
Capítulo 222
Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte
Ele bateu a porta com força ao sair.
Emma começou a rir.
"Desculpa, é só… Ele ficaria bravo se eu risse na frente dele."
Ela enxugou as lágrimas e se levantou.
"Não se preocupe com o Apollo. Ele só se importa demais com todo mundo."
Depois que Emma e Atena saíram, Neo se recostou no sofá e ficou olhando para o teto.
"Vocês têm algo a me dizer?"
Calista, Kane e Alexander permaneceram em silêncio.
Qualquer um no lugar deles teria repreendido, ficado irritado por ele ter deixado o grupo para trás quando teve a oportunidade de subir de nível.
Neo não os culpava se o chamassem de oportunista.
Em vez disso, Calista sussurrou, quase implorando:
"Você vai mesmo nos deixar?"
"Sim."
"Não dá para ficar aqui mesmo depois de se juntar à Associação?"
"Não."
Ela mordeu os lábios e baixou a cabeça.
Nos últimos meses, Neo conseguiu se aproximar de todos na cidade, especialmente Kane, Calista, Alexander e Edmund.
Eram como uma família.
"V-você vai voltar para nos ver, né?"
'Uma verdade amarga ou uma mentira doce?' Neo pensou.
Embora a resposta fosse óbvia.
"Duvido que eu tenha tempo de voltar."
Alexander não conseguiu segurar o punho, assim como Kane.
Neo estava prestes a consolá-los quando Calista enxugou os olhos com a manga e sorriu para ele, radiante.
"Então, faremos uma comemoração para celebrar sua entrada bem-sucedida na Associação dos Despertadores."
"Nosso orçamento já está apertado. Não dá para gastar recursos só por uma pessoa."
"Vamos dar um jeito," disse Alexander. "Tenho certeza de que os cidadãos vão querer contribuir."
Neo tentou convencê-los, mas não conseguiu.
Ele resmungou e saiu do escritório.
Assim que saiu, encontrou Emma esperando por ele.
"Está com tempo livre agora?"
"…Sim."
"Vamos tomar um café."
"…"
"Só vem comigo. Pense como um encontro. Você não tem muita chance com uma garota bonita como eu todo dia."
Neo quis revirar os olhos.
Ele suspirou e concordou.
No caminho, Neo viu Apollo ajudando uma senhora idosa a atravessar a rua.
"Ele não pode ficar sem fazer nada. Você vai vê-lo andando pela cidade ajudando as pessoas o tempo todo. Precisa se acostumar," disse Emma.
Eles entraram no café 'Brew Haven.'
O lugar transmitia aconchego, com móveis rústicos de madeira, iluminação suave e perfume de café recém-passado.
Mais uma vez, Neo notou outro Herói na mesa do canto mais distante.
Atena digitava furiosamente no computador; seu jeito preguiçoso e desinteressado tinha desaparecido completamente.
Emma sorriu ao seguir o olhar de Neo e ver Atena.
"Parece que ela finalmente teve uma ideia para o seu próximo romance."
"Ela é escritora?"
"Sim. Uma profissão péssima, eu digo. Ganhar a vida como escritora já era difícil antes do Apocalipse, e agora ficou ainda pior."
"Duvido que ela escreva por dinheiro, na verdade."
Neo e Emma se sentaram perto da janela e pediram café.
As bebidas chegaram, e Emma deu uma golejada.
"Agora isso me faz lembrar de algo interessante. Quer ouvir?" ela perguntou enquanto se ajustava na cadeira.
"Estou ouvindo," respondeu Neo de forma casual.
Nunca, em hipótese alguma, ele poderia imaginar as próximas palavras de Emma.
"A Atena é uma Filha de Mana. A maioria — na verdade, quase todas — os romances que ela escreveu foram ditos a ela pelo mundo."
"Isso machucou seu orgulho, e ela decidiu continuar escrevendo até poder publicar um livro escrito por ela mesma, e só por ela."
"…"
Neo congelou.
Levou alguns segundos para digerir a informação.
Emma riu baixinho ao perceber seu olhar surpreso.
"Então até você pode se surpreender."
"…Por que me contou uma coisa tão delicada assim?"
"Tive minha motivação. Queria ver sua reação. Estava curiosa se você perdeu suas emoções, já que seu domínio na Escuridão parece bem avançado."
A luz nos olhos de Emma desapareceu.
Por um instante, Neo conseguiu ver sua verdadeira essência.
Sorriso, gestos — tudo era cuidadosamente calculado.
Sua verdadeira essência não tinha emoções.
Neo piscou, e o sentimento estranho desapareceu.
A Emma diante dele voltou ao normal, não mais parecendo uma sociopata sem emoções.
"Você não está preocupado em revelar informações tão sensíveis para mim?"
"Não." Ela se aproximou mais e sussurrou. "Se você pensar em trair a gente, vou te devorar."
"Desculpa, mas não tenho interesse em você."
"Sério?"
Ela sorriu e colocou a xícara de café na mesa.
"Obrigada por satisfazer minha curiosidade. Até mais."
Neo a observou enquanto ela saía do café.
'Ela jogou uma bomba pra ver minha reação.'
'Acho que foi um grande choque para ela ver uma usuária de Escuridão do meu nível ainda manter emoções normais.'
Ele se recostou na poltrona macia.
'Então, Atena é uma Filha de Mana.'
Não eram apenas uma ou duas Filhas de Mana.
Atena era uma, a Esfinge era outra.
E tinha mais algumas que Neo conseguia lembrar.
Infelizmente, ele não sabia exatamente quantas existiam na era atual.
Como Atena estava bem e segura, a Filha de Mana que Neo precisava resgatar era diferente.
Neo olhou para Atena, que estava ocupada digitando, e ponderou se deveria se aproximar.
Logo ela levantou a cabeça e o encarou, franzindo a testa, antes de voltar seu olhar para a tela.
'Parece que ela não quer ser incomodada.'
Neo decidiu treinar para passar o tempo.
Sentou-se no topo das muralhas da cidade e fechou os olhos.
'Minha meta atualmente são três… quatro coisas, considerando minha habilidade de combate.'
'Aprender a magia Tremor: Amanhã Negra do Desespero.'
'Aprender técnicas de espada com Kane.'
'Completar meu Conceito da Morte.'
'Subir de nível.'
Criar um Conceito podia ser algo feito de forma passiva.
No momento, seu foco principal eram as técnicas de espada.
Neo abriu os olhos.
Sentiu Kane surgindo ao seu lado.
"Vamos começar o treino?"
"…Sim."
Kane assentiu.
Os dois se afastaram da cidade.
Mantiveram distância um do outro.
Kane fechou os olhos para se acalmar. Não adiantaria se distraísse.
Quando abriu novamente, seus olhos estavam tranquilos.
"Você vai partir em três dias."
"Exatamente."
"Ainda não dá para aprender minhas técnicas."
"Você pode me ensinar o básico e passar o manual de técnicas de espada que escreveu. Vou aprender com eles."
"Sério?" Kane parecia exasperado. "Como você sabe disso? Não contei a ninguém que estava escrevendo um manual."
"O que posso fazer? Sou meio que um clarividente também."
Kane riu do humor ruim de Neo.
Ele balançou a cabeça com um sorriso amarga.
"Ainda assim, aprender comigo e aprender com o manual que escrevi são coisas completamente diferentes. Não posso garantir que o manual vá ajudar muito."
"Receber aulas diretas de mim é cem vezes melhor."
"Você tem uma confiança enorme pra alguém que só descobriu ontem que usava feitiços."
"Não tenho confiança nenhuma. Por isso, estou preocupado que o manual não seja suficiente para te ensinar."
Kane mordeu os lábios e apertou a espada com força.
"Você não poderia… não poderia ficar com a gente? É tão importante assim sair? Você tem tudo aqui."
"Nem tudo."
Neo sorriu e não explicou mais nada.
"Vamos começar o treino."
Ele desembainhou a espada e apontou para Kane.
Kane soltou um sorriso melancólico e partiu correndo em direção a Neo.