Flores São Iscas

Capítulo 240

Flores São Iscas

A partir daquele momento, Lee-yeon não conseguia desviar o olhar de Kwon Chae-woo e seu violoncelo. Todas as barreiras emocionais que ela havia erguido começaram a desmoronar enquanto ele tocava uma torrente de notas.

Seria ele mesmo o cara que quebrava as juntas de alguém e atacava pelas costas? Ele mudava de técnica sem esforço, tocando a peça com espontaneidade.

Era como o som de uma criança arranhando uma parede, uma cicatriz nas costas de um menino, mãos perseguindo ele e sua mãe... Quatro cordas, quatro tempos, quatro sons—sua música contava uma história cruel.

Enquanto Kwon Chae-woo continuava, a peça parecia ainda mais intensa que a anterior. Ele parecia um tipo diferente de monstro.

Sua cabeça ocasionalmente sacudia bruscamente, como uma besta cega seguindo um cheiro. Lee-yeon se viu dando passos para trás, sobrecarregada pelo carisma de sua música.

Este não era o cara que ela conhecia. Sua camisa encharcada grudava nele, tornando-se semitransparente. Gotas de chuva caíam de seu cabelo balançante. O corpo inteiro de Lee-yeon esquentou.

O violoncelo absorvia a umidade da chuva, mas Kwon Chae-woo incorporava o som de rachaduras na melodia. Adicionava um tom sinistro, habilmente distorcido para criar um apelo pungente.

Embora Lee-yeon não fosse uma especialista em música, ela podia sentir seu talento extraordinário. Enquanto ele tocava mais rápido, parecia que camadas de seu ser estavam se descascando.

Quando o vibrato atingiu seu clímax, Kwon Chae-woo parou abruptamente de tocar.

Kwon Chae-woo abraçou o violoncelo como se tivesse desmaiado, lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

O som de choro reprimido, "ugh, ugh", ressoava como dor. Ele tossiu violentamente, exalando a respiração que estava prendendo.

“Ugh... huh, kkk…”

“….!”

Lee-yeon estava paralisada, encarando as lágrimas de um homem que ela acabara de conhecer.

“Se você está aqui, Lee-yeon, até sons quebrados se tornam música.”

Ele ergueu seus olhos manchados de lágrimas. Mais emoções foram transmitidas naquele único olhar do que na melodia dura e pungente.

“Não tenho mais nada para te mostrar agora.”

Ele abraçou o violoncelo novamente, abaixando a cabeça.

O que devo fazer com este homem?

Embora Lee-yeon não conseguisse compreender totalmente seus sentimentos, ela sabia que ele havia se esforçado muito para recuperar algo que havia abandonado.

Do menino que mandou o violoncelo ao vento ao homem cruel que enterrava pessoas, Kwon Chae-woo pode ter tido que refazer e derrubar seu caminho para redescobrir a música perdida.

Simpatia, ternura por Kwon Chae-woo e um novo tipo de excitação brotaram dentro de Lee-yeon. Ela finalmente sentiu como se vislumbrasse seu verdadeiro eu.

Ele não era a escuridão da família Kwon, mas uma pessoa que merecia um holofote.

Com uma sensação indescritível de pesar, Lee-yeon mordeu o lábio inferior. Naquele momento, ele derramou lágrimas, olhando diretamente para ela.

Quando seus olhares se encontraram novamente, o coração de Lee-yeon doeu.

“Há um instrumento antigo de mais de 500 anos em uma vila estrangeira.”

“…”

“Traga aquele violoncelo para cá, e eu me tornarei a árvore genealógica de Hwaido em vez disso. Eu ficarei no lugar da árvore sagrada e tocarei a música antiga. Até eu morrer, até eu me tornar o legado daquela ilha.”

Lee-yeon sentiu um lado de sua cabeça ficando pesado.

Kwon Chae-woo, tendo finalmente encontrado sua resposta, derrubou a última fortaleza que Lee-yeon havia apresentado orgulhosamente.

Lee-yeon olhou para ele na chuva, seu rosto pálido. Ela deu passos lentos em direção a ele.

“...Mesmo assim, você ainda me odeia?”

Ela murmurou as últimas palavras quase para si mesma.

“Eu te amo, Lee-yeon.”

“….!”

Ela parou e congelou, seu coração batendo forte. Kwon Chae-woo, com olhos lacrimosos, mas ferozes, olhou para ela intensamente.

A chuva estava diminuindo gradualmente. Em uma estranha clareza, as gotas de chuva se misturavam com suas lágrimas. Percebendo isso, ela jogou fora o guarda-chuva que segurava, impotente.

“Vamos para Hwaido juntos.”

Pela primeira vez, Lee-yeon entrou na casa do jovem que ela nunca havia visitado antes. O menino, que estava arranhando a parede em loucura, foi cativado pela luz do sol que afastava a escuridão.

As marcas que ele havia arranhado com as unhas eram grotescas, mas assim que a parede foi banhada em luz, ela brilhou como uma galáxia. Lee-yeon estendeu a mão.

“Vamos deixar este lugar juntos.”

Preso na crescente loucura, Kwon Chae-woo perdeu a chance de responder à tristeza avassaladora. Lee-yeon guardou cuidadosamente o violoncelo e sentou-se em sua coxa.

Percebendo que esta era alguma forma de consentimento, Kwon Chae-woo a abraçou com desespero. Ele estremeceu como se estivesse soluçando. Lee-yeon, seus olhos também ficando vermelhos, olhou para o céu.

“Vamos encontrar a felicidade, como se fôssemos nos exibir.”

“…”

“...Sim, vamos fazer isso. Não vamos ter medo de nada.”

Lee-yeon beijou sua testa.

Mais assustador do que a determinação de viver sozinha era o medo de entrar no turbilhão de emoções novamente, sabendo que enfrentaria feridas semelhantes.

Lee-yeon havia prometido seu amor por ele e sua vida em frente ao túmulo, mas parecia que ela não podia deixar Kwon Chae-woo para trás.

Se for esse o caso, ela o levará junto.

Chaconne é uma canção de morte e ressurreição.

Novos brotos surgiram de seu túmulo, e o coração de Lee-yeon começou a bater violentamente. Ela abraçou o homem que soluçava com todas as suas forças.

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