
Capítulo 592
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Perspectiva de Karax (O Campeão das Formigas Sanguiscreech)
Karax ajoelhou em silêncio.
A pedra sob ele era fresca, cuidadosamente esculpida ao longo de séculos.
Ele enfrentava uma câmara vasta, selada atrás de cortinas douradas. Uma luz cálida escapava do outro lado, pulsando suavemente. Era ali que ela residia, nossa mãe, nossa soberana.
A Rainha das Formigas Sanguiscreech.
Sua voz surgia além do véu.
"Ele vai escapar da Prisão Infinita em breve."
A mandíbula de Karax se tensionou. Seu corpo não se moveu, mas sua mente acelerou.
Ele já não entendia mais o que estava acontecendo.
A Selva do Silêncio Vermelho sempre foi perigosa, mas era sua casa. Previsível, à sua maneira cruel, e ainda assim, recentemente, algo tinha mudado.
Primeiro, um humanoide desconhecido entrou na selva.
Ele massacrou os elités de Nível 5 sem aviso, e quase exterminou também as formigas de Nível 4, dizendo que estava treinando.
Karax tinha estado ausente naquele dia, liderando uma expedição mais fundo nos túneis das raízes. Era a única razão de ele ainda estar vivo.
Os outros não foram tão sortudos.
Por um estranho motivo, a matança não chocou a colônia da mesma forma que chocaria outras espécies.
Eram formigas. Sua sociedade sempre encarou a morte individual como um meio de avançar o progresso coletivo. Perdas não os perturbavam. Crescer era mais importante que vidas.
Quando o monstro humanoide avançou para a selva interior e lutou contra outras criaturas, as formigas viram uma oportunidade.
Com aquelas criaturas fora de combate, poderiam expandir-se para territórios que nunca ousaram tocar antes.
Isso, por si só, foi motivo de sorriso da Rainha.
Mas agora, outra humanoide havia chegado. Desta, diferente. Ele era mais fraco, bem mais fraco que o primeiro.
Parecia estar apenas no Nível 2.
Apesar disso, era muito mais problemático.
Golpes, habilidades desconhecidas, uma escuridão estranha, ele já tinha alcançado o segundo nível da colônia.
E até a Prisão Infinita, algo que poderia conter deuses de Nível 5 com facilidade, começava a se fissurar sob sua energia.
O peito de Karax apertou.
Ele olhou para cima, embora ainda não pudesse vê-la.
"Mãe," disse ele, "por que você fala como se já estivéssemos perdidos?"
"Porque estamos."
"Não," afirmou Karax com firmeza. "Não diga isso."
"Karax," ela continuou com uma voz calma, "O destino começou a mudar. Não vejo mais caminhos claros. O futuro ficou obscuro."
Ele cerrava os punhos. "Então lutamos. Não é isso que sempre fizemos?"
Houve uma pausa, seguida de uma leve risada, profunda e carinhosa, ecoando.
"Você ainda é jovem," disse ela. "Mas não está errado. Se deseja lutar, tenho minhas condições."
A energia se agitou pela câmara.
Por trás da cortina dourada, um suave zumbido surgiu.
Uma corrente de água, pura e luminosa, deslizou. Ela passou pela cortina como uma fita viva, circulando Karax.
Seus olhos se arregalaram.
"Isto é—"
"A Fonte da Vida," disse a Rainha. "Nosso tesouro sagrado. Foi me dado pela Deusa da Primavera e da Vida, quando este mundo ainda respirava. É por isso que nos tornamos o que somos hoje, e o motivo pelo qual evoluímos de simples formigas a deuses."
A água continuava a girar ao seu redor, sua luz impregnando sua pele, seu Núcleo, Semente da Existência, e algo muito mais profundo.
"Eu estou te entregando agora, Karax. Agora é sua para usar."
Ele ficou sem falar por um momento.
Em toda a história deles, a Rainha só compartilhou a Fonte com alguns campeões. Mesmo assim, ela sempre a recolhia de volta. Mas agora—
Ela acreditava que esse era o fim.
Karax rangeu os dentes.
Ele deveria se sentir honrado. Este momento, este presente, deveria enchê-lo de orgulho. Mas, ao contrário, tudo que sentia era amargura.
"Você acha que vamos perder," disse ele.
"Eu acho que podemos," respondeu a Rainha. "Vivi tempo suficiente para saber quando os fios do destino se torcem além do nosso controle."
Karax lentamente se levantou.
"Não aceito isso," disse ele.
"Ótimo." A voz dela ficou mais suave agora. "Mas escute bem."
A corrente de água engrossou um pouco, sua luz se tornando mais intensa.
"Se você perder para ele uma vez," ela disse, "recuará. Não morra de orgulho. Sai deste colônia, encontre outro lugar e reconstrua para nós. Você é o Campeão desta geração, Karax. Enquanto você estiver vivo, nossa espécie não terminará."
Karax não respondeu imediatamente.
Suas mãos tremiam de frustração.
"Não quero fugir," murmurou.
"Você não precisará," ela respondeu. "Isso não é rendição. É preservação."
Karax respirou fundo.
A Fonte da Vida se estabeleceu nele, seu fluxo passando por seus membros e se fundindo com sua Existência e Consciência.
Ele já podia sentir a mudança.
Seu sangue ficou mais puro, e seus sentidos agora estavam mais apurados.
Mas essa era apenas a vantagem superficial.
O verdadeiro poder da Fonte da Vida era outra coisa.
"Vá, Karax," disse a Rainha finalmente.
Karax não era mais apenas um guerreiro.
Ele era a última esperança.
Karax virou levemente na direção da cortina, embora ainda não pudesse vê-la.
"Nos encontraremos novamente, mãe," disse ele.
"Adeus," respondeu ela com afeto.
Karax cerraram os punhos, mas não disse mais nada.
Ele se virou para partir.
A câmara interna deu lugar a uma sala enorme, onde a luz diminuía e a temperatura caía um pouco.
Era a terceira camada, o local onde enfrentariam o intruso.
A segunda camada inteira da colônia tinha sido puxada para cá. Centenas de formigas de Nível 3 estavam em formação, suas garras afiadas se mexendo em expectativa.
Algumas de Nível 4 descansavam perto da parede mais distante. Muitas estavam feridas. Seus membros enfaixados e movimentos lentos contavam a história do encontro com o último invasor.
Todos se viraram ao perceber a saída de Karax da câmara da Rainha.
Mesmo na atmosfera tensa, vê-lo paralisou o ambiente.
Seu perfil era inconfundível. Ele era a única formiga humanoide de sua espécie, privilégio concedido exclusivamente ao Campeão.
Ao contrário dos demais, que ostentavam carapaças duras e membros semelhantes a louva-a-deus da linhagem Sanguiscreech, Karax permanecia ereto.
Era mais alto, mais esguio, com uma forma mais refinada, mas ainda assim inconfundivelmente formiga.
Ele caminhou lentamente, tocando nos ombros, acenando quando necessário. Ao chegar na extremidade de um pelotão, parou e falou.
"Já enfrentamos coisas piores," disse, alto o suficiente para que formigas próximas ouvissem. "Este invasor é inteligente, mas não invencível. Vocês fizeram bem em manter essa posição. Em breve, ele cairá. Então, levantem a cabeça e tenham orgulho, pois o monstro está nos observando!"
Não houve gritos de vitória—formigas não comemoram—mas sua postura mudou.
Suas costas ficaram retas, os movimentos mais firmes, e suas antenas vibraram com foco renovado.
Ele se dirigiu a outro grupo.
"Não temam o que virá. Vocês já sobreviveram a inúmeras batalhas. Mais uma é só mais uma."
"Karax," perguntou uma formiga de Nível 3, "conseguiremos vencer isso?"
"Venceremos," disse simplesmente. "Enquanto a bênção da Mãe brilhar sobre nós, ficaremos de pé."'
Sua presença lhes dava conforto e confiança. Enquanto o Campeão estivesse aqui, a colônia ainda tinha esperança.
Mas então, veio o primeiro sinal do colapso.
Um gemido súbito ecoou do fundo. Uma das formigas de Nível 3 que mantinham a Prisão Infinita desabou, espuma escorrendo de suas mandíbulas.
Logo outro caiu. Depois mais um. Seus corpos espasmaram no chão, e em segundos, mais começaram a cair.
A expressão de Karax escureceu.
"Pare a Prisão," ordenou imediatamente.
"Mas—" começou uma das formigas.
"Sem mas," interrompeu Karax. "Se mais um de vocês cair antes de começar a luta, teremos perdido antes de ela começar. Dispensar."
As restantes formigas de Nível 3, embora exaustas, começaram a desmantelar o Conceito.
Mas era tarde demais.
Justo quando a Prisão Infinita começou a se desfazer, várias formigas cuspiram sangue.
Uma delas gritou antes de seu tórax explodir em um spray úmido. Outras duas seguiram. O chão tremeu enquanto partes de seus corpos explodiam num estouro inesperado.
Karax correu em direção a eles. "O que aconteceu?"
Uma das pocas formigas conscientes olhou para cima, quase incapaz de se manter de pé.
"Ele... ele explodiu tudo."
"O quê?"
"O invasor. Ele vinha criando sangue até agora, e todo sangue que criou... ele detonou. Dentro da prisão. Tudo de uma vez. Ele destruiu de dentro para fora."
Os pensamentos de Karax congelaram por um segundo.
Até ele subestimou o quanto o intruso iria longe.
Explodir tudo de uma vez?
Pelas avaliações que recebeu, o intruso produzia uma quantidade de sangue equivalente ao que sua colônia criaria em anos.
Tanto sangue... tanto poder... Não era só um movimento impulsivo. Era suicida.
Porém, então, algo se moveu no tubo acima.
Uma tênue Consciência pairava no túnel vertical que conectava a Primeira e a Segunda camada.
Na sala, tudo silenciou. Todos os formigas sentiram uma profunda sensação de perigo.
Nomeada Morte começou a gerar uma grande quantidade de energia.
Depois, lentamente, seu corpo regenerou-se juntamente com tudo ao redor.
O intruso olhou ao redor rapidamente, percebeu que a câmara estava vazia e, sem dizer uma palavra, virou-se e saltou pelo tubo em direção à terceira camada.
"Mantenham a posição." A voz de Karax ecoou pela sala na terceira camada.
Ninguém desobedeceu.
Ficaram imóveis, observando o tubo enquanto os últimos ecos da descida de Nomeada Morte desapareciam.
Um dos mais jovens de Nível 3 se mexeu inquieto.
Karax não disse nada, mas seus olhos se estreitaram.
Agora ele via claramente o intruso.
O monstro humanoide tinha olhos vermelhos que pareciam sangue fresco.
Seu corpo estava marcado por incontáveis cicatrizes.
E atrás dele, seis orbes flutuavam em formação circular perfeita.
As formigas podiam perceber que ele era apenas de Nível 2, mas sentiam isso.
Perigo.
Não, era mais do que isso. Seus instintos gritavam. O monstro à sua frente era a própria Morte.