Flores São Iscas

Capítulo 9

Flores São Iscas

"Obrigada, doutor. Muito obrigada!" A ligação se encerrou assim que Lee-yeon terminou de falar.

O médico olhou para o celular com uma expressão confusa. Guardou-o de volta no bolso. Não conseguia entender a mudança repentina na voz dela.

Um paciente, que estava em estado vegetativo há 2 anos, acordou por um milagre. Graças aos bons cuidados, suas articulações estavam flexíveis e a reabilitação correu bem. A razão primordial era que ele nasceu com ossos fortes e nervos motores sensíveis. Recuperando-se em pouco tempo, ele conseguiu mover seu corpo livremente.

Mas, estranhamente, sua recuperação milagrosa durou apenas uma semana. Desde então, ele tem dormido por 12 dias seguidos, como uma pessoa viciada em atividades vegetativas.

O paciente já sofria de problemas de memória. O médico nem esperava, a princípio, que ele se recuperasse totalmente de um estado vegetativo. Ele estava continuamente ponderando sobre o caso quando teve um estalo. Como a cabeça do paciente estava gravemente ferida, as sequelas deviam ter surgido de alguma forma.

Mas, por alguma razão, ele se sentiu incomodado. Perguntou ao paciente: "Pode me dizer seu nome?"

"Consegue me ouvir?", o médico perguntou, perplexo. "Fale o que vier à mente."

"Se..."

Um pequeno sorriso apareceu nos lábios do médico. "Isso, bom. Assim mesmo."

Mais tarde, ele não conseguiu esquecer o que seu paciente disse.

"Por favor, não acorde."

Kwon Chae-Woo havia repetido essas palavras inúmeras vezes, mesmo na consciência nebulosa. O médico caminhou pelo corredor vazio. Esfregou o queixo e franziu as sobrancelhas.

"O Diretor Kwon deve estar chateado com o irmão mais novo."

Ele se inclinou para trás e se alongou. Embora fosse muito melhor para Kwon Chae-woo receber tratamento em um hospital maior. A ordem do Diretor Kwon de enviá-lo de volta para aquela casa velha e decrépita era um tanto estranha.

Mas não era da sua conta questionar. Embora ele vivesse uma vida de cuidador nesta vida distante, seu salário era alto demais para questionar ou discutir tais detalhes.

"Ah...", ele de repente parou e estalou os dedos. "Esqueci de contar para ela..."

A sequela que Kwon Chae-woo sofria não era apenas dormir demais. Era conhecida como Síndrome da Bela Adormecida. Ou, em termos técnicos, Síndrome de Klein-Levin. Geralmente é acompanhada por sintomas de anormalidades comportamentais, desejo incontrolável de comer excessivamente, agressão e desejo sexual excessivo.

"Quer dizer... ele vai ficar bem por hoje." *É só um dia. Nada vai acontecer.* Ele bocejou.

* * *

"Um hm hmm," Lee-yeon cantarolava enquanto subia as escadas. Ela havia escapado da morte por um triz. Passou o dia se sentindo milagrosamente resgatada depois de cair na armadilha do homem cruel. Quando chegou à porta e digitou a senha para abri-la, sentiu uma sensação de déjà vu.

"Que droga!"

*Ding. Ding. Ding.*

A campainha tocou. Era meia-noite e uma visão arrepiante a congelou no lugar. A porta dos fundos havia sido arrombada como se atingida por um carro.

"Onde ele foi...?"

Por mais de trinta minutos, Lee-yeon vagou pela estrada de terra escura, onde alguns postes elétricos velhos ficavam à beira do caminho. *Devo contatá-lo?*

O irmão de Kwon Chae-woo. O 'A' que fez de Lee-yeon o 'B'. Ela esfregou a tela do celular repetidamente, nervosamente, até ficar muito brilhante. Ela não queria dar desculpas ao Diretor Kwon para que ele pudesse controlá-la. Ela amarrou seus longos cabelos ondulados e acelerou o passo.

"Kwon Chae-woo!" Os cães que dormiam ao longo do caminho latiram para o grito dela. Lee-yeon olhou ao redor apressadamente e procurou na vizinhança estreita. De repente, encontrou um rastro estranho. Parecia um rastro deixado pelo rastejar de uma cobra enorme.

"Ele é realmente horrível..."

Ela riu secamente da visão absurda. Virou-se para seguir o rastro. Quando se aproximou, ouviu um som de batida de asas. Seu coração bateu nervosamente com a situação sinistra.

"Kwon Chae-woo! Abaixe isso!", ela gritou em choque.

No entanto, Kwon Chae-woo já estava mastigando a carne crua. Seus olhos estavam vazios, e os músculos de sua mandíbula se moviam enquanto mastigava. Quando ele gemeu e cuspiu a carne crua da boca, Lee-yeon quase vomitou. Ela conteve sua vontade de vomitar. O galo já estava morto, com o pescoço quebrado. Suas mãos tremiam. Ela estava aterrorizada com este homem, que estava ali despreocupadamente com sangue nos lábios.

Este era apenas um dos efeitos de ter a Síndrome de Klein-Levin e, pela aparência de seu olhar desfocado, ele não devia estar ciente do que estava fazendo e estava simplesmente fora de contato com a realidade.

"Deve ser difícil para você se mover agora. Por que você saiu?"

Lee-yeon fingiu estar preocupada com a saúde dele. Lee-yeon fez o possível para avaliar o humor dele para que pudesse se corrigir sobre ter dito que era sua esposa. "Vamos voltar. Você não deveria estar aqui."

Kwon Chae-woo jogou o frango e olhou para Lee-yeon. O olhar dele que caiu sobre ela a deixou desconfortável. Ele estava na escuridão, onde a luz da lua não o alcançava. Ele parecia mais alto do que antes. Ele era duas cabeças mais alto do que ela. Parecia que ele andava, mais como rastejava no chão em direção a ela. Suas mangas, pernas e peito estavam todos cobertos de poeira.

Quando o vento soprou, suas roupas esvoaçaram e revelaram a silhueta de seu corpo bem torneado. Ligeiramente atordoada, Lee-yeon se lembrou do Sangue de Dragão [1] que vive na Ilha de Socotra, no Iêmen. Uma árvore sangrenta. Era uma árvore estranha com seiva vermelha parecida com sangue fluindo por suas veias.

[1] - Sangue de Dragão: Resina avermelhada extraída de árvores do gênero *Dracaena*, especialmente a espécie *Dracaena cinnabari*, nativa da ilha de Socotra.

Dois anos atrás, ela tinha visto Kwon Chae-woo pela primeira vez. E um mês atrás, ele havia acordado do coma. Ele sempre esteve coberto de sangue, e mesmo naquele momento, ele estava salpicado de sangue. "Kwon Chae-woo..."

"Nome..."

"O quê?"

"Qual é o seu nome?"

Seu olhar frio repousou sobre ela. Era difícil ler seus pensamentos. *Pensa Lee-yeon,* ela se insistiu. *Pensa.* Ela estava sem palavras. Não sabia o que dizer.

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