
Capítulo 385
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
“Ainda não alcancei o grau de Exaltado.”
A expressão de Charlotte mudou rapidamente.
As palavras de Neo pareciam reforçar seus pensamentos.
Seu olhar relampejava com inúmeras emoções — choque, descrença e, por fim, aceitação.
Ela suspirou antes de soltar o pulso de Neo.
“Parabéns, Neo Hargrave. Agora você é um dos guerreiros mais fortes que temos,” ela disse.
“Obrigado,” Neo respondeu.
Ele não se deu ao trabalho de explicar mais.
Sabia que, não importa o que dissesse, Charlotte não acreditaria se ele contasse a verdade — que era Paragon, não Exaltado.
“Me acompanhe. A Esfinge me disse que você vai levar Elizabeth a algum lugar com você,” ela falou.
“…?”
“Você não sabe disso?” Charlotte perguntou, notando a expressão de surpresa dele.
“A Esfinge não revelou todos os detalhes pra mim,” Neo respondeu.
“Entendi,” Charlotte assentiu pensativa. “Pelo que me explicou, ela vai te mandar a algum lugar pra conseguir o cura para Elizabeth.
“Mas esse lugar é longe.”
“Quando você voltar com a cura, Elizabeth já não estará mais conosco.”
“Por isso ela quer que você leve Elizabeth contigo,” explicou.
“E você aceita isso? E se eu não conseguir a cura e, ao invés disso, colocar Elizabeth em ainda mais perigo?”
Por um lado, tudo parecia demais pra ser verdade.
Era como se a Esfinge tivesse outro objetivo ao enviar Elizabeth com Neo.
'Qualquer missão que a Esfinge tiver pra mim parece ser perigosa.'
'Levar Elizabeth junto, considerando sua condição, é contraproducente.'
Os passos de Charlotte desaceleraram, e ela se virou para encará-lo.
“Eu estava preocupada antes, mas agora, vendo você, confio em você.”
“….”
“Você é um Exaltado, e seu histórico fala por si. Além disso, Elizabeth confia em você.”
Neo assentiu com um olhar quase imperceptível.
Ele cruzou o portal e se encontrou na sala de enfermaria de Elizabeth.
A sala estava silenciosa, exceto pelo leve bip dos monitores e o suave ruído dos ventiladores.
Elizabeth jazia na cama.
Seu rosto pálido transmitia serenidade, como se estivesse perdida em um sonho passageiro.
“Pode ir. Use seu Espaço Sombrio,” disse Charlotte.
Apesar das palavras, Neo percebeu como seus braços se abraçavam firmemente ao redor do próprio corpo.
Seus nós estavam brancos, e seu olhar permanecia em Elizabeth.
Estava claro que ela estava profundamente preocupada em deixar Elizabeth sob seus cuidados.
Neo virou-se para Charlotte antes de usar seu Espaço Sombrio para levar Elizabeth junto.
“E a Amelia?”
Charlotte ficou tensa.
Ela olhou para o lado.
“Vou dizer a ela que enviei Elizabeth para um curandeiro.”
“Então vamos mentir pra ela?”
“Sim, porque….”
As palavras de Charlotte se perderam, e seus lábios se apertaram formando uma linha fina.
Sua expressão revelou tudo.
“Ela está magoada comigo?” Neo perguntou.
“Magoada seria uma forma muito suave de dizer. Depois que você foi visitar Elizabeth na última vez, Amelia mandou os guardas não deixarem você entrar de novo,” Charlotte suspirou.
Neo ficou sem saber que expressão fazer ao ouvir aquilo.
Ele tomou sua decisão após pensar cuidadosamente.
“Vou conversar com Amelia e pedir autorização dela.”
“Ela te odeia, garoto. Duvido que ela deixe sua mãe sob seus cuidados.”
“É melhor do que mentir pra ela e….”
Os olhos de Neo se moveram em direção ao ursinho de pelúcia de sereia, descansando ao lado da cama de Elizabeth.
Ele tinha deixado aquilo lá.
Se Amelia realmente o odiasse, ela teria jogado o ursinho fora sem hesitar.
“Acho que ela vai ficar bem em deixar Elizabeth comigo.”
“Tudo bem.”
Charlotte saiu do quarto após garantir a decisão de Neo.
Neo ficou sozinho, cercado pelo suave zumbido dos equipamentos médicos.
Ele olhou mais uma vez para Elizabeth.
“…”
Ele saiu do quarto e se apoiou na parede, esperando.
Não levou muito tempo até Amelia chegar.
Seus passos eram apressados.
Ela parou por um momento ao avistá-lo.
Recuperando a compostura, passou por ele sem uma palavra e entrou na sala de Elizabeth.
“Ok, talvez não seja tão fácil quanto eu achava,” murmurou com um sorriso amargo.
O tempo parecia arrastar-se enquanto Neo aguardava lá fora.
Os corredores estavam assustadoramente silenciosos, o silêncio quebrado somente pelo leve som de máquinas ao longe.
Horas se passaram.
Finalmente, às 4 da manhã, a porta do quarto de Elizabeth se abriu levemente.
Amelia saiu.
Ela fechou cuidadosamente a porta atrás de si, para não acordar a mãe.
“Por que você não vai embora?” ela perguntou em tom baixo, porém incisivo.
“Tenho algo pra falar com você,” Neo respondeu.
Amelia o encarou por alguns segundos longos antes de fazer um gesto em direção ao corredor.
“Vamos conversar em outro lugar. Não quero despertar a mãe.”
Neo assentiu e a seguiu silenciosamente.
Foram até a cafeteria dentro do prédio.
Amelia parou numa mesa perto da janela, e ambos se sentaram.
A vista lá fora revelava um leve tom alaranjado se misturando ao céu escuro enquanto o sol começava a nascer.
O olhar de Neo se dirigiu para Amelia, que estava sentada rígida à sua frente.
'Será que ela me trouxe aqui porque achou que eu estava com fome?' pensou, interpretando sua intenção.
Ele não tentava espiar seus pensamentos — respeitava sua privacidade — mas um breve olhar para sua intenção lhe dava uma ideia geral de suas emoções, mesmo que ele não quisesse.
Ambos comeram em silêncio, apenas o som dos talheres se chocando entre eles.
Amelia mexia distraidamente na comida.
Por fim, ela quebrou o silêncio.
“Como você está?”
“….”
“Deixa pra lá. Não é nada,” disse Amelia rapidamente, desviando o olhar.
Neo percebeu o tumulto interno dela.
Ela lutava entre a raiva dele e a preocupação que ainda sentia.
Ele tinha acabado de voltar da Prova Sombria há poucos dias, e desaparecera novamente.
Sua ausência repentina tinha preocupado seus amigos — e Amelia.
A expressão fria, como a que ela copiara de Elizabeth, era sua tentativa de esconder emoções mais suaves por baixo.
Essa percepção fez Neo sorrir de leve.
Os olhos aguçados de Amelia perceberam de imediato.
“Por que está sorrindo? Tem alguma coisa engraçada?”
“…Não,” Neo respondeu sob o olhar dela.
O silêncio se estabeleceu entre os dois.
O olhar de Amelia permaneceu fixo na comida enquanto ela continuava a mexer nos restos do prato.
Ele, por sua vez, comia em silêncio.
Só quando terminou sua refeição é que Amelia abriu a boca.
“O que você queria conversar?” ela perguntou.
“Vai me ouvir finalmente?”
“Tenho escolha?” Amelia retrucou com um olhar de reprovação.
Ela cruzou os braços e inclinou-se um pouco para trás.
“Sean me contou como você foi teimosamente ficar do lado de fora do escritório do Professor Daniel por anos, esperando que ele te ajudasse a despertar seu elemento Tempo.
“Aposto que você faria algo semelhante até eu te ouvir.”
“Encontrei uma pista para curar Elizabeth, e—”
“Não.” Amelia interrompeu. “Não quero sua ajuda pra curar a mamãe.”
“No mínimo, escute o que tenho a dizer.”
“E o que isso vai adiantar?”
A voz de Amelia subiu um pouco.
“Não confio mais em você. Você é a razão de a mamãe estar assim. Porque decidiu fazer as coisas do seu jeito e usou a mamãe pra isso…”
Suas mãos clencharam-se em punhos.
O peito dela subia e descia enquanto tentava controlar a respiração, claramente se segurando para não gritar com ele.
Neo suavizou o olhar.
“Amelia, sei que errei. É algo que não tem perdão. Mas, por favor, me dê mais uma chance.”
Neo se importava tanto com Elizabeth quanto com Amelia.
Por isso tentava salvar Elizabeth e não a levava embora sem a permissão de Amelia.
“Quero corrigir meus erros.”