
Capítulo 356
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Cerberus abaixou as orelhas ao sentir a dor de Neo.
O monstro de três cabeças gemeu e inclinou uma de suas enormes cabeças.
"Au?"
"Intenção." Neo tentou falar. "Segure um pouco."
Um cego não poderia ser ferido por um flash de luz forte, e um surdo não seria machucado por um ruído potente.
Da mesma forma, a maioria dos seres nunca despertaram seus Sentidos de Intenção e não conseguiam perceber a intenção dos outros.
Mesmo se despertassem esses sentidos, eram fracos.
Neo, por outro lado, treinou por séculos para fortalecer seus Sentidos de Intenção.
Sentia como se tivesse colado o ouvido em um alto-falante muito potente.
Os gemidos e latidos de Cerberus reverberavam em seu cérebro.
Suas joelhos tremeram e sua visão escureceu.
Sangue escorria de seus ouvidos e olhos, manchando suas roupas.
'Preciso... aprender a... fechar meus Sentidos de Intenção.'
Neo fechou os olhos.
Tinha um alto domínio sobre Intenção.
Estava confiante de que poderia aprender a fechá-los facilmente.
Porém, isso levaria tempo.
"Au! Au!"
De repente, a Intenção avassaladora de Cerberus recuou.
Ela foi absorvida de volta ao seu corpo enorme.
Neo ofegou suavemente, sentindo um alívio no peito.
O monstro de três cabeças, com cuidado, se aproximou de Neo.
Uma de suas cabeças inclinou-se curiosamente.
"Au...?"
"Sim, agora está tudo bem."
Neo conseguiu dizer enquanto limpava o sangue do rosto com a mão tremendo.
"Au!"
Os olhos de Cerberus brilharam de alegria.
Ele pulou em cima de Neo.
Sua língua grossa escorregou para fora, e ele lambeu Neo felizes, cada cabeça dando sua vez.
"Au! Au!"
"Eu disse que estou bem agora. Você não precisa se preocupar."
Neo sorriu levemente, colocando a mão na pelagem de Cerberus.
Usou seu elemento Vida para curar seu corpo.
Usar sua bênção aceleraria a cura, mas ele queria treinar seu elemento Vida.
Cerberus recuou após lamber Neo com satisfação.
Sentado com as quatro patas no chão, sua cauda balançava rapidamente.
Ver ele tão feliz fez Neo rir baixinho.
Ele estendeu a mão para acariciar a cabeça de uma das Cerberus.
Ficou surpreso ao perceber que Cerberus já tinha controle básico da Intenção, como retraí-la para dentro do corpo.
Faz sentido.
Até Barbatos podia usar a Intenção para criar um clone ilusório.
'Acho que todo mundo aprende alguma coisa quando vive tempo suficiente,' pensou Neo.
Usou sua Afinidade com Água para limpar o sangue de suas roupas.
Depois, com um movimento dos dedos, invocou seu elemento Trevas, que devorou a água ensanguentada.
Enquanto Neo massageava o queixo de Cerberus, a grande besta roncou de contentamento, suas caudas grossas batendo preguiçosamente contra o chão.
De repente, as pesadas portas do salão rangeu ao abrir, e uma mulher entrou apressadamente.
Ela trajava um manto preto esvoaçante, adornado com bordados prateados.
Seus olhos dourados demonstravam pânico, e ela fez uma reverência profunda para Neo.
"Peço desculpas, príncipe, por não ter estado presente para recebê-lo assim que chegou," gaguejou Gremory, a 56ª Hierarca da Morte e Guardiã da Porta do Submundo, enquanto mordia a língua no meio da fala.
"Sinto muito—er, que."
Ela tentou se desculpar novamente, mas acabou mordendo a língua novamente.
Cerberus suspirou alto, e todas as três cabeças balançaram em uníssono.
Neo sorriu.
"Há quanto tempo, Gremory."
"Também estou feliz em revê-lo, príncipe," respondeu Gremory nervosa.
A reencarnação de Neo chegava ao Submundo toda vez que morria.
Ele tinha as memórias de suas reencarnações passadas.
Mas não se lembrava do que fez em cada uma delas no Submundo.
Talvez fosse uma regra apagar qualquer memória de uma alma relacionada ao Submundo antes de sua reencarnação?
Neo não lembrava de ninguém do Submundo de suas reencarnações anteriores.
Porém, os ceifadores lembravam-se dele e de suas reencarnações.
Sempre cuidavam de Neo até que fosse a hora dele reencarnar.
"Por favor, venha comigo, príncipe."
Gremory conduziu-o até a sacada.
A sacada era bem grande, com piso de mármore preto e uma bela vista da cidade.
Cerberus estava estendido próximo de Neo.
Embora seu dever fosse guardar a Porta do Submundo ao lado de Gremory, ele preferia passar um tempo com Neo do que ficar na sala abaixo.
Ela lhe ofereceu uma xícara de chá.
Neo pegou a xícara.
"O chá está do seu agrado, príncipe?" perguntou Gremory, de pé ao seu lado com postura respeitosa.
"Está, mas podemos conversar sentados, não? Não há necessidade de você ficar de pé," sugeriu Neo.
"Não me atrevo a fazer isso," respondeu Gremory.
Neo balançou a cabeça, então virou o olhar para baixo.
Da sacada, via a vasta cidade de Primavera Cobalto.
A cidade exuberava movimento, com figuras de monstros e humanos transitando pelas ruas.
Primavera Cobalto era uma das maiores cidades de Ceifadores na Floresta de Todos os Começos.
"É uma cidade agradável," comentou Neo, tomando um gole de chá.
"Tudo graças aos Caçadores de Almas que nos ajudam a manter a lei e a ordem," respondeu Gremory com orgulho, enquanto observava a cidade agitada lá embaixo.
Neo sorriu contido.
A lei e a ordem precisavam ser mantidas mesmo no Submundo.
Enquanto tomava seu chá, uma dúvida surgiu na cabeça de Neo.
"Por que meu distintivo de Ceifador funciona? Pensei que o Conde Andromalius seria o 73º Ceifador, já que o uso do tempo foi alterado e eu não me tornei um Ceifador."
"Foi como você disse. A posição de 73º Ceifador pertence a Andromalius," explicou Gremory. "Só que ele abriu mão dela ao descobrir que, em uma das linhas do tempo, havia passado sua posição para você."
Somente oitenta e um Ceifadores podiam existir ao mesmo tempo.
Os Ceifadores escolhiam Caçadores de Almas talentosos como seus sucessores e passavam suas posições para eles.
Neo foi sucessor de Conde Andromalius na Era dos Deuses.
Naquela época, a pedido do Conde Andromalius, Neo o colocou em sono eterno antes de assumir seu posto.
"O Conde Andromalius chorou de alegria ao saber que o Príncipe Segundo era seu sucessor," comentou Gremory. "Ele se gabou com o Duque Belial e o Marquês Zagan."
Gremory tossiu e acrescentou.
"Na verdade, ele foi adiante e garantiu que todos soubessem da novidade. Sabia que a notícia deixaria a maioria dos Ceifadores com inveja, e não podia perder uma oportunidade dessas."
"Isso é típico dele," disse Neo. "O que o Conde Andromalius faz agora?"
"Ele está esperando por você antes de partir," respondeu Gremory, baixando um pouco a cabeça como sinal de respeito.
'Partir.'
Uma vez que um Ceifador passava sua posição, ele podia fazer uma de três coisas:
Entrar no ciclo de Samsara (Reencarnação), entrar em sono crônico ou sobrecarregar seu núcleo e se dispersar pelo mundo como pura energia (ou seja, a Morte Verdadeira).
"Entendi," assentiu Neo. "Vou visitá-lo em breve."
O suave farfalhar da pelagem de Cerberus enquanto ele se mexia por perto encheu o breve silêncio.
Neo conversou mais um pouco com Gremory.
Trocaram pequenos ratos sobre o estado do Submundo e dos Caçadores de Almas, antes de ele se levantar.
Olhou o mapa que Gremory lhe entregara.
"Tenho certeza de que encontrarei a Leonora aqui?" perguntou Neo.
"Sim, príncipe. Leonora von Villers conquistou grande renome como Caçadora de Almas nos últimos meses," respondeu Gremory com confiança. "O time dela deve estar em Solace City agora."
"Obrigado pela informação."
"Foi um prazer ajudar." Gremory fez uma reverência profunda.
Neo deixou a cidade.
Usou seu Salto Sombrio para mover-se rapidamente.
Solace City ficava bastante longe.
Levaria quatro dias até chegar lá.
Durante o percurso, passou por monstros em fúria, cidades de Ceifadores e ruínas destruídas.
Ao chegar em Solace City, dirigiu-se ao prédio dos Caçadores de Almas.
Dentro, havia uma fila enorme de Caçadores de Almas e civis, todos esperando sua vez de falar com os funcionários.
O hall fervilhava de movimento.
Neo pôde passar à frente ao mostrar seu distintivo de Ceifador.
Ele caminhou até o balcão e encontrou a recepcionista.
"Saúdo o Segundo Príncipe," disse eloquentemente o monstro humanoide com cabeça de punho fechado. "Em que posso ajudá-lo hoje?"
"Estou procurando por Leonora von Villers," informou Neo.