
Capítulo 776
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo permaneceu parado por um momento, com os olhos fechados, ignorando a voz à sua frente.
"Tudo bem. Ignore-me. Mas lembre-se disto: sua filha, Vivi Hargraves, está no Horizonte Despedaçado. Se você decidir lutarm comigo, ela sofrerá às minhas mãos."
Neo finalmente abriu os olhos.
'Eu' thirrou de volta a ele com uma expressão fixa e fria.
Uma pequena sardônica surgiu no rosto de 'Eu'.
"Não se esqueça do que aconteceu com seu Avatar, Heavenbreaker. Pare de ser teimoso. Ou você quer que sua filha sofra como seu Avatar sofreu às mãos de Tartarus porque se recusou a ouvir?"
A expressão de Neo se endureceu.
A menção de Elizabeth—seu Avatar e a pessoa que amava—o atingiu mais do que aparentava.
"Preparei tudo para você muito antes deste momento," continuou 'Eu'. "Sua filha é apenas uma parte dessa preparação.
"Por que acha que orientei os eventos para que você colocasse pessoas dentro do seu Cosmo? É para que não possa retroceder o universo sem destruí-lo completamente."
Neo não falou, mas 'Eu' continuou, sua voz calma e confiante.
"Quando tentar retroceder o universo, cada pessoa se dividirá em duas versões. Uma dentro do seu Cosmo. Outra fora dele.
"E esse universo já está no limite. Um paradoxo que obriga duas versões da mesma Chama da Vida a existirem o destruirá completamente."
'Eu' avançou um passo, com a voz firme.
"E se você tentar removê-los do Cosmo antes de retroceder, vou atormentar cada um deles. O sofrimento deles será responsabilidade sua."
Ele sorriu, depois acrescentou: "E isso é só o começo. Posso distribuir técnicas ao longo das linhas do tempo. Posso criar exércitos loopando pelo passado centenas de vezes. Posso repetir até que o exército esteja perfeito, suficiente para te destruir."
Ele estendeu a mão.
"Então não se achar mais do que realmente é. Aceite minha mão enquanto ainda dá tempo."
Neo inspirou fundo, pronto para responder.
Mas o espaço ao redor dele se torceu antes que pudesse falar.
A pressão se acumulou instantaneamente. A presença dos Elementais Espaciais surgiu como uma tempestade silenciosa.
'Eu' ficou rígido, pego de surpresa.
Os Elementais Espaciais falaram, ignorando-o completamente. Sua voz coletiva ecoou em todas as direções. "Hargraves, você realmente pretende retroceder todo o universo?"
"Sim," respondeu Neo.
"Mesmo que te deixe incapacitado? Retroceder no seu nível consumirá sua energia muito além da recuperação. Você não poderá usar nem um traço de poder por milhões de anos. Ficará preso na sua atual classificação, incapaz de recuperar o que perder."
Neo assentiu uma vez. "Tenho consciência das consequências."
'Eu' estalou os dedos.
O som cortou o ar de forma limpa.
A voz de 'Eu' desapareceu, silenciada por um simples selo.
Os Elementais Espaciais continuaram como se nada estivesse acontecendo. "Hargraves, o tempo está escasso. Logo precisará de seus verdadeiros poderes. Precisa estar mais forte que qualquer um neste cosmos. Mas se se incapacitar agora, não poderá lutar na batalha final."
Ficaram em silêncio.
"A perda então será maior do que a de agora. Ainda está disposto a sacrificar tudo neste momento?"
"Sim," respondeu Neo sem pensar duas vezes.
Totalmente convencido.
Sacrificar agora para salvar o futuro?
Neo nunca foi do tipo que fazia isso.
É verdade que poderia se arrepender no futuro.
Mas recuar agora significava abandonar tudo pelo que sempre lutou.
Sua teimosia, a vontade de seguir em frente mesmo com o mundo contra ele, a recusa de se curvar… isso era quem ele era.
Heavenbreaker não era um título.
Era a sua vontade.
"Assim seja," disseram os Elementais Espaciais. "Ajudar você quebra o contrato que fizemos com 'Eu'. Mas se isso proteger a Pessoa Amada, agiremos."
Neo franziu levemente a testa. "O que você quer dizer?"
"Vamos proteger sua filha. Nenhum mal acontecerá com ela. Contudo…"
Eles não terminaram a frase.
Neo entendeu o resto por si próprio.
Vivi estaria segura.
Mas os outros—todos que ele se importava—estariam expostos a tormentos se 'Eu' pressionasse a linha do tempo nessa direção.
"Já basta. Obrigado," disse Neo em voz baixa.
Ele quis perguntar sobre o contrato entre o Espaço e 'Eu', mas a urgência do momento abafou o pensamento.
Os Elementais Espaciais desapareceram. Sua presença se afinou até tudo parecer normal novamente.
Neo soltou o selo de 'Eu', exatamente quando o último vestígio de pressão espacial sumiu.
A voz de 'Eu' retornou imediatamente.
"Então essa é sua escolha, Espaço? Você está disposto a sofrer uma reação em cadeia por uma Pessoa Amada que só fez porque devia um favor ao seu antepassado? Se quer sofrer por uma existência patética assim, fique à vontade."
Sua voz foi cortada enquanto sua forma se dissolvia.
'Eu' desapareceu.
Neo sentiu a mudança no tempo.
'Eu' tinha pulado para o passado.
Neo ignorou tudo ao redor e se sentou. De novo, fechou os olhos e focou apenas na enxurrada de Conceitos do Tempo, Mundos do Tempo e Leis do Tempo que possuía.
Ele precisava de Beelzebub para crescer.
Precisava que o casulo completasse sua evolução.
Precisava de poder.
A meditação não trazia paz.
A dor se instalou quase imediatamente.
O tempo ondulou. Memórias se impuseram à sua mente.
Memórias que nem existiam há um instante.
Seus amigos morrendo de maneiras brutais.
Seus amigos lutando contra ele, gritando acusações enquanto tentavam matá-lo.
Mundos incontáveis se voltando contra ele.
Líderes liberando tudo que tinham para apagá-lo da existência.
Não eram ilusões.
'Eu' estava ativamente reescrevendo o passado.
Cada linha do tempo alterada enviava suas memórias para a mente de Neo.
Em uma linha do tempo, Neo morreu sozinho e esquecido.
Em outra, devorou todos que conheceu.
Em outra, reinou como tirano.
Em outra, destruiu o Submundo e zombou do legado de Hades.
Em uma, Elizabeth o tratava com olhos frios e vazios.
Em outra, as reencarnações de seus pais o amaldiçoaram e negaram que fosse seu filho.
As memórias acumulavam-se.
A pressão ficava mais pesada.
As versões passadas do Heavenbreaker—os diferentes "Neo"s manipulados por 'Eu'—eram obrigadas a convergir em uma só mente.
Toda sua dor pressionava contra ele.
'Eu' entendia perfeitamente sua fraqueza.
A força do Heavenbreaker vinha de sua força de vontade.
Assim como sua vulnerabilidade.
'Eu' explorou isso sem hesitar.
Ele tentava usar suas emoções contra ele.
O Registro Celestial oferecia uma solução.
Séculate suas emoções.
Séculate-as temporariamente.
Sobreviva sem sentir.
Mas o Heavenbreaker recusou.
Deixou sua raiva ferver.
Deixou as memórias lhe atingirem repetidamente.
Permaneceu imóvel.
Suportou.
Esperou.
E esperou mais.
O tempo dentro do estado meditativo não se movia normalmente. Ele se alongava e se torcia a cada nova versão do 'Eu' que criava.
O Heavenbreaker continuou.
A meditação virou uma batalha silenciosa, sem movimento, sem golpes, sem barulho.
Apenas dor e paciência.
Finalmente, depois do que pareceu uma eternidade, um estalo ecoou atrás dele.
O casulo tremeu.
Um suave brilho surgiu através da superfície.
Depois, outro estalo.
Depois, mais um.
A transformação chegava ao fim.
O Heavenbreaker não abriu os olhos.
Ele manteve sua respiração firme.
O casulo se abriu ao meio.
Uma linha de luz passou a sair lentamente.
A forma evoluída dentro dele estendeu pela primeira vez sua presença.
O ar ao redor se ondulou.
A concha caiu aos pedaços, um a um.
A criatura que fora uma lagarta, depois um casulo, finalmente emergiu.
Estendeu suas asas, afiadas e limpas, carregando uma aura que não existia neste universo antes deste momento.
A evolução de Beelzebub foi concluída.
O Heavenbreaker… Não, Neo ergueu a cabeça lentamente, respirou fundo uma vez.
A dor das memórias não desapareceu.
Mas ele as abraçou do mesmo jeito.