
Capítulo 820
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Para alguém como Hades, que tinha vivido por nove eras, a passagem do tempo era estranha.
Quando ele não prestava atenção, decotes de dezenas de milhares de anos passavam num piscar de olhos.
Ele tinha apenas intenção de tirar um descanso, acalmar sua turbulência interior antes de encontrar a criança novamente.
No entanto, passaram-se anos até perceber isso.
Ele apressou-se para verificar a criança.
E…
ossos esqueléticos.
Pele magra.
Uma voz que não sabia falar.
Olhos desesperados procurando por calor.
Foi isso que Hades viu ao olhar para a criança.
'Sou patético.'
'Deixei uma criança negligenciada assim.'
Hades decidiu enviar a criança para alguém que pudesse lhe oferecer o amor que ela merecia.
Sua mente dizia que aquela criança era o que ele tinha procurado desesperadamente, que deveria usá-la como uma arma que ela deveria ser.
Porém, ele não conseguiu fazer isso.
No final, entregou a criança à Feiticeira da Gula, a mais fraca, mas aquela que mais amava a todos.
Com o passar dos anos, Hades manteve um olho na criança e na Feiticeira.
Ele, que há muito havia parado de sorrir, o fazia ao observar suas aventuras.
Ele também os ajudava secretamente.
Quando a Feiticeira reencarnou, e a criança a procurava desesperadamente,
Hades ajudou secretamente a encontrá-la, Vornaz, o Demônio da Ruína, e usou a favor que a Feiticeira do Tempo lhe devia para fazer com que ela ajudasse a criança a viajar no tempo e alcançar a Feiticeira da Gula.
Mais tempo passou.
A vida deles seguia feliz.
De vez em quando, a criança voltava ao palácio de Hades, exigindo um nome.
Mas Hades recusava toda vez.
'Alguém como eu não merece dar um nome a você.'
Mais tempo se passou, a criança queria se casar com a Feiticeira. Veio lhe pedir conselho.
Mas Hades apenas o mandou embora.
Porque Hades estava ocupado.
Ele buscava uma forma de reviver alguém além das Épocas.
Para Hades, que havia se apegado a alguém pela primeira vez em eons, ele não queria ver a criança morrer.
Mas nada podia ser feito.
A 10ª Época começou.
A Feiticeira enlouqueceu.
A criança morreu.
Hades, apesar de ser considerado o mais forte, não conseguiu fazer nada.
Então, a guerra começou.
Hades enfrentou Ouroboros, os Supremos, as Feiticeiras, os Demônios e os Demônios Infernais.
Até mesmo a Feiticeira, pela qual tinha esperança de ver se casar com seu filho, se virou contra ele.
Para matá-lo.
"Alguém como você não merece viver! Você é um monstro! Um hipócrita que age como um santo usando uma máscara. Um bastardos que deseja causar morte e destruição!"
'Você está certo.'
"Toda a bondade que demonstra é para seu próprio bem! Não é só algo que mostra porque sabe que vai causar ainda mais sofrimento no futuro!"
'Você está certo.'
"Todos merecem viver! Temos livre-arbítrio! Você não tem o direito de decidir se vivemos ou não!"
'Você está certo.'
"Vamos nos recusar a deixar o destino do Cosmo nas suas mãos. Não deixaremos que conclua seus planos hediondos e cause a destruição!"
'Desculpe.'
Eram certas. Hades era um monstro.
Talvez toda a bondade que demonstrava fosse sua forma de pedir perdão pelo que faria no futuro.
Talvez ele fosse apenas uma pessoa egoísta.
Hades concordava completamente com eles.
Um monstro como ele não deveria existir.
Ele era alguém que trouxe uma vida ao mundo, só para usá-la e causar-lhe uma dor imensa.
E ainda assim…
Hades esmagou a oposição na guerra brutalmente.
Porque Hades não podia ser derrotado ainda.
Até destruir o Cosmo.
Até salvar este mundo condenado.
Ele não podia morrer.
Talvez essa fosse sua missão. Talvez fosse por isso que tinha a Singularidade da Não-Morte.
Hades precisava permanecer vivo.
Ainda não tinha destruído o Cosmo.
'Ouroboros. Ele parece com a criança que a Mãe costumava dar frutas.'
'Supremo das Chamas. Era um cozinheiro no palácio real de Sahiya, na 4ª Era.'
'Bendito da Luz. Ela era a dançarina que ganhou a 18ª Competição Anual na Região de Karta, na 7ª Era.'
Para essas pessoas, essa talvez fosse a primeira vez que viam Hades.
Mas para ele, que lembrava de tudo, já tinha visto elas inúmeras vezes.
As pessoas podem ser diferentes.
Suas vidas podem ser diferentes.
Mas as faces permanecem as mesmas.
E Hades lembrava.
De todos.
De tudo.
De cada momento.
Era seu dever como aquele que carregaria tudo por eles.
Era seu dever saber com quem lutava para proteger.
'Desculpe.'
Hades esmagou a rebelião com força esmagadora.
Porém…
Ele estava cansado.
Quantas mortes ele tinha causado?
Conseguiria lidar com a dor de matar todo o Cosmos, quando estava destruído com uma única guerra?
Um riso vazio saiu de seus lábios.
Sua mente era fraca demais.
Machucar pessoas era pesado demais para ele.
Para alguém como ele, tão bondoso que estaria disposto a destruir o Cosmo para protegê-lo, matar todos, ver sua dor, era impossível.
Sua determinação… não era suficiente.
Durante tudo isso, as palavras de Ouroboros ecoavam em sua cabeça.
"A nova geração merece viver."
"Eles vão seguir seu próprio caminho. Fará suas próprias escolhas."
"Você não tem direito de acabar com o futuro deles."
Enquanto lutava contra a culpa e o luto, a Mãe dos Dragões, há muito enlouquecida, fez sua jogada.
Ela acreditava que Hades devia estar ferido após a guerra, e que era a hora de selá-lo e acabar com ele de uma vez por todas.
Hades precisou lutar.
Precisou jogar sua própria mãe na Feiticeira da Gula com as mãos.
Precisava vê-la ser devorada com seus próprios olhos.
Talvez por um giro cruel do destino, ela recuperou a sanidade nos momentos finais.
"Meu filho… Por favor, me perdoe por não conseguir compartilhar seu fardo… e obrigado por me deixar descansar…"
Como se soubesse da decisão que Hades tinha tomado, ela o consolou.
Porém, essas palavras, esse sorriso gentil, destruiram Hades.
Ele não conseguiu continuar.
Ele não conseguiu matar todo o Cosmos.
Ele não tinha força suficiente para causar sofrimento sem fim.