
Capítulo 752
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Neo POV
Neo, o Abençoado da Água, e Moraine estavam viajando pelo espaço.
As estrelas se estendiam infinitamente ao redor deles. O silêncio era quebrado apenas pelo zumbido dos motores da nave.
De repente, os olhos do Abençoado da Água começaram a brilhar.
A atenção de Neo se voltou imediatamente para ela.
Aquela luz só aparecia quando o Supremo tomava conta do seu corpo.
"Pare a nave," disse o Supremo. Sua voz tinha uma autoridade tranquila que preenchia o ambiente. "Não há mais necessidade de ir lá."
Neo franziu a testa. "O que você quer dizer?"
O Supremo não respondeu.
Ela caminhou em direção ao centro do salão e fechou os olhos.
Um cântico baixo começou a fluir de seus lábios, em uma língua que Neo não reconhecia.
O ar ao seu redor ficou mais denso.
Sua presença aumentou até que as paredes da nave começaram a vibrar.
Sangue começou a pingar de seus olhos, nariz e boca.
Neo deu um passo à frente instintivamente.
"Pare, você—"
Mas antes que pudesse terminar, o sangue que tocou o chão começou a subir.
Eleflutuou junto, formando um redemoinho de névoa vermelha antes de se transformar em um corpo humano.
Cabelos brancos. Olhos vermelhos.
Amélia.
Ela estava inconsciente, flutuando tranquilamente no ar.
O Supremo da Água caiu de joelhos, tossindo violentamente. Sangue escorria pelo chão. Sua forma antes radiante começou a murchar e escurecer.
"Desculpe, criança, por fazer isso com você," ela sussurrou fraca.
Depois, seus lábios se moveram novamente.
Sua voz permanecia a mesma. Contudo, seu tom mudou. Ficou mais suave, mais quente, como uma criança falando com sua mãe. "Foi uma honra servi-la, Mãe. Cair enquanto estou nos seus braços é minha maior recompensa."
Neo ficou congelado.
Quase não conseguia entender o que via.
O Abençoado da Água—vaso do Supremo—estava morrendo.
Rachaduras se espalhavam pela sua pele como vidro quebrado.
O Supremo olhou na direção de Neo, seus olhos enfraquecidos encontrando os dele.
"Ela é a única que pude salvar," disse, seu olhar voltando para Amélia.
Depois, voltou a olhar para ele.
"Agora vou dormir. Quebrei muitas Leis e gastei muita energia para trazê-la de volta."
Ela tentou se levantar, mas as pernas fraquejaram.
Mesmo assim, se manteve de pé e deu um passo trêmulo em direção a Neo.
"Filho do Monarca... não," ela falou suavemente, "Neo Hargraves."
Neo prendeu a respiração, como se o ar tivesse parado na garganta.
Seu entendimento processava tudo o que acontecia.
Porém, seu coração queria negar tudo isso.
"Proteja essa criança. Ela é nossa única esperança. A única arma capaz de derrotar 'ele'."
A voz dela foi desaparecendo.
Seu corpo começou a desintegrar-se como areia escapando pelos dedos.
Neo estendeu a mão, mas já era tarde demais.
O corpo do Abençoado da Água se desfez completamente, e a presença do Supremo desapareceu.
O silêncio que veio a seguir era insuportável.
Neo apertou os punhos.
"O que ela quis dizer com isso?" murmurou. "Ela disse que ia dormir? Amélia é a única arma?"
Ele olhou para o corpo flutuante de Amélia.
"E por que ela disse que só podia salvar ela?"
Uma inquietação apertou seu peito.
Ele se virou para o console da nave.
Ainda faltavam várias horas para chegar ao Local.
"Droga."
Ele bateu a mão na mesa com força.
Olhou de novo para Amélia.
Ela ainda estava inconsciente. Sua respiração era regular, mas fraca.
Seu pensamento passou por várias possibilidades.
Seriam derrotados pelos Dragões Ancestrais?
Não fazia sentido. Eles tinham Amélia, Arthur, Percival, Felix. Cada um era poderoso por si só.
"Não podiam ter perdido. Nem os dragões conseguiriam sobrepujar todos ao mesmo tempo," murmurou Neo, tentando se convencer.
Moraine olhava para ele com um olhar cheio de emoções.
Ela via ele tentando negar a verdade diante de seus olhos.
Começou a andar de um lado para o outro, batendo o pé contra o chão de metal.
Cada segundo que passava aumentava sua preocupação.
Ele queria que Amélia despertasse. Precisava de respostas.
Moraine falou por trás dele. "Neo, pare de se preocupar. Ficar ansioso não resolve nada. Você precisa de cabeça clara para decidir o que fazer a seguir."
Neo a olhou e assentiu lentamente. "Você tem razão."
Ele respirou fundo e se sentou.
Os minutos pareceram se arrastar.
O zumbido da nave parecia ficar mais alto. Cada vibração parecia ecoar pelo silêncio.
Ele tentou se manter calmo, mesmo com a cabeça girando de pensamentos.
Ficava olhando para Amélia, esperando que ela se mexesse.
Horas passaram assim.
"Neo," finalmente disse Moraine, "chegamos ao Local."
Neo não esperou.
Teletransportou-se imediatamente para fora da nave.
E congelou.
Não havia nada.
Apenas espaço vazio se estendendo sem fim em todas as direções.
Ele piscou, pensando por um momento que tinham chegado no local errado.
Mas, ao verificar as coordenadas, estavam exatas.
Tudo que deveria existir ali—o Local, os Elementais Berserker, seus amigos—havia desaparecido.
"Nem uma pista dos Elementais Berserker," disse calmamente. "Tudo foi apagado."
Arthur. Percival. Felix. O Fragmento da Alma de sua mãe. Até mesmo vestígios da estrutura do Local sumiram.
Neo tentou recuar o tempo.
O feitiço ativou, mas nada mudou.
Tudo aqui já havia sido destruído na sua essência mais profunda.
Não foi apenas apagado, foi espalhado.
Ele entendeu o que isso significava.
Apesar de usar todo o seu poder, não conseguiria trazê-los de volta.
Para recuperar o que foi perdido, precisaria reverter o tempo de todo o universo.
Mesmo com [Empréstimo], isso era impossível.
A Energia Inicial necessária para obter essa quantidade de energia emprestada estaria além do que podia fornecer.
"Droga!"
Neo bateu o punho no ar com força.
O espaço tremeu e rachou.
O sangue escorreu pelos seus lábios, onde mordeu.
'Nunca devia ter deixado eles saírem da Terra.'
'Deveria tê-los forçado a entrar no meu Cosmos.'
'Deveria—'
A mente dele se encheu de arrependimento.
Todas as decisões possíveis passaram como lâminas em sua cabeça.
Mas já era tarde para tudo isso.
Prendeu os punhos até que as juntas ficaram brancas.
"Neo!" disse Moraine com voz firme do interior da nave. "Ela está acordando! Venha aqui!"
Neo teleportou-se instantaneamente para dentro.
O corpo de Amélia, suavemente, desceu até o chão. Seu peito subia e descia enquanto ela respirava fraca.
Seus olhos se abriram lentamente.
"Eu..." ela murmurou, com a voz rouca. Seus olhos se moveram pelo cômodo até encontrarem Neo. "Neo? Você está aqui?"
"Sim," respondeu ele suavemente.
Amélia sorriu levemente.
"Então, o resto..."
"Desculpe."
Ela parou.
A pequena sorriso desapareceu.
Seus olhos vasculharam seu rosto, procurando alguma pista de que ele estivesse mentindo.
Mas Neo não disse mais nada.
Ele não precisava.
A cabeça de Amélia abaixou-se.
Seus cabelos brancos caíram à frente, cobrindo seu rosto.
Suas mãos tremiam.
Ela fechou os punhos.
Mesmo sem ver seus olhos, Neo sentia o desespero emanando dela.
Depois de um longo silêncio, ela falou com uma voz estranhamente calma. "Como estou viva?"
"O Supremo da Água salvou você. Usou todo seu poder para trazê-la de volta. Isso a forçou a entrar em sono profundo."
"Entendo," disse Amélia.
Ela apertou as mãos ainda mais até que o som fraco de ossos se partindo encheu o cômodo.
Mesmo assim, sua voz não tremeu.
"Você consegue salvar os outros?"
Neo permaneceu em silêncio.
Essa já era resposta suficiente.
Amélia não olhou para cima.
Seus ombros tremeram uma vez, depois ficaram imóveis.
Após um longo intervalo, ela se levantou lentamente.
Seus passos eram vacilantes.
Neo finalmente viu seu rosto.
Seus olhos tinham perdido toda luz.
Eram vazios, como se ela estivesse morta.
"Desculpe," ela sussurrou.
Desculpa por quê?
Por que ela estava pedindo desculpas?
Neo queria dizer a ela que não era culpa dela, mas as palavras não saíram.
"Preciso descansar. Minha cabeça dói," disse ela.
Sua voz era estranha, demais calma para alguém que acabara de perder tudo.
Amélia virou-se e caminhou em direção às cabines do navio.
A porta se fechou com um sussurro suave.
Neo e Moraine ficaram ali em silêncio, enquanto Amélia dormia na câmara.
Passaram-se dias desde então.
Amélia não acordou novamente.
Neo tentou usar seus poderes—o Conceito do Elemento Vida, Felicidade—para restaurar sua mente.
Experimentou diversas técnicas, uma atrás da outra.
Nada funcionou.
Ela permaneceu dormindo. Sua respiração era regular, mas fraca.
"A psique dela está destruída," disse Moraine, verificando seu estado.
Neo costumava sentar-se perto dela.
Às vezes, falava com ela, na esperança de que respondesse.
Outras vezes, permanecia em silêncio, apenas olhando.
Moraine mantinha-se quieta na maior parte do tempo, observando ambos.
Mas Neo podia sentir, quase imperceptível, um pulso de desespero no ar da nave.
A luz que Amélia, ao tornar-se a Amada do Supremo, começara a carregar tinha se apagado completamente.
E, pela primeira vez em muito tempo, Neo sentiu-se verdadeiramente impotente.
Olhou pela janela, para a escuridão infinita do espaço, e sussurrou para si mesmo: "Vou encontrar uma forma de consertar isso. Eu prometo."
Mas nem mesmo ele tinha certeza de quem realmente estava tentando convencer.
Levantou-se e saiu da câmara de Amélia.
"Neo?" chamou Moraine, percebendo que algo não ia bem.
"Estou bem. Só vou focar na batalha contra a Aliança. Eles chegaram ao reino de Illyana, onde estão Jack e meu clone. Como a nave não chegará a tempo, vou usar meu clone para lutar."
Sua voz soava estranhamente sem emoções.
Moraine mordeu os lábios.
Ela queria ajudar, mas seus recursos eram limitados.
"Você tentou falar com o Espaço para nos ajudar a chegar mais rápido? E quanto ao líder dos Sóis Esquecidos," ela perguntou, esperando manter a conversa para que Neo parasse de pensar nos seus amigos falecidos, nem que fosse por um instante.
"O Espaço não fala mais comigo. Acho que… Tornei-me a Pessoa que ele Odeia. Quanto ao líder dos Sóis Esquecidos, não consigo rastreá-los sem a ajuda do Espaço. Até Illyana disse que não conhece suas coordenadas."
Neo apertou os punhos enquanto olhava para o espaço infinito fora da nave.