
Capítulo 399
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Não era apenas pesado.
Sua aura continha algo muito pior.
A presença da garota parecia se expandir.
Seus olhos dourados brilhavam com um frio cortante enquanto ela encarava Neo.
Medo do Dragão.
O chão tremeu sob eles.
O ar ficou espesso, ondulando e torcendo como se o próprio espaço se curvasse à sua vontade.
Um medo primordial infiltrou-se na mente de Neo—
"Acho que esse tempo deve ser suficiente?" Neo perguntou calmamente.
A garota estremecera.
Pareceu não ser afetada pela habilidade dela, Medo do Dragão.
"…Como você está bem?" ela perguntou.
"Apesar do ataque ter sido forte, foi um ataque mental, e eu sou usuário de Trevas. Tenho uma mente forte."
Olhos de Ava fixaram-se nele, tensos.
Uma mente forte…?
Não era algo incomum.
Quase todos em Tártaro possuíam isso.
A habilidade dela deveria funcionar com todos eles.
Ela havia destruído homens mais fortes, reduzido guerreiros a cacos tremendo.
Apesar disso—
Neo—
Ela quebrou essa resistência com uma frieza como se fosse algo trivial.
De repente, uma terceira voz, familiar, ecoou pelo cômodo.
"Bom trabalho, Ava. Vou cuidar daqui pra frente."
O espaço ao redor da segunda cadeira ondulou como um reflexo distorcido na água, revelando um homem que havia estado invisível até então.
"Eu não estava invisível. Estava em uma pseudo-Gap," disse o homem—Kane—que havia lido os pensamentos de Neo.
Instintivamente, Neo protegeu seus pensamentos para que ninguém pudesse bisbilhotar.
"Oh, você consegue fazer isso?" Kane questionou, surpreso.
Seu cabelo castanho bagunçado e sorriso despreocupado eram inconfundíveis.
Ele parecia ter a mesma idade que Neo lembrava—ou, na verdade, parecia mais jovem.
"Desculpe pelo teste da minha filha. Pedi pra ela fazer isso," ele riu discretamente. "Agora você pode chamar seus amigos."
Com um estalar de dedos, a sala vazia se transformou.
As paredes de madeira simples se expandiram e mudaram.
Em poucos momentos, a cabana se transformou numa casa luxuosa de dois andares.
Kane agora estava confortavelmente sentado no sofá plush, enquanto Ava desaparecia na cozinha para preparar chá.
Neo permaneceu de pé perto das portas.
'Ele não se lembra de mim.'
Neo já esperava por esse resultado.
Ele tinha se preparado para isso.
Dissera a si mesmo que não faria diferença.
Kane estava vivo—isso já era suficiente.
Mas, estar ali, vendo-o sorrir e falar como se fossem estranhos, apertou o coração de Neo.
Ele não entendia por quê. Não deveria se sentir assim.
Mas estava triste.
Os outros três Executores entraram na casa.
"Sentem-se," disse Kane, apontando para as cadeiras.
Eles assinaram ao comando e seguiram suas instruções.
Ava voltou da cozinha, carregando uma bandeja com chá.
As xícaras tilintaram suavemente ao serem colocadas na mesa.
O grupo conversou enquanto saboreavam o chá quente.
"Por que vocês estão aqui?" Kane perguntou.
Ele colocou a xícara com um leve som de clique e explicou,
"O contato entre Tártaro e qualquer coisa lá fora é raro. Por isso, não sei qual é a sua situação atual nem o motivo de vocês terem vindo até aqui."
"Estou aqui pelo Arma Divina de Ares e, se possível, pelo corpo dele."
"O tesouro sagrado."
"Para ajudar a deixarem Tártaro."
"Vocês podem sair de Tártaro?" Os olhos de Kane se levantaram ao olhar para Olivia.
"Sim."
"Isso… é surpreendente." Kane recostou-se ligeiramente, cruzando os braços. "Deveria esconder essa habilidade. Se alguém em Tártaro descobrir, fará de tudo para conseguir isso."
Tártaro era uma prisão para aqueles com alto karma negativo.
A maioria de seus habitantes eram usuários de Trevas.
A natureza única das Trevas tinha moldado uma sociedade brutal, onde as pessoas devoravam seus oponentes por estatísticas, habilidades, linhagens e mais.
"Vou manter isso em mente." Olivia assentiu.
"E quanto a você?" Os olhos de Kane se prenderam em Neo.
Ele não respondeu imediatamente.
Ao invés disso, aumentou a intensidade de sua Intent, criando inúmeras Intent falsas e envolvendo seus verdadeiros pensamentos com elas.
"Estou aqui para impedir a Guerra do Mar de Sangue."
Neo planejava revelar sua verdadeira missão a Kane—pedir sua ajuda para fazer a Flor-Espada Violet surgir.
Mas essa conversa teria que esperar até estarem a sós, longe dos olhos atentos dos Executores.
"E você? Por que ainda não voltou ao nosso mundo?" Percieval perguntou.
A maneira estranha como ele conversava com Kane deixou Neo franzir a testa.
'Apollo e Kane deveriam se conhecer.'
'Por que Apollo age como se fosse a primeira vez que encontram?'
"Não posso fazer isso mesmo que eu queira. Tártaro nunca deixa alguém sair depois de capturá-los. Sinceramente, duvido que vocês consigam também."
Kane deu de ombros como se isso não o incomodasse.
"Mesmo que eu pudesse sair, não sairia," continuou. "Tenho algo a fazer aqui. Claro, ajudarei meus compatriotas, desde que não seja algo absurdamente impossível. Mas primeiro, vamos tomar café da manhã."
"Não temos tempo a perder—"
"Comam enquanto podem." Kane interrompeu Percieval com um gesto casual. "Confie em mim. Essa é a única chance de vocês terem um pouco de paz. Roubar a Arma Divina de Ares não vai ser fácil."
"Você sabe onde ela está?"
"Sei. Também tenho uma maneira de ajudar vocês a conseguirem o Tesouro Sagrado e uma passagem para sair dessa maldita prisão. O único problema é…"
Kane hesitou.
Seus dedos batiam distraidamente na superfície de madeira, enquanto apontava para Neo com o queixo.
"Guerra do Mar de Sangue. Como vocês vieram aqui para impedir isso, suponho que a guerra será entre Tártaro e a Terra, né?"
"Sim," respondeu Neo.
Kane soltou um suspiro.
"Não faço ideia do porquê ela vai acontecer nem como impedi-la," ele admitiu. "Na verdade, conheço alguém que tem a habilidade de começar a guerra.
"O problema é que essa pessoa nunca iniciará um conflito."