Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 644

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Silêncio tomou conta da sala.

A Morte Sem Nome não respondeu de imediato.

"Por que você quer saber disso?" ela perguntou.

Leonora respirou fundo e deixou o controle de lado.

"Porque sou discípula do Ceifador," ela disse, olhando nos olhos dele. "Estou viva porque me deram a chance de servir ao Rei da Morte. É por causa da linhagem dele que ainda estou de pé, então, se você é Neo… talvez eu possa ajudar você."

Seu rosto permaneceu impassível, mas algo mudou por trás dos olhos dele.

"Você está disposta a ter um filho só por esse motivo?"

"Bem…"

Leonora acariciou a bochecha, fazendo uma cara de dúvida, como se ela mesma não acreditasse completamente na sua própria justificativa.

"Tenho vários milhares de anos. Não é mais estranho que eu ainda não tenha tido um único filho?"

Aquela explicação o pegou de surpresa, mas ele não comentou nada.

Talvez fosse só o jeito que a sociedade dela funcionava. Talvez ela fosse vista como uma mulher atrasada na terra dela?

"Então," ela continuou, inclinando um pouco a cabeça, "você é o Neo?"

"Como você tem certeza de que eu não vou mentir? Posso simplesmente dizer que sou o Neo e—"

"Você é o Neo?" ela o interrompeu.

Nameless Death a encarou por alguns segundos.

Depois, assentiu lentamente: "…Sim."

Leonora piscou, depois sorriu de leve, coçando a cabeça.

"Sinceramente, não sei como reagir a isso. Nós éramos amigos, mas foi por tão pouco tempo. Acho que deveria me ajoelhar ou algo assim? Já que você é o príncipe do Submundo."

"Não precisa disso," Nameless Death acenou com a mão. "O que quero saber é por que você acredita nas minhas palavras tão facilmente."

"Apenas uma intuição, talvez? Estamos juntos há séculos. Seria estranho se eu não confiasse pelo menos nisso. Além do mais," ela suspirou, "todos já desconfiavam de alguma coisa."

Ela se encostou na parede, mais relaxada agora. A tensão de antes havia desaparecido de sua postura.

Nameless Death a observou atentamente. "Então, por que você tem agido com tanto cuidado comigo?"

Ela levantou uma sobrancelha. "Posso te fazer a mesma pergunta. Por que você tem sido tão distante dos outros?"

"Eu não tinha minhas memórias de volta," ele respondeu, cruzando os braços. "Você já sabia disso."

"Claro, mas seu status deveria mostrar sua linhagem e nome. Não é difícil perceber que você é o príncipe do Submundo."

Nameless Death desviou o olhar por um momento antes de falar.

"Antes, eu não confiava em vocês. E se alguém espiasse meu status e usasse essa informação para manipular-me?"

Leonora o encarou com uma expressão surpresa.

"Isso é um pouco… paranoico, não acha?"

Ele sentiu um toque de vergonha, mas não deixou transparecer.

Na verdade, a paranoia de Nameless Death era justificada.

Ele chegou ao Local Voraka depois de passar por milhares de reencarnações.

Cada uma dessas vidas terminou com traição.

Sua família, seus amigos… pessoas que ele confiava sempre voltaram-se contra ele.

Houve vezes em que seus próprios pais o venderam por dinheiro.

Outras vezes, seus irmãos fizeram coisas similares.

Até seus próprios filhos o deixaram para morrer.

Tudo isso o levou a se tornar paranoico, desconfiando de todos ao seu redor.

Foi só depois que Nameless Death viu os Outros Cosmos pela Porta Sagrada que começou a confiar novamente nas pessoas.

Devagar, mas com consistência, tentou superar sua paranoia.

Ele se sacudiu desses pensamentos e voltou a olhar para Leonora.

"Vamos ao que interessa," ele disse. "Estamos perdendo tempo."

"Certo," ela respondeu.

Ela caminhou até o centro da sala e estendeu a mão.

Então, sem hesitar, cortou a palma com umapunhalada do dedo da mão.

O sangue cintilou com leveza, algo sobrenatural até mesmo na sua calma.

Carregava traços de Intenção, a base da vida que é o alicerce do processo de Origem do Encantamento.

"Vou lançar o Feitiço," ela disse.

Apenas quem tinha o sangue sendo usado podia ativar o Feitiço.

Ele assentiu e recuou um passo.

Um leve brilho cercou sua mão enquanto ela começava a tecer a invocação do Nascimento do Feitiço.

Não era chamativo nem complicado. Não exigia rituais elaborados nem declarações grandiosas. Apenas sangue, intenção e vontade.

Era simples, em teoria.

Mas Nameless Death sabia que era muito mais complexo.

Havia que haver uma razão do porquê os vestígios de Intenção presentes no sangue podiam levar à criação da alma, e da Semente da Existência.

Ponto de vista do Berserker

O Berserker estava sentado sobre uma coluna branca quebrada.

Ele olhava para o céu, onde uma espessa névoa avermelhada escorria do céu.

Para fortalecer-se, ele absorvia os Elementais do Caos presentes no Local Voraka.

A névoa vermelha grudava na pele dele, fundindo-se ao corpo, e reacendendo as brasas que ainda queimavam dentro dele, mesmo que por uma única batalha.

Sorriu.

"Não consigo ver o que ele está fazendo," falou alto, sua voz ecoando na noite sem vento. "Ele está na sua própria Sombra agora, e como ela foi criada pelos seus próprios elementais, qualquer coisa que ele estiver fazendo lá dentro, está escondida até de mim."

Seus dedos se mexeram de excitação e expectativa.

"Mas aposto que ele está criando seu próprio caminho."

Silêncio se seguiu.

Então, alguém falou. A voz era fria, familiar, antiga.

"Vácuo… você realmente precisa fazer tudo isso só para lutar contra a criança?"

"Não dá para simplesmente deixar ele e o irmão dele completarem a missão e partir?"

"Não," ele disse simplesmente.

Rodou um ombro, soltando um suspiro curto.

"Por que eu faria isso?" seu tom era leve, descontraído. "Só quero uma luta de verdade."

A voz—a própria Morte—suspirou.

Havia algo cansado naquela voz, algo que sugeria que ela já tinha feito essa pergunta muitas vezes antes.

"Louco," ela comentou, mais para si mesma do que para ele.

"Vou levar isso como um elogio." O Berserker riu.

Mas então, algo na expressão dele mudou.

Seu sorriso desapareceu, e seu olhar se aguçou ao focar no horizonte, onde a sombra da Morte Sem Nome estava presente.

"Você deveria saber, Morte. Aquela criança tem potencial para fazer o que não conseguimos."

Seu tom não era elevado, mas carregava peso. Como se estivesse falando não só com ela, mas com o próprio passado.

"Você realmente quer que eu enfraqueça com ele? Que deixe ele vencer sem lutar? Você, de todos, deveria entender melhor."

Os elementais da morte que pairavam na névoa ficaram mais silenciosos.

Ainda assim, ela voltou a perguntar.

"Mas por que você está colocando todo o universo em risco só para testar ele? Deixe a criança colocar as CINZAS—"

"Porque," interrompeu o Berserker, "só quando o perigo é real as pessoas agem com tudo o que têm."

Seus punhos se cerraram.

"E só quando tudo estiver em jogo podemos superar a nós mesmos."

Ele olhou para o céu, para a névoa vermelha, para o vazio além da barreira.

"Você esqueceu o que aconteceu conosco?"

Olhos carregados de arrependimento.

"Você, eu, Hades... todos nós lutamos com todas as forças."

Embora tivesse agido como se odiasse Hades — na verdade, odiava Hades no passado, e ainda odeia — eles tinham sido camaradas que lutaram juntos, protegeram um ao outro.

"E mesmo assim..."

Morte, Hades, Vácuo.

Três seres que sozinhos podiam causar medo apenas com seus nomes.

Os três haviam lutado juntos.

Mas não foi suficiente.

Perderam.

Aquietação após aquelas palavras carregava memórias antigas, dores antigas, arrependimentos que duraram demais.

A Morte não respondeu imediatamente.

Ela sabia exatamente o que ele quis dizer.

Aquela pausa durou alguns momentos antes de Berserker falar novamente.

"Neo não precisa da nossa benevolência. Ele precisa encarar a realidade. Se ele não conseguir me derrotar aqui e agora, nunca vai sobreviver ao que está por vir."

Ele fez uma pausa, depois completou:

"E eu prefiro destruí-lo agora, deixá-lo recomeçar depois de reencarnar… do que deixá-lo seguir em frente e perder tudo de uma vez, de forma definitiva."

Um suspiro escapou, mas o olhar dele permanecia firme e resoluto.

"Eu não vou facilitar para ele. Vou dar o meu melhor para derrotá-lo aqui."

A presença da Morte piscou.

"Então, essa é sua resposta."

"É."

Ela não discutiu mais.

Em vez disso, simplesmente se desfez no vento.

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