
Capítulo 286
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Jack rangeu os dentes.
Sua expressão estava pálida e tensa.
Sombras e trevas se alongavam de forma bizarra ao redor dele, distorcendo-se como se fossem vivas.
Ele tentou usar seu fólice.
Mas nada aconteceu.
O pânico tomou conta de seu rosto.
Ele não poderia se reviver em outro corpo.
— O que está acontecendo...? — perguntou, perplexo.
Alguns segundos se passaram enquanto ele ficava atônito com a ausência da ativação de sua característica única.
O chão sob seus pés rachou, enquanto a corrupção se alastrava.
A atmosfera opressiva parecia tirar sua força até do mais profundo interior.
— Será que é por causa disso...? — pensou enquanto fixava os olhos na tela à sua frente.
[O Vazio corrompe você.]
[O Vazio corrompeu uma parte da sua Semente da Existência.]
Vazio.
Ele não fazia ideia de como aquilo funcionava.
Não era ensinado na Academia, e essa foi sua primeira experiência com isso.
Devagar, as habilidades de Jack foram sendo completamente seladas.
Ele só podia assistir, com uma expressão de choque, enquanto um verme saltava sobre sua cabeça, seus olhos múltiplos brilhando de fome.
Não havia tempo para Jack desviar ou para Emma ajudá-lo.
A atenção dela se dividia enquanto tentava auxiliar outros despertadores das aberrações retorcidas.
Suor escorria por sua testa enquanto ela cerrava os punhos, suas habilidades limitadas chegando ao limite de resistência.
Justo quando Jack estava prestes a ser devorado, Thanatos saiu de sua sombra.
Ele agarrou Jack e desviou o verme junto com ele.
— Neo? — a voz de Jack saiu rouca, cheia de incredulidade.
Havia muita coisa que ele queria dizer.
Queria perguntar se Neo estava realmente tão ocupado que não podia tirar cinco minutos para encontrá-lo.
Será que só Jack pensava em Neo como um amigo?
Antes que pudesse expressar seus pensamentos, percebeu algo.
— Você não é o Neo—
— Eu sou, — disse Neo, assumindo temporariamente o controle do clone de Intent.
Sua voz era calma, mas carregava uma urgência que não admitia contestação.
Sem esperar que Jack dissesse alguma coisa, Neo correu na direção de Emma.
Seus movimentos eram rápidos e precisos, como uma lâmina cortando a água.
— Dê-me cobertura — ordenou a ela.
— Entendido — ela respondeu sem questionar.
O chão tremeu sob seus pés enquanto ela invocava mais paredes de Trevas.
Elas surgiram como obsidians irregulares, bloqueando a avançada massa de vermes.
Por um instante, o ruído da batalha diminuiu, enquanto os três eram protegidos pelas muralhas de Trevas.
Neo se ajoelhou na frente de Jack com uma expressão indecifrável.
Ele examinou as rachaduras roxas que se espalhavam pelo corpo de Jack.
— Você consegue usar seus traços ou habilidades?
— … — hesitou Jack.
— Jack, não temos tempo — insistiu Neo.
— Não posso — respondeu Jack, com ar sombrio.
O rosto de Jack era sério.
Ele tinha ficado para trás para ajudar Neo a impedir o apocalipse, mas agora se tornara inútil assim que a batalha começou.
As rachaduras pulsavam, e o corpo de Jack se convulsionou brevemente enquanto a corrupção se expandia ainda mais.
Enquanto isso, a situação de Emma ficou pior.
As paredes de Trevas começaram a se partir sob a investida implacável dos vermes.
Um deles conseguiu passar, avançando na velocidade assustadora em direção a ela.
Ela mal conseguiu desviar, retaliando com uma lança de sombra que empurrou a criatura para fora das muralhas.
O olhar de Neo se virou rapidamente para ela.
— Aguente mais um pouco — ordenou.
Emma rangeu os dentes.
Sua perna tremia de cansaço.
— Não se preocupe comigo. Concentre-se na sua missão — disse, invocando outra parede para substituir a que foi destruída.
As mãos de Neo brilhavam fracamente enquanto ele colocava-as no peito de Jack.
— Não se preocupe. Suas habilidades podem ser curadas — afirmou Neo. — Sua Semente da Existência foi corrompida pelo Vazio, por isso você não consegue usar nada.
— Veja seu status; você deveria ter adquirido afinidade com o Vazio.
— Agora precisa recomeçar do zero para recuperar todas as suas habilidades — explicou.
Ninguém nasce com afinidade pelo Vazio.
Apenas quem é corrompido por ele ganha essa afinidade.
Quando isso acontece, as habilidades dos despertadores retornam a zero.
Depois de corrompidos, o sangue divino pode ser despertado novamente, mas é difícil — explicou Thanatos a Jack.
— Você não é mais necessário aqui. Volte — acrescentou. — O Supremo das Sombras enviará você para outro mundo.
— Não — respondeu Jack, com mandíbula cerrada.
Ele estava preparado para morrer ali.
Além disso, sabia que Neo também não conseguiria escapar.
— Eu não estava pedindo. Foi uma ordem — disse Thanatos, colocando a mão no ombro de Jack e ativando seu traço [Controle Mental].
O Controle Mental era a versão evoluída do traço invasão mental que ele havia pego na Anomalia #33.
Energia Divina emanou da mão de Thanatos, invadindo sua testa.
— Saia deste mundo — ordenou.
— N-não… — balbuciou Jack, resistindo ao controle.
Uma hesitação apareceu no rosto de Thanatos.
Ele poderia aumentar o poder do controle mental, mas havia uma grande chance de deixar Jack com danos cerebrais permanentes.
Essa natureza destrutiva do Controle Mental era a razão pela qual Thanatos raramente usava esse traço.
Quase toda vez, ele queimava o cérebro da pessoa e a tornava burra.
— Jack... — Emma se virou e falou com ele.
Ela tinha percebido o que Neo tentava fazer.
— Por favor, vá embora — implorou.
— Não, eu não vou — respondeu Jack, com esforço.
Emma mordeu os lábios ao perceber a resistência de Jack.
— Desculpe — sussurrou, enquanto invocava seu Conceito e convocava as Trevas.
Usando as Trevas, ela tentou desgastar a resistência mental de Jack, permitindo que o Controle Mental de Thanatos funcionasse corretamente.
Os olhos de Jack ficaram nublados.
Ele abriu a boca.
— Eu... quero... ir… — disse, lutando contra o controle mental para não falar as palavras.
Porém, era inútil.
— voltar… — cochichou.
Uma porta feita de Sombras apareceu ao lado do trio.
Sua superfície ondulava como trevas líquidas.
O ar opressor parecia se modificar levemente ao se materializar, oferecendo uma esperança tênue em meio ao caos.
Porém, apenas Neo e Jack podiam usá-la.
Sem perder tempo, Thanatos agarrou Jack e o lançou pela porta.
Jack mal teve tempo de reagir enquanto as sombras o envolviam, puxando-o para o desconhecido.
A porta se fechou atrás dele com um som de estalo suave, sem deixar qualquer vestígio de sua existência.
Emma relaxou um pouco os ombros tensos, um leve alívio atravessando seu rosto.
Ela não sabia onde Jack tinha ido, mas, pelo semblante de Thanatos, percebeu que ele estava seguro agora.
O mar de vermes ao seu redor, no entanto, não lhe dava muito tempo para refletir.
De repente, a parede de Trevas que os protegiam se partiu com um estrondo explosivo.
Os vermes avançaram com a velocidade de uma revelia, seus gritos ensurdecedores.
Thanatos reagiu instantaneamente, puxando Emma nos braços e recuando para evitar o ataque.
— Você também vai fugir? — perguntou Emma.
— Não — respondeu Thanatos com firmeza. — Este é meu mundo. Vou salvá-lo ou morrer com ele.
— Este também é o mundo do Jack?
— É, mas sou hipócrita — disse, com um sorriso irônico, apesar da gravidade da situação.