
Capítulo 806
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo só conseguiu respirar direito depois que Elizabeth finalmente se recompôs.
Uma fina linha de saliva se estendeu entre seus lábios antes de se romper.
Elizabeth olhou para ele com uma expressão que era ao mesmo tempo infinitamente amorosa e abertamente faminta, sem o menor traço de vergonha.
Era o tipo de olhar que fazia os instintos de Neo gritarem para ele correr, mesmo que seu corpo se recusasse a se mover.
Ao ver aquele olhar, Neo soube que precisava pensar numa saída. Rapidemente.
"Es-ei! Isso é um crime! Eu tenho apenas dezesseis anos!"
Honestamente, Neo não se preocupava em ter um filho.
Essa parte mal passou pela sua cabeça.
Ele já tinha queimado uma parte da sua Chama da Vida e alterado sua biologia.
Na situação atual, ele não podia mais ter filhos, a menos que mudasse seu corpo de propósito novamente.
Isso não era o problema.
O problema era Elizabeth.
Ao olhar nos olhos dela agora, Neo foi lembrado de forma bastante vívida do tempo em que tinham ficado "juntos" no Tartarus.
Só a lembrança já fazia seu couro cabeludo formigar.
'Se fizermos igual na época, vou morrer,' pensou com gravidade.
Naquela hora, ele tinha o corpo de um mortal.
Por mais absurdamente forte que fosse sua mente e sua Consciência, esse corpo ainda tinha limites.
Ele realmente morreria de exaustão.
Ele estremeceu, imaginando uma causa de morte tão embaraçosa.
Isso tinha que ser evitado a todo custo.
"Eu tenho dezesseis! Dezesseis! Você não–não pode me tocar. É um crime!"
"Mas essas são as regras da Terra, não são?" Elizabeth perguntou. Ela inclinou a cabeça levemente, sorrindo como se estivesse divertindo-se com uma criança fazendo birra.
"Somos da Terra! Devemos seguir os costumes do nosso mundo!"
"Você é fofo quando se esforça assim," murmurou Elizabeth, quase para si mesma.
Neo ficou congelado.
Aquela frase lhe dizia que algum detalhe errado tinha sido ativado na cabeça de Elizabeth.
"E–Elizabeth, você devia me escutar—"
Antes que pudesse terminar, Elizabeth pressionou a palma da mão contra seu peito desnudo.
Um suave brilho pálido se espalhou de sua mão, infiltrando-se na pele dele.
A respiração de Neo ficou presa.
Ele sentiu instantaneamente.
Seu corpo físico estava mudando.
Envelhecendo.
'Uma Espírito de Técnica que afeta o Tempo?' Neo percebeu, seu raciocínio clareando mesmo enquanto o pânico aumentava.
Espíritos de Técnica relacionados a espaço, tempo ou destino eram notoriamente difíceis de criar.
Para exemplificar, criar até mesmo o Espírito de Técnica mais fraco concedia ao criador a qualificação para sair da Terra Verdadeira Abençoada.
E, mesmo assim, de cada cem que entravam nesse lugar, apenas cerca de um por cento conseguia sair.
Isso por si só dizia muito sobre o quão difícil era criar um Espírito de Técnica.
E um Espírito de Técnica ligado ao Tempo, então?
Neo tinha visto pessoalmente menos de cinco pessoas com um desses.
Então, como Elizabeth já tinha algo assim?
Seus pensamentos aceleraram.
'Não... se pensar bem, ela tem vários Espíritos de Técnica.'
Um permitia teleportar, o que ajudou-os a voltar para a Seita. Outro permitia controlar o gelo com uma precisão assustadora. E agora, isso aqui, algo que manipulava o fluxo do tempo em si.
Onde até deuses e cultivadores de elite tinham dificuldades de obter um Espírito de Técnica, ela já possuía três.
Um calafrio percorreu sua espinha.
Que talento era esse?
"Neo…" disse Elizabeth suavemente. "O que você está pensando?"
Seus dedos ficaram levemente enluvados contra o peito dele, forçando-o a focar nela novamente.
Quando percebeu que seu olhar ficara fixo num espaço vazio por tempo demais, uma leve expressão de descontentamento surgiu em seus olhos. E sob ela, algo mais afiado começou a surgir.
Ela estava bem na sua frente, nesse estado, e ele pensava em outra coisa?
"Es–Espere… Elizabeth, eu não estou ignorando—mmph!"
Suas palavras foram cortadas.
…
Ponto de vista de Vivi
Vivi estava sentada na beirada de um telhado, suas pernas balançando do lado enquanto observava a residência de Elizabeth de longe.
Seu rosto estava rígido, os lábios pressionados numa linha fina.
Ela não precisava ver por dentro para saber o que provavelmente estava acontecendo ali agora. Só de pensar nisso, o peito dela apertava.
Mesmo assim, insistiu em manter a calma.
"Eu conduzi tudo até este momento. Só preciso ser um pouco mais paciente, e tudo acontecerá como quero."
O plano dela de separar Elizabeth e Neo tinha sido simples desde o início.
Usar a natureza excessivamente controladora das bruxas.
Bruxas apaixonadas eram infames por isso.
Eram completamente insensíveis à noção de espaço pessoal, moderação ou limites. Quando desejavam algo, queriam tudo, e queriam de forma exclusiva.
Para a maioria das bruxas, esse nível de possessividade não era considerado estranho.
Vivi lembrou de um exemplo bem conhecido.
A Bruxa da Luz Estelar amava feijões de café fanol.
Ela gostava tanto que criou uma dimensão pessoal e a encheu inteiramente de feijões de café fanol, vivendo lá feliz da vida.
Se tivesse parado por aí, seria estranho, mas dentro do razoável, pelo menos por alguns padrões.
Porém, não parou.
A Bruxa da Luz Estelar fez com que os feijões de café fanol fossem apagados do Cosmos inteiro. Depois disso, eles só podiam existir dentro de sua dimensão pessoal.
Ela queria ser a única a tê-los.
Esse nível extremo de possessividade era comum entre bruxas.
"Ela vai tentar prender o pai. Quando perceber que ela não é normal e tentar se separar dela, eu ajudarei ele a escapar," sussurrou Vivi, quase sem jeito.
Seus dedos apertaram firmemente a beirada do telhado.
Ela contorceu-se ao lembrar da última vez que confrontou Elizabeth.
O sorriso frio dela. A pressão esmagadora. A sensação de estar como um animal acuado o tempo todo.
"N–Não," disse Vivi, forçando a respirar fundo. "Se for só fugir e escapar, eu consigo."
Ela tinha que conseguir.
Depois de chegar à Terra Verdadeira Abençoada, Elizabeth descobriu a herança deixada pela antiga Bruxa do Orgulho.
Essa bruxa era considerada a mais forte entre elas.
A antiga Bruxa do Orgulho deixou um vasto patrimônio, conhecimentos e poderes selados, tudo para sua sucessora.
Seu único desejo era que a sucessora matasse a Bruxa da Gula e vingasse ela.
Com essa herança, o crescimento de Elizabeth acelerou rapidamente.
Ela obteve Espíritos de Técnica. Refinou seu controle. Acumulou poder a um ritmo assustador.
As coisas só mudaram depois que Neo chegou à Terra Verdadeira Abençoada.
Por meio de Paul, Elizabeth soube o que estava acontecendo lá fora.
As guerras. As manipulações. Os sacrifícios.
Quando ouviu isso, Vivi se lembrou claramente de como Elizabeth ficou silenciosa.
Até demais silenciosa.
Por baixo daquela calma, uma fúria fria e silenciosa começava a fermentar.
Depois disso, Elizabeth começou a agir de verdade. Reivindicou mais parte da herança da Bruxa do Orgulho em um tempo recorde e usou sua nova força para eliminar os Dragões Ancestrais que se escondiam na Terra Verdadeira Abençoada.
Dragões que outros nem ousariam provocar.
"Ela deve estar… no Nono Estágio em força de combate agora," murmurou Vivi.
Sua voz vacilou um pouco.
"Será que consigo mesmo fugir dela com o pai?"
Ela olhou novamente para a residência, o coração pulsando forte.
"…Não. Preciso fazer isso," disse Vivi, sacudindo a cabeça.
Elizabeth está apenas no Estágio Seis na questão da existência.
Esse fato, por si só, normalmente indicaria uma diferença clara. Mas a realidade não é tão simples. Graças ao número absurdo de Espíritos de Técnica que Elizabeth possui, ela consegue lutar contra seres do Nono Estágio sem ficar muito atrás.
Afinal, o Caminho dos Artistas Marciais (Artes Extremas) é mais forte que o Caminho Elemental seguido por Deuses e Supremo.
Assim, a diferença de Estágio, que é muito relevante para os Deuses Elementais e Divinos no Caminho Elemental, não pesa tanto para os Deuses Divinos de Domínio, pois eles seguem um Dao que não depende tanto do Estágio em si, como o Caminho Elemental.
Claro, os Deuses de Domínio não podem passar do Terceiro Reino, mas um Deus do Terceiro Reino poderoso é forte o suficiente para esmagar facilmente seres do Nono Estágio no Caminho Elemental.
Vivi sabia disso melhor que ninguém.
Por isso, ela tinha certeza de que Elizabeth acabaría tentando prender o pai dela.
Neo atualmente ainda é mais fraco que Elizabeth.
Isso é uma verdade indiscutível. Por mais assustador que seja seu potencial, ele ainda está atrás dela em força bruta e ameaça imediata.
E Elizabeth… uma bruxa como ela não consegue reprimir seus impulsos com facilidade.
Ela não aguentaria controlar seus desejos para sempre.
Porém, havia um problema no plano de Vivi.
Elizabeth vinha agindo de forma estranha.
Durante um mês inteiro após trazer Neo para a seita, ela o ignorou.
Se fosse qualquer outra bruxa, Neo já teria sido trancafiado em algum lugar. Suas memórias de antigas amantes teriam sido manipuladas, distorcidas ou apagadas completamente. As bruxas são famosas por esse tipo de coisa.
Mas Elizabeth não fez nada disso.
Ela esteve rabugenta, irritada e fria às vezes.
Mas também manteve distância.
Isso não fazia sentido.
"Ela simplesmente o ignorou. Isso não é normal."
Parecia quase uma forma de contenção.
"Não," disse Vivi rapidamente, balançando a cabeça. "Não pode ser autocontrole. Bruxas não têm isso."
Ela respirou fundo, forçando-se a se acalmar.
Seja lá qual fosse a razão, ela torcia para que variáveis inesperadas não aparecessem e arruinassem tudo que ela planejava.