
Capítulo 132
Flores São Iscas
Quando viu Choo-ja passando por dificuldades, Lee-yeon a enviou de volta primeiro, descendo a montanha após o pôr do sol.
Ela entrou no motel onde todos estavam hospedados, com fome e exausta. Já havia uma longa fila de pessoas esperando para fazer check-in, e pelo jeito de suas roupas sujas, dava para perceber que eram todos trabalhadores enviados para ajudar no desastre. Bombeiros, policiais, militares e funcionários públicos estavam ao redor, com aparência cansada.
Lee-yeon ficou no final da fila, observando o interior do motel, relativamente limpo. Diversos trabalhadores passavam por ela, mas nenhum vestia o logotipo que ela esperava ver.
‘Deveria ligar para o Chae-woo?’ pensou consigo mesma, enquanto tirava o celular do bolso e olhava para a tela.
“…!”
Justamente naquela hora, algo a atingiu pelas costas, e ela sentiu uma mão agarrando sua nuca, rapidamente virando-a. Num piscar de olhos, alguém segurou sua camisa, puxando-a para perto, fazendo-a perder o equilíbrio e tropeçar.
“Ah, essa mulher, faz quanto tempo?”
Ao encarar seu agressor, seu corpo inteiro congelou. Seu coração pulsava agitado, um pressentimento ruim ecoava em seus ouvidos e sua mente ficou vazia. Ela foi forçada a ficar na ponta dos pés, dificultando seu equilíbrio.
“Queria ver onde você tava se escondendo. Ficou aqui o tempo todo?”
Ela nem teve energia para tentar escapar de sua mão com uma tentativa fraca. Suas mãos tremiam.
Era a primeira vez que ela via seu primo desde que fugira do continente e veio para Hwaido. Filho do pai dela. Era ao mesmo tempo seu primo e seu meio irmão.
Na outra mão, ele segurava o celular, aparentemente no meio de uma ligação. Apertava o aparelho com força enquanto dizia: “Ei, mano, adivinha quem eu acabei de encontrar?”
Seu olhar misturava tristeza e malícia. Olhar que imediatamente destruía a esperança de que o rancor entre eles se dissipasse com o tempo. A satisfaçãozinha que surgia por trás daqueles olhos profundos era a mesma de sempre.
“Parece que apanhei uma presa e tanto.”
“….”
“Mano, sonhou bem ontem à noite?”
Lee-yeon não conseguiu respirar. Seu primo estava ali, com a voz alta e rindo na cara dela. Como sempre, parecia ouvir tudo que a fazia sentir vergonha de si mesma. Era exatamente igual de antes, só que agora eles não estavam mais no parquinho, nos corredores da escola, na cidade ou no trabalho.
“Ela é uma garota forte, igual você disse. Para uma garota tão resistente, não é de surpreender que esteja levando uma vida tão descaradamente luxuosa depois de fugir assim. Que ingrata. Ainda bem que a família que me criou não liga pra mim.”
“….”
“Se ela ia se dar mal com as pessoas, pelo menos devia ter decência de ficar na dela.”
Seu semblante ficou mais sério enquanto ele a puxava com força pela camisa.
“Ela não devia sentir vergonha?”
Cada palavra bem como uma facada, profunda e dolorida. A cena repentina atraiu a atenção de quem estava na área. No entanto, ninguém se apressou em intervir, provavelmente por causa do uniforme laranja que seu primo usava.
“A vida deve ser tão fácil pra você, Lee-yeon.”
“…Me solta.”
Ela revirou os olhos para suas mãos, arranhando-as com as unhas. Agora, ela tinha uma expressão diferente da que costumava ter, mais impetuosa. O olhar do agressor levantou as sobrancelhas diante dessa resistência.
“…mano, vou precisar desligar. Te ligo depois.”
Assim que ele terminou de guardar o celular no bolso, palmada–! A cabeça de Lee-yeon foi jogada para o lado. Os olhares dos presentes piscaram em uníssono, enquanto ele a acertava com um tapa na face.
Ela deve ter dado um lábio rasgado, pois pode sentir o gosto de sangue na boca. Nem conseguiu tocar seu rosto, que queimava como se estivesse em chamas.
Seus ouvidos tilinavam enquanto ela lembrava de cada insulto que seu primo já tinha lhe feito quando eram jovens, tornando sua vida um inferno.
Ela sentia os olhares de quem estava no hall ao redor, sussurrando calmamente. Uma sensação nojenta de déjà-vu a invadia. Essa avaliação já tinha sido influenciada pelos outros o suficiente, de qualquer forma.
Mais uma vez, ela se sentia dominada por uma sensação insuperável de derrota.
“Sai da frente. Você está bloqueando a fila.”
Lee-yeon apertou a mão suada com toda a força.
“Você tomou remédio errado hoje, Lee-yeon?”
“Não, deve ser que esqueci meus comprimidos hoje. E você ainda fica fazendo escândalo como uma criança que não consegue agir com a idade.”
“…!”
“Nossa, faz tempo que você envelheceu mesmo.”
“Você, Lee–”
A infância de Lee-yeon nunca foi fácil.
Mesmo tendo visto alguém sendo enterrado vivo, sendo dopada e arrastada para um matadouro, e quase quebrando a cabeça em um campo de drogas, ela tinha uma confiança ridícula de que tinha vantagem sobre seu primo.
“Você não é gente.”
Palmada–! Ele bateu novamente na bochecha dela, no exato momento em que ela terminava de falar.
“Menina maluquinha. Você deve estar muito feliz por me ver hoje. É por isso que o seu corpo dói?”
Lee-yeon não pôde evitar rir. Ela não se assustava com o primo fraco e valentão. Qualquer um com um pouco de força já pode ser um valentão.
Porém, o homem com quem ela morava era diferente. Um homem que podia cuidadosamente puxar os cabelinhos da esposa depois de derrotar brutalmente um gângster e um javali com as mãos nuas. Aquele homem, que já tinha um papel tão importante na vida dela, era quem ela realmente tinha medo.
“Meu sangue pode até ser sujo, mas suas palavras e ações vazias são bem piores.”
Depois de tudo que passou, as acusações que seu primo jogou contra ela deixaram de ter poder de feri-la.