Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 423

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

" Deve ser aquela mulher, né? Ela foi quem te roubou de mim. Ela—"

"Você pode parar agora."

Neo colocou a mão sobre a dela.

Seus dedos estavam frios e tremendo.

"O rei Morgan nunca falaria assim."

"Por que não falaria? Que mulher não ficaria com raiva quando o homem que ama a traí-la?"

Ele não fez nenhum movimento para impedir que suas unhas cavassem sua pele.

"Você não é o rei Morgan."

"Hehe, fácil pra você dizer. Se eu não sou ela, então quem sou eu?"

"Minha pesadelo. Meu…"

Neo fechou a boca.

Ela era sua saudade.

Ele queria recompensá-la por tudo o que ela fizera por ele.

"Você me traiu."

"Aprendi a seguir em frente."

"Então essa será a sua desculpa por me esquecer?"

"Nunca a esqueço, nem a qualquer outro. As memórias de minhas vidas passadas ainda são vívidas dentro de mim."

" Eu te odeio."

"Por favor, não diga isso com essa aparência."

"Haha, sua voz nem treme," ela disse. "Você sente algo ao me ver morrer?"

A força sob suas unhas lentamente diminuiu.

Sua respiração ficou fraca.

Enquanto conversavam, seu corpo finalmente parou de se mover, imóvel.

Neo permaneceu quieto com o cadáver do rei Morgan em suas mãos.

Sabia que aquele lugar era um pesadelo, e o rei Morgan diante dele era uma criatura da sua imaginação.

Mas…

Doía.

Perder ela novamente trouxe à tona aquela dor há muito esquecida.

Neo piscou e a cena ao redor dele mudou.

Ele apareceu num mundo desolado.

Larvas rastejavam por toda parte onde olhava.

Pilares gigantes de mil olhos erguiam-se ao longe.

Algo atingiu seu abdômen. Seu corpo foi para trás e se chocou contra uma rocha gigante.

"O quê…"

Ele tentou respirar.

Uma larva gigante o prensou contra a pedra.

Enquanto Neo tentava resistir às criaturas, dezenas de larvas finas atacaram-no.

Eles rastejaram por dentro da sua pele, devorando nervos e músculos.

Neo tentou gerar Energia Cósmica.

Mas parecia que ele não era mais um Quebra-Céus.

A larva gigante rugiu e o lançou pelos ares.

Seu corpo rolou pela terra rachada até parar no chão.

Ele tentou ficar de pé.

A dor das larvas comendo-o por dentro transformou sua mente num caos.

Elas consumiam sua energia e seu sangue, fazendo-o sentir como se fosse um tronco vazio.

A situação dele se agravava rapidamente.

Os pilares de mil olhos atacaram.

Sua cabeça começou a latejar intensamente.

Ele era vítima de dores físicas e mentais inimagináveis.

Mesmo assim, Neo se moveu.

"Por que diabos minha vida é tão cheia de merda?"

Colocou as mãos nos joelhos e se levantou lentamente.

As larvas gigantes correram em sua direção.

Ele tinha que lutar. Por mais que estivesse machucado, não podia parar. Não era o momento nem o lugar para isso.

Ele mordeu a língua, preparado para enfrentar os ataques que vinham.

A cena ao redor dele mudou novamente.

Neo apareceu numa viela.

Uma lâmpada de rua piscando era sua única companhia na noite.

Ele olhou para baixo.

As pequenas larvas que devoravam por dentro desapareceram.

Estava vestindo roupas diferentes e não tinha ferimentos no corpo.

"Este lugar é onde perguntei sobre minha maldição de sangue do Primogênito."

De repente, ouviu um soluço.

Neo ficou tenso.

Sabia quem era a voz.

Mira.

Reencarnação de sua mãe.

"Droga."

Neo se moveu na direção do som.

Este mundo era feito a partir de seus pesadelos.

Os dois últimos pesadelos mudaram depois que ele os enfrentou.

Tudo ficou claro.

Ele tinha que encarar seus pesadelos se quisesse escapar daquele mundo.

Era fácil encontrar Mira.

Ela estava sozinha em sua casa.

Com os joelhos puxados contra o peito.

Lágrimas escorriam de seus olhos inchados.

"Mãe…"

Neo ficou do lado de fora da casa.

Sabia que tinha que encará-la. Era a única maneira de sair daquele pesadelo.

Mas precisava de coragem para isso.

Coragem que não tinha.

Ele tinha escapado quando ouviu seus soluços de volta ao seu mundo.

Os choros dela apertaram seu coração. Eram dores demais.

"Droga."

Sua mãe o tinha salvo quando ele estava morrendo após ver a quarta visão da Esfinge.

E mesmo assim, aqui estava, com medo de encontrá-la.

"Que merda eu sou."

Ele reprimiu o tremor nas mãos e tocou a campainha.

Mira reagiu instantaneamente.

Talvez, achasse que era George—seu namorado—quem tinha tocado a campainha.

Ela enxugou as lágrimas e abriu a porta.

"Você?"

"Oi," disse Neo, tentando sorrir. "Não sei se você se lembra, mas eu sou—"

Mira gritou.

Ela recuou rapidamente, com uma expressão de medo.

Neo congelou.

Só então se lembrou do laudo médico da Mira que Henry mostrou para ele.

*Ela tinha trauma de monstros místicos por causa do incidente na Masmorra.*

Ver ele, a pessoa no centro daquele evento, ativou suas memórias.

Ela começou a hiperventilar.

"Mãe—"

"Não chega perto de mim!"

Mira jateou sua mão que tentava apoiá-la para longe.

Demorou um momento para perceber o que tinha feito.

Por mais que estivesse assustada, ela entendeu quem era Neo Hargraves.

Não podia insultar alguém de sua posição.

"Eu—desculpe," ela disse enquanto tentava parar de tremer como uma folha.

"Tudo bem, eu fui o culpado por aparecer sem avisar."

Neo se afastou.

Ele caminhou sem pensar e acabou parando numa ponte.

"Que diabos eu estou fazendo?"

Ele cobriu o rosto com as mãos.

O primeiro pesadelo com o rei Morgan terminou depois que ele falou com ela sem esconder suas emoções.

O segundo pesadelo, sua luta com Velkaria, terminou quando decidiu enfrentar as larvas, mesmo estando incrivelmente fraco.

O padrão ficou claro.

Ele tinha que encarar seus pesadelos de frente.

Mas…

Era mais fácil falar do que fazer.

O olhar de sua mãe, aquela que o salvou há muito tempo e o tratou com ternura, agora o encarava com medo.

Parecia que ela estava olhando para um monstro.

"Droga, estou com vontade de me matar."

Neo estendeu seus sentidos.

Ao contrário do que aconteceu na realidade, Henry não veio resolver o mal-entendido.

George—reencarnação de seu pai—também estava desaparecido.

Sem apoio, o estado mental de Mira só piorava.

"Vou acabar com aquele babaca do Tartarus assim que sair daqui."

Neo voltou para a casa de Mira.

Tanto quanto relutava em encontrar-se com sua mãe, precisava sair daquele lugar.

Ele tinha que ser rápido.

Elizabeth não tinha muito tempo.

Neo não podia perder tempo por causa de um pesadelo que não era real.

Ele tocou a campainha.

Mira não ficou tão surpresa ao vê-lo desta vez.

"Precisa de alguma coisa?" ela perguntou.

"Foi um mal-entendido."

"Hã?"

"Pai—quer dizer, George. Ele não cheatou. A mulher que você viu era uma curandeira. Ela veio consertar o George depois que ele apanhou na formação."

As palavras de Neo trouxeram uma avalanche de informações.

Leva um tempo para Mira processar tudo.

"Como você sabe disso?" ela perguntou, segurando forte na maçaneta da porta. "George deve tê-lo mandado para grudá-lo…"

Ela parou de falar, percebendo que aquilo era impossível.

Neo Hargraves era o herdeiro da Hargraves Corporation, o Governante dos estudantes do Primeiro Ano na Demigod Academy, o Campeão das Sombras que venceu o Desafio das Sombras, e Líder do Clã dos Grandes Mortais.

Ele não era alguém que George pudesse usar como escudo.

"Como você sabe de tudo isso sobre o caso?"

"Como eu disse, foi um mal-entendido, não um caso," Neo respondeu, acrescentando. "Eu e meu irmão estamos atentos à situação da sua família."

"…o quê?"

"Você é minha mãe, e o George é meu pai. Pelo menos, suas reencarnações originais são. Por isso, ficamos de olho em vocês. Estávamos preocupados com nossos pais."

Mira piscou, chocada.

Se antes ela estava surpresa, agora ela estava pasma.

Neo sabia que tudo o que dizia não era fácil de engolir.

"Mãe."

Ele deu um passo em direção a ela.

Mira recuou instintivamente.

"O-o que você está fazendo?"

"Posso segurar a sua mão? Quero provar o que disse."

Mira olhou para a mão estendida dele.

Ainda tinha medo dele.

Mas suas palavras eram tão chocantes que ela não podia ignorar, e, por algum motivo, não sentia que ele tentava se aproveitar dela.

Ela colocou a mão levemente sobre a palma dele.

Neo usou Suação para transferir a bênção de Brota-Flor para ela.

A benção a curou, física e mentalmente.

Ela conseguiu ficar calma e pensar com clareza.

"Esse poder… parece familiar."

"É a minha mãe, a deusa da Primavera, a bênção de Perséfone."

Mira abriu e fechou a boca sem conseguir falar.

Neo sorriu.

"Tudo bem. Aproveite o seu tempo. Esse tipo de informação não é algo que se possa aceitar de uma hora para outra—"

As redondezas de Neo mudaram.

Ele tinha conquistado seu terceiro pesadelo.

"Onde estou agora…"

Neo percebeu que estava flutuando no espaço.

Incontáveis larvas devoravam seu corpo.

Sua bênção o regenerava várias vezes, mas as larvas não pareciam querer parar.

Ele as agarrou e esmagou.

Ao ver sua resistência, as larvas tornaram-se mais ferozes.

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