
Capítulo 459
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Os fios do Destino estavam muito mais baixos do que o normal para um mundo com trilhões de habitantes.
Era como se ali morassem apenas algumas centenas de milhares.
"Como isso é possível?"
Um calafrio percorreu sua espinha.
"Como um mundo assim pode existir?"
Percival focou para baixo.
Percebeu um fio do Destino murchando, movendo-se ao redor de algo invisível.
No começo, não deu atenção, mas quanto mais se concentrava, mais percebia que algo havia de errado.
Onde estavam os fios do Destino dos trilhões de habitantes de Tártaro?
Por que não conseguia vê-los?
"E se… E se não houver habitantes?"
Ele procurou por pistas que apoiassem sua teoria.
Para seu horror, quanto mais observava, mais tinha certeza da sua suspeita.
Tártaro não tinha habitantes. Tudo não passava de miragens. Ilusões.
O coração de Percival bateu forte.
Começou a juntar as peças das pistas que tinha visto.
"O mundo dentro da árvore de Tártaro é um pesadelo."
"Não, este lugar não é um Mundo."
"Nunca foi um Mundo."
"Achávamos que era um Mundo porque podia fornecer conexão de Energia aos habitantes, mas nunca houve habitantes de verdade. Todos eram parte de uma ilusão criada para enganar quem fosse pego por Tártaro e aqui retido."
Ele segurou a cabeça.
Monstros. Espécies sencientes. Membros do Clã Dragão. Líderes do Clã Dragão.
Quantos deles eram ilusão, criadas para enganar quem fosse capturado por Tártaro?
"Maldito lugar."
Percival sentiu a boca seca.
Ava Williams. Filha do Santo Espadachim Kane Williams. Ela nasceu em Tártaro. Ou seja, ela também era uma ilusão.
Apollo tinha ouvido que Kane era chamado de Grande Desastre. Kane atacou a Grande Expedição e impediu que eles conquistassem Tártaro.
"Ele fez isso porque, se Tártaro fosse conquistado, as pessoas veriam a verdade, e poderiam remover as ilusões, incluindo a dele própria, que é a de sua filha."
Percival mordeu os lábios.
Talvez estivesse indo longe demais com sua teoria.
Mas sentia que suas suposições estavam corretas.
A pior revelação era o fato de que as ilusões não sabiam que eram ilusões.
Pareciam pensar que eram pessoas de verdade.
Percival continuou a olhar ao redor.
O mundo do Destino tinha distorcido o tempo. Permitindo que ele fizesse observações por anos, quando na realidade, apenas alguns segundos se passavam.
O longo tempo ali passado trouxe à tona fatos perturbadores.
"Essas ilusões são criadas com o poder do Pesadelo."
Percival não sabia exatamente quando aconteceu, mas um novo prisioneiro foi capturado por Tártaro no Mar de Sangue e trazido para dentro.
O fio do Destino de Vida daquela pessoa era apenas um pouco maior que seu fio do Destino de Devoração.
Sempre que o fio do Destino de Devoração ficava maior que o fio do Destino de Vida, a pessoa ficava insana por causa da escuridão.
O novo prisioneiro estava à beira de enlouquecer.
Foi morto, revivido, morto, revivido. Matou outros, devorou-os, e ficou mais forte. Matou mais, devorou, cresceu. Foi morto, revivido. Matou, devorou, cresceu.
A rotina do novo prisioneiro era monótona.
Apesar de receber a Imortalidade de Tártaro, precisava lutar constantemente pela sobrevivência.
E isso…
Mostrava a Percival outro horror de Tártaro.
Cada vez que o homem morria e revivia, seu fio do Destino de Devoração ficava um pouco maior.
Porém, esse crescimento não era o problema.
O fio do Destino de Devoração estava distorcendo-se ao redor do fio do Destino de Vida.
Quando o fio do Destino de Devoração ficava grande o suficiente, cobrindo completamente o fio do Destino de Vida.
O mesmo acontecia com todos os outros prisioneiros de Tártaro. Seus fios do Destino de Vida eram totalmente cobertos pelos seus fios do Destino de Devoração.
"Isto… isso significa que a Escuridão ficou tão forte que devorou suas vidas?"
Percival nunca tinha visto algo assim antes.
"Não, se eles estão mortos, como ainda se movem e agem como se estivessem vivos…"
Percival fechou a boca.
Esses prisioneiros estão vivos?
Ele poderia garantir que estavam vivos?
O fio do Destino de Vida deles foi 'comido' pelo fio do Destino de Devoração.
Então, seriam cadáveres que estão em movimento como se estivessem vivos?
"Estão mortos e sendo manipulados à força, como bonecos, por Tártaro, ou ainda estão vivos?"
Percival torceu para que fosse o último.
Decadas passaram no mundo dos fios do Destino. Percival poderia ter parado sua busca obsessiva pela verdade. Isso o prejudicava, lentamente o destruía.
Mas ele queria saber a verdade.
Por que esse mundo foi criado do jeito que foi? Qual era o propósito por trás disso?
Ninguém pediu para Percival arriscar sua vida pela verdade.
No entanto, ele não podia permitir que um mundo distorcido como aquele continuasse existindo.
Quanto tempo mais teria passado? Percival não sabia. Sua alma ficou fraca demais.
Embora usasse a Bênção do Infinito da deusa Ártemis, havia um limite para o quanto sua mente conseguiria suportar para observar os fios do Destino.
Sua alma entrou em sono profundo.
Ele despertou de repente após um tempo desconhecido.
"Onde estou?"
Olhou ao redor e percebeu que estava ao lado da Árvore de Tártaro.
Porém, esse mundo era real? Ou era mais um pesadelo criado por Tártaro?
Percival começou a duvidar de tudo.
Por que Tártaro estaria envolvendo os fios do Destino de Devoração ao redor dos fios do Destino de Vida?
Por que criou um inferno tão distorcido assim?
"Você está desperdiçando sua energia e tempo com pensamentos inúteis," a voz do Sol surgiu em sua mente. "Os anos que passou no mundo dos fios foram igualmente em vão."
"Eles não serviram para nada."
"O que você quer dizer com inúteis—"
"O aviso de Ártemis tinha a intenção de desviar sua atenção para seus aliados e ajudá-los. Você fez isso?"
"Eu—"
Percival ficou sem palavras.
Ele não entrou na Abismo.
Estava com medo demais do que poderia encontrar lá.
"Percival, não é sua natureza mostrar fraqueza. Afaste as dúvidas do seu coração e continue avançando."
Percival olhou para suas próprias mãos.
Estava tremendo.
O inferno distorcido que havia visto o deixou com um medo incontrolável.
As pessoas viviam anos com suas famílias. Alguém propunha casamento. Alguém cuidava de seus filhos. Outros treinavam para entrar no Clã Dragão.
Mas eles não sabiam que tudo era uma ilusão, parte de um pesadelo.
Não tinham família de verdade. A vida que viviam era falsa.
As memórias criadas ao longo dos séculos eram fabricadas.
E eles próprios poderiam estar mortos, sendo apenas uma miragem passageira—uma sombra—de seus verdadeiros eus.
O estômago de Percival virou.
Ele vomitou.
Sentiu-se como se estivesse preso dentro de um pesadelo terrível. Uma piada distorcida criada para afundar as pessoas no desespero ao verem sua verdadeira essência.
"Se você odeia tanto o pesadelo, então destrua-o."
A voz de Sunshine ecoou sem hesitar.
"Acabe com esse inferno distorcido."
"Eu não posso. Eu…"
Ele tinha medo.
Ele—
"Você vai deixar seus aliados para trás de novo? Vai se encolher de medo outra vez só porque viu um horror distorcido?"