
Capítulo 687
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Kevin continuava falando, sem perceber os pensamentos de Neo.
"Sabemos quem é a nova Bruxa da Luxúria. Ela tem se escondido e provavelmente está planejando alguma coisa, mas foi confirmado que alguém foi escolhida para ser a nova Bruxa da Luxúria. Quanto à Bruxa do Orgulho… não temos ideia de quem ela seja, ou se alguém já foi escolhido."
A boca de Neo ficou seca.
Ele sabia exatamente quem ela era.
Ele tinha ajudado a torná-la uma Bruxa.
Elizabeth.
Ela era a—
"Bruxa do Orgulho", murmurou Neo.
Kevin achou que Neo queria saber sobre ela.
Ele explicou: "Uma pessoa pode ter escolhido se tornar a Bruxa do Orgulho, ou talvez, ninguém tenha sido escolhida ainda. Não temos notícias sobre ela."
Neo parou de andar.
Kevin continuou por alguns passos antes de perceber que estava sozinho.
Ele se virou com uma expressão de dúvida no rosto.
"Há algum problema?"
Neo não respondeu imediatamente.
A pesada sensação no peito só se aprofundava.
Toda vez que Kevin abria a boca, mais verdades escapavam, e cada uma parecia feita para empurrá-lo ainda mais fundo na espiral da loucura.
Ele quase desejou não tê-lo seguido.
"Neo?" Kevin insistiu.
"…Não é nada", murmurou Neo.
Ele queria ir embora.
A cabeça dele estava tão turva que não conseguia absorver mais nada.
Ele não queria saber o que mais Kevin tinha a dizer.
Cada resposta só desgastava seu coração.
Kevin parecia perceber a mudança nele, mas, ao invés de parar, falou novamente.
"Você deveria conhecer a Guloseima. Sei que você tem sentimentos pela sua nova amante, mas pelo menos diga a ela que é grato. Ela te trouxe de volta. Ela merece isso."
"…Por que você está fazendo isso?" ele perguntou. "Por que se importa com o que eu digo para ela? Você não odeia Moraine por ter tomado a Autoridade da Vivienne?"
"Eu não a odeio", Kevin respondeu sem hesitar.
"…Por quê?"
"Quando se vive tempo suficiente, o ódio se desgasta."
Neo o observou por alguns segundos, depois virou-se e começou a caminhar em outra direção.
A voz de Kevin o acompanhou.
"Mesmo que você não possa encontrar Guloseima até estar forte o suficiente, pelo menos conheça quem esteve com você até agora."
Neo não respondeu.
Seus pensamentos eram um nó complicado.
Ele não conseguia compreender o que Kevin quis dizer.
Ele não queria compreender.
Kevin não o seguiu.
Mas sua voz ainda chegou até seus ouvidos, forçando-o a confrontar tudo o que vinha negligenciando até então.
"Antes de Guloseima ficar forte demais, ela previu o que ia acontecer.
"Ela sabia que não conseguiria te encontrar de novo."
"Então, ela usou o contrato que Severant tinha com você, e com ele… ela cortou uma parte de si mesma."
Neo congelou.
Ele se virou lentamente.
"…O quê?"
"A parte que ela cortou era infinitamente mais fraca que o próprio eu dela", explicou Kevin. "Mas ela poderia existir ao seu lado. E, como foi cortada por Severant, tornou-se uma entidade independente. Era uma entidade que era ela, e mesmo assim podia existir no universo, sem estar mais ligada a ela."
"…O que você está querendo dizer?"
"Tem que haver uma Bruxa que sempre esteve ao seu redor. Mesmo que ela esconda sua identidade, há alguém que esteve sempre lá, independente de onde você estivesse. Uma presença constante. Uma pessoa que existiu em toda a sua vida."
Neo mordeu os lábios.
A memória tomou conta dele.
Uma princessa real.
Uma gulosa.
Um rei.
Alguém que adorava sua comida.
Alguém que o protegeu.
Alguém que um dia amou profundamente, mas tinha medo de se aproximar demais.
O peito dele apertou.
Os olhos de Kevin o observavam cuidadosamente.
"Você sabe quem ela é?"
Rei Morgan.
E…
"Parece que você sabe quem ela é. Então vá e a conheça. Mesmo que ela seja apenas uma parte que não esteja mais ligada à Guloseima, ela ainda é Guloseima."
Neo não se moveu imediatamente.
Sua mente revisitou encontros que antes pensava serem coincidências.
Agora, cada um lembrava Moraine, que queria estar com ele.
…
Ponto de vista de Felix (Portador de uma das Quatro Armas de Alma)
Felix manteve o olhar fixo nas costas de Vlad enquanto caminhavam pela trilha queimada.
A terra estava seca e rachada.
O solo desolado se estendia por todos os lados.
Parecia que a própria vida tinha sido expulsa dali.
A cobra enrolada frouxamente ao redor dos ombros de Felix se moveu um pouco.
Suas escamas estavam frias contra seu pescoço.
Ninguém além dela podia ver.
Ela carregava uma caixa longa sobre o ombro.
O leve tilintar de dentro sugeria que continha algum equipamento.
Ela suspirou, arrastando um pouco suas botas.
"Até que ponto temos que andar?"
A cabeça de Vlad virou o suficiente para ela captar o olhar penetrante de seus olhos vermelhos.
"Cala a boca. Seja grata por ainda ter a chance de encontrar os seus ilustres", respondeu.
"Ah, desculpe", ela disse rapidamente, fazendo uma expressão envergonhada. "Não quis parecer mal-educada."
O grande dragão de sangue virou-se novamente para frente.
Seus longos passos nunca diminuíram.
O som suave do bater da língua era um claro sinal de que ela não era bem-vinda na conversa.
Felix ajustou a alça da mochila e seguiu silenciosamente por um tempo.
O ar permaneceu quieto, o único som sendo as pegadas deles na terra queimada.
Parecia que caminhavam há semanas, embora, segundo ela, tivesse sido apenas alguns dias.
Em algum momento—ela não soube dizer exatamente quando—passaram para algo estranho.
Houve um estalo, como se ela tivesse atravessado uma barreira invisível.
O ar ficou mais denso, pressionando contra sua pele, e então foi como se um véu fino tivesse sido puxado de seus olhos.
Felix parou no meio do caminho.
Ao longe, formas tão enormes que demorou alguns momentos para ela reconhecer o que eram.
Dragões.
Dragões antigos.
Seus corpos marcados por cicatrizes. As asas pareciam rasgadas.
E, ainda assim, sua presença era indiscutivelmente avassaladora.
A boca de Felix ficou seca.
'Olha esses grandalhões, podiam simplesmente diminuir de tamanho, mas nãooo, o ego deles é maior que o osso. Precisaram aumentar para parecer ameaçadores.'
Felix mal conseguiu manter a expressão séria.
'Venyth, não faz isso agora. Se eu rir aqui, morro na hora!'
Venyth lazily flicked its tongue, como se dissesse que não se importava com isso.