
Capítulo 679
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Moraine sempre achou que o vazio no coração dela era algo que ela teria que viver para sempre.
Mas agora, não só esse vazio tinha sido preenchido, como ele transbordava.
Ela nem percebeu isso de início.
Não foi uma grande revelação ou uma epifania.
Foi simplesmente… ele.
Eles riam juntos das cookies queimadas.
Seguravam as mãos durante os passeios vespertinos.
A felicidade que ela sentia ao estar ao lado dele tinha aumentado várias vezes.
Só a presença dele bastava para fazê-la sorrir sem motivo.
E quando ele retrucava com um sorriso?
O coração dela batia mais rápido, como se fosse a primeira vez de novo.
Por mais dias, semanas ou anos que passassem, esse sentimento nunca desaparecia.
Ele nunca se apagava.
Se fosse o caso, só ficava mais forte.
Mas é claro que a vida não os deixou em harmonia perfeita para sempre.
Moraine odiava reencarnar no passado.
Nunca perguntou a ele como conseguia viajar no tempo.
Porque ela tinha uma boa ideia de como ele fazia isso.
‘Ele está cumprindo os testes da irmã mais velha, Vivienne, e deve ter pedido a ela para enviá-lo de volta no tempo como recompensa.’
A ideia a incomodava.
Não, ela não só se incomodava.
Ela ficava completamente maluca.
Só de imaginar ele encontrando outra das irmãs dela, tinha vontade de destruir alguma coisa.
Moraine sempre acreditou que era superior ao possessivismo típico que assombrava outras bruxas.
Ela não era daquele tipo que ficava com ciúmes só porque o namorado conversava com outra mulher.
Mas se ele falasse com outras bruxas?
Isso era outra história.
Vivienne mesma tinha avisado: As outras irmãs vão tentar roubar ele de você.
E agora ele estava encontrando a Vivienne?
O peito dela queimava só de pensar nisso.
Mas, por outro lado… talvez ele usasse outro método para voltar ao passado.
Algo que não envolvia a irmã dela.
'Ele é um demônio. Então talvez consiga encontrar um jeito diferente. É possível.'
Ela se agarrava a essa possibilidade.
Enquanto ela não soubesse que ele tinha encontrado a Vivienne, enquanto o método permanecesse ambíguo, ela podia fingir que não era assim.
A incerteza era sua proteção.
Mesmo assim, ela não ficava de braços cruzados, deixando tudo acontecer.
Ela se certificava de jogar histórias sobre bruxas nas conversas.
Claro que todas eram histórias ruins.
Ele só dava uma risada.
Era desesperador, pois ele sabia exatamente o motivo dela agir assim.
Então ela decidiu tirar uma pequena revanche, fazendo coisas bobas.
Como os doces.
"Moraine?" ele chamou da cozinha numa manhã.
"Sim?" ela respondeu, folheando uma revista sem preocupar-se.
"Cadê os doces que eu fiz?"
"Ah, aqueles?" ela lhe lançou um olhar inocente. "Estavam deliciosos."
"Era para a loja."
"Mhm. Então talvez você não devesse ter feito tão bonitos."
Ela colocou a língua para fora para provocá-lo.
Ele a olhou, esfregou a ponte do nariz, suspirou fundo e se sentou em frente a ela.
"Sabe de uma coisa? Você devia começar a fazer os doces para a padaria. Agora com certeza você consegue."
"Mas os seus são melhores," ela respondeu docemente, inclinado a cabeça. "Por que eu faria se os seus têm o sabor perfeito?"
Ela se inclinou, apoiando o queixo nas mãos, atuando como uma namorada mimada.
Mas ele não se incomodava realmente.
Com força e resistência, ele poderia assar a vida toda sem cansar.
E ele sempre fazia a primeira fornada só para ela, afinal.
Ela sabia disso porque ele ajustava a doçura e o sabor ao gosto dela toda vez.
Ou seja, ele só fingia estar irritado.
O tempo passou.
Ele nunca deixou de surpreendê-la.
Uma noite, entregou-lhe um pergaminho lacrado, envolto em cordão encantado.
"O que é isso?"
"Uma técnica. É algo que tenho trabalhado especialmente para você."
"Para mim?"
"Sim, uma técnica para despertar talentos latentes. Com ela, talvez você consiga despertar."
"….O quê?"
"Você pode despertar com isso. Tenho certeza."
"Oba, obrigado," ela sorriu calorosamente para ele.
Ele não sorriu de volta.
Em vez disso, olhou para ela por um momento e disse: "Você não acredita em mim."
"Acredito."
"Seu rosto diz o contrário," ele murmurou. "Moraine… não faz sentido você não conseguir despertar. Você é uma bruxa.
"Você é uma das Trinta e Três Pilares do Cosmos."
"Acho que sua Autoridade não é fraca."
"Na verdade, é tão poderosa que seu corpo e sua alma ainda não aguentam."*
"É como alguém tentando treinar força agachando com uma pedra gigante. Não vai ficar mais forte. Só vai ser esmagado," ele explicou.
"…Bruxas têm graus diferentes de talento," ela disse baixinho. "Algumas nascem fortes. Outras, como eu, simplesmente… tiveram azar."
Ele a encarou, e depois de um momento de pausa, falou:
"Pois então. Vamos fazer a técnica mesmo assim. Mesmo que não funcione na hora, vamos tentar. Só por garantia, para minha tranquilidade."
"…Tá bom."
Sentaram-se de pernas cruzadas na cama.
Ele manteve as costas retas e as mãos cuidadosamente apoiadas nas omoplatas dela.
Ela ficou na frente, com a coluna alinhada, as palmas apoiadas nos joelhos.
A técnica exigia que ele estimulasse os recessos mais profundos do potencial dela.
Poderia levar décadas — talvez até séculos — até que algo acontecesse.
Mas ele parecia não se importar.
Eram ambos Imortais e tinham tempo infinito.
Reparou nele soltando um gemido moderado ao usar a técnica.
Ela virou a cabeça.
"Você está bem?"
"Sim. Só me surpreendi com a reação da sua mana."
"Entendi."
Ela virou-se de volta.
Ele continuou trabalhando e, após alguns minutos de silêncio, falou novamente.
"Moraine?"
"Hm?"
"Se der certo, sua Autoridade também pode ficar mais forte."
"Por quê?"
"Porque, se eu estiver certo, sua Autoridade da Gula é forte demais para seu corpo no momento. Se conseguirmos despertar seu talento, seu corpo e alma vão fortalecer. Assim, você poderá usar mais do poder da sua Autoridade."
Ela deu uma risada.
"Seria ótimo se fosse assim."
Atualmente, sua Autoridade permitia que ela adquirisse pedaços de conhecimento dos seres que ela matava.
O tempo passava enquanto treinavam, cuidavam da loja e passavam o tempo juntos.
Mas nem todos os dias eram tão sérios assim.
Havia dias divertidos. E dias embaraçosos também.
"Moraine?"
Ele abriu a porta de manhã e congelou.
Moraine estava perto da cama dele, segurando sua camisa, levantando-a perto do rosto e devorando o cheiro profundamente.
Ela parou quando seus olhos se encontraram.
"N-Não é o que parece," ela gaguejou.
Ele sorriu lentamente. "Não precisa ficar envergonhada, Moraine."
Entrou, sentou na beirada da cama e bagunçou o cabelo dela enquanto ela tentava esconder o rosto atrás da camisa.
"Última noite você disse que odiava como eu cheirava depois do treinamento, não foi?" ele provocou. "Foi mentira? Eu te avisei, não precisa agir com tanta dignidade comigo."
"Ugh…" ela gemia, puxando a camisa mais sobre o rosto.
Ele sempre tinha assumido a liderança na relação.
Era sempre maduro, mais tranquilo que ela.
Ela sentia que tinha que ser quem cuidasse disso. Não podia agir como uma namoradinha imatura, mesmo sendo muito mais velha que ele.
Então ela tentava agir como uma pessoa madura, sobretudo ao descobrir suas preferências.
'Você não sabe lavar suas roupas? Eu te ensino.'
'Pegue esse dinheiro. Compre o que quiser.'
'Vamos lavar antes que qualquer coisa. Suor não cheira bem.'
Ela dava conselhos e agia como uma adulta.
Mas tudo não passava de encenação.
E agora, ela percebeu que tinha desmoronado.
"Moraine, se você gosta do meu cheiro, é só falar."
A voz dele trazia uma brincadeira preguiçosa, entre provocação e carinho.