
Capítulo 119
Renascido como o Gênio da Família Mais Rica
Logo além das famosas cadeias de montanhas que separavam as duas regiões, havia um grupo de semi-humanos escalados que olhava para as encostas íngremes à sua frente.
Esses semi-humanos caminhavam de pé e tinham escamas duras e serpenteantes por todo o corpo. A cabeça deles parecia mais de lagarto do que de humanos, sem cabelo e com um crânio predominantemente bulboso.
Sua espécie era chamada de Komodos, dotados de inteligência acima da média, com polegares opositores semelhantes aos humanos, permitindo realizar tarefas simples, como trabalhar como caixas, atendentes ou até clerical.
No entanto, essa era a limitações máxima de suas capacidades. Não eram como os anões, que possuíam seu próprio reino e eram extremamente habilidosos na confecção de artesanatos. Não eram como os elfos, cujo poder mágico superava até o de humanos talentosos. Não eram como os orcs, orgulhosos por sua força e vigor físico excepcionais.
Eles eram medianos, no melhor dos casos. Justamente competentes o suficiente.
Era como se fossem humanos normais que não conseguiam usar magia, exceto pelo fato de precisarem de cuidados extras para sobreviver.
Isso significava que precisavam comprar muito mais comida e água do que a maioria, o que era difícil, já que os empregos para os quais eram qualificados ofereciam salários justos para mal cobrir suas necessidades básicas.
Havia salários maiores nas áreas mais ricas e de maior prosperidade na região das Rainhas, mas a concorrência era muito mais acirrada lá. Além disso, o custo de vida, especialmente a alimentação, era muito mais alto. Então, no final, tudo era igual.
Finalmente, esse grupo de Komodos cansou. Decidiram deixar a região das Rainhas e retornar às terras de seus ancestrais, as Terras Áridas.
Seus colegas de trabalho, amigos, vizinhos e até outros Komodos tentaram dissuadi-los de sua escolha. Afinal, poderiam acabar morrendo de fome ou sede naquela terra desolada, especialmente porque sua pele precisava de muita hidratação.
Claro, as notícias sobre a Nação do Renascimento ainda não eram conhecidas naquela região.
Mas, mesmo sem saber, essa família de Komodos quis correr o risco.
Mesmo achando que as Terras Áridas não tinham abundância de comida ou água, eles desejavam voltar ao seu lar para tentar recuperar seu orgulho ancestral.
Depois de tudo, seus antepassados foram uma espécie orgulhosa, conhecida por serem parentes próximos da raça mais forte e poderosa de todo esse mundo.
No passado, a espécie de Komodos fazia parte da raça dracônica.
Eram dragões.
Porém, após milênios separados das demais raças dracônicas, os Komodos se afastaram bastante de sua linhagem original. Perderam seu poder.
Transformaram-se numa espécie com pouca ou nenhuma aptidão mágica, sem força física dominante, e até suas escamas tornaram-se tão frágeis que não resistiriam ao calor.
Era difícil imaginar que eles fossem parte da famosa raça dracônica, cujas escamas eram o material mais resistente do mundo. Mas eram. Pelo menos, seus ancestrais eram.
Essa jovem família de Komodos buscava uma maneira de recuperar a antiga glória de sua espécie.
Talvez fosse uma causa perdida, mas eles não suportavam mais viver na mediocridade.
Assim, caminharam a pé dia e noite até finalmente alcançarem as cadeias de montanhas. As bordas escarpadas e escorregadias da encosta já eram um indício de que essa seriam uma jornada difícil, mas estavam dispostos a enfrentar os riscos.
Porém, justo quando estavam prestes a subir a montanha, foram inesperadamente impedidos por alguns humanos usando armaduras completas de aço.
"Com licença, companheiros! Para onde vocês estão indo?" perguntou o guarda.
Um dos Komodos, um adolescente, se aproximou e falou com os guardas.
"Queremos subir a montanha e voltar para nossa terra natal", disse.
Os guardas olharam para o grupo de Komodos e perceberam que havia cerca de oito deles na turma.
"Cadastros de vocês?" perguntou o guarda.
Todos os Komodos se entreolharam, confusos, sem entender do que o guarda estava falando.
"Se quiserem atravessar para a próxima região, precisamos ver suas documentos de identificação", reforçou o guarda.
Os Komodos não eram ricos. Mal conseguiam se sustentar na região das Rainhas, às vezes tendo que procurar restos de comida no lixo, como ossos de frango ou pão mofado, para sobreviver. Consideravam-se sortudos se encontrassem algo assim.
Documentos de identificação só existiam para quem era residente fixo de um território, ou seja, quem tinha comprado uma casa própria.
Os Komodos, na prática, eram quase todos sem lar. Seus pais e avós também não teriam documentos.
"Não temos nenhum documento", respondeu o Komodo machucado educadamente, esperando que o guarda os deixasse passar.
O guarda fez uma expressão de pena, mas não podia fazer nada. A política era negar entrada ao Reino para quem não apresentasse identificação válida.
"Desculpe, mas sem identificação não posso deixar vocês passarem. E, se tentarem entrar mesmo assim, serei obrigado a usar força para impedir."
A decepção tomou conta do rosto dos Komodos. Todo o esforço, toda a economia deles, concentrada nesse momento. Se voltassem sem chegar ao seu destino, estariam pior do que antes. Sem comida, sem água — incapazes de sobreviver!
"Por favor, senhor! Não dá pra fazer uma exceção pra gente?!"
"Tem alguma coisa que possamos fazer?"
"Estamos desesperados! Essa é nossa última chance!"
Em desespero, eles se ajoelharam e imploraram.
Mas, apesar do clamor, o guarda permaneceu firme. Por mais que desejasse ajudar, precisava cuidar de si mesmo. Permitir a entrada sem a documentação correta seria uma transgressão.
"O que está acontecendo aqui?"
Justo nesse momento, uma voz feminina entrou na cena.