou: “Parecia que você dependia daquele médico. E foi depois de conversar com ele que você quis ficar sozinha de repente.”

“….” Lee-yeon ajeitou as roupas e tentou evitar o olhar penetrante dele.

“Pensando que ele entrou e saiu da sua casa enquanto eu jazia ali, inútil―,” Ele fez uma careta, “não consegui controlar minha raiva.”

Ele apertou as têmporas e soltou uma respiração longa.

Lee-yeon abaixou a cabeça. Ela até entendia por que Kwon Chae-woo tinha o hábito de pensar demais, já que perdeu toda a memória, mas, por algum motivo, ele exagerava demais quando o assunto era ela.

‘Será que isso realmente é por causa do síndrome?’

“Aquele que capturou o javali, está aqui?” De repente, as cortinas se abriram, e uma voz firme, como a de um anunciante, falou.

Ao ver Kwon Chae-woo, uma mulher sorriu, exibindo seu charme com um incisivo torto. “Ah, ele está aqui.” A mulher vestia um casaco grande com o logo do Centro de Resgate de Vida Selvagem. Era alta, com rosto sardento e sem maquiagem.

“Olá.” Ela se curvou para os dois. “Acabamos de voltar da limpeza do carcaça do javali. E, por precaução, também fizemos o teste do vírus da Peste Suína Africana (ASF).”

Detrás da cortina, homens de jalecos da mesma cor estavam de pé, curiosos, observando Kwon Chae-woo com olhos brilhantes.

“Muito obrigada por capturar—, quero dizer, pelo relato. Tiveram bastante pressão por parte das autoridades. Ele era famoso como um javali selvagem canibal, que ficava mordendo e matando pessoas.” Sua voz soava um pouco animada. “Como esse javali era muito maior que os normais, criamos uma equipe de caça especial para estar preparada, mas acho que não foi necessário.”

Ela coçou a cabeça sorrindo. “Aliás, é a primeira vez que vejo um javali caçado com a artéria carótida rasgada.” A mulher olhou para Kwon Chae-woo com olhos de admiração. Suas bochechas estavam coradas, como maçãs, e o sorriso nos lábios se abriu ainda mais. “Com machado e estaca, né?”

A mulher não conseguiu esconder a empolgação, e sua voz tremeu visivelmente. No entanto, nenhum dos dois mostrou entusiasmo semelhante.

Kwon Chae-woo fechou os olhos silenciosamente, fingindo que não tinha ouvido. Por isso, Lee-yeon, que não aguentou o silêncio, respondeu por ele.

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