Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Capítulo 213

Filho de Hades: A Linhagem do Monarca da Morte

Memórias da Anomalia #33 invadiram a mente de Neo.

— Desculpa, mãe! Eu não vou fazer de novo! — chorou a criança.

A mãe continuou a puni-la com beliscões.

— Você quase morreu! — aumentou a força dos golpes. — O que você faria se o monstro te notasse?! —

— Mas ia destruir a livraria—ahh! Desculpa! Desculpa! Eu não vou fazer de novo! —

Lágrimas escorreram pelo rosto enquanto a criança esfregava as nádegas após a surra.

— Dói.

Enquanto o menino se esforçava para acalmar a dor, a mulher limpava suas próprias lágrimas.

Se fosse por acaso, ela teria perdido seu filho.

Os pensamentos da situação anterior fizeram-na gelar por dentro.

— Desculpa, mãe. Eu não vou fazer de novo. —

A criança se aproximou dela tristemente, abraçando-a para ajudar a acalmar-se.

Ela mordeu os lábios e acariciou a cabeça dele.

— Vamos dormir agora.

O casal mãe e filho dormia no primeiro andar da livraria destruída.

O lugar estava completamente em ruínas.

Mas eles não tinham um lugar decente para dormir.

A base onde estavam antes tinha sido destruída há uma semana, e os sobreviventes estavam dispersos enquanto tentavam escapar dos monstros.

Enquanto a mulher se preparava para dormir, ela notou o filho lendo um livro.

— Você está lendo aquele livro de novo? —

— Hein? — virou-se para ela. — Não, esse é diferente. Encontrei entre os destroços da livraria. —

A criança folheou o livro—A Tragédia do Rei Enforcado—em poucos segundos e o fechou.

— Você já terminou? — perguntou a mulher.

— Sim. Minha característica só é útil pra isso mesmo. —

A criança sorriu de modo amargo.

As características eram o aspecto mais importante de um Despertador.

Ele despertou uma Característica de nível F, e a mãe não tinha nenhuma.

— É uma boa característica. —

— Se eu tivesse uma boa característica, nossa situação não estaria assim… —

A criança parou de falar ao perceber que a mãe chorava por causa da sua piada.

Antes que pudesse dizer algo, ela se virou, fechou os olhos e não quis mais falar.

Ele suspirou.

Pegou outro livro—um que era seu favorito e motivo pelo qual começou a gostar de ler.

— O que tem de tão bom nesse livro? — a mulher de repente falou sem se virar para ele.

— Hm… É escrito por [O Mito da Sabedoria]. —

A criança coçou a bochecha.

Ele tinha muitos argumentos positivos sobre o livro, mas duvidava que a mãe fosse entender.

— A Despertadora de nível B, Athena? — ela perguntou.

— Sim, ela foi autora antes do apocalipse, décadas atrás. Mas acabou sendo uma autora fracassada. —

— O único livro famoso dela é ‘Filho de Zeus: O Ladrão de Raios’. —

A criança ficou empolgada ao falar sobre seu livro favorito.

— Ah, é. O livro não é baseado em [O Mito da Invencibilidade]. O Zeus do livro é da mitologia de… —

Ele parou de falar ao perceber que ela havia adormecido.

— … —

A criança se ajeitou e olhou para as costas da mãe.

Seus olhos se moveram em direção ao ombro dela.

Ela tinha um braço missing.

Ela cortou o próprio braço e usou como isca para salvá-lo no dia em que o monstro quase o pegou.

O cheiro do sangue foi o único motivo por ele estar vivo.

Ainda conseguia imaginar a cena na cabeça.

Ela tinha arriscado tudo. O monstro poderia tê-la perseguido ou ido atrás do braço, ambos cheios do cheiro de sangue.

— Desculpa… —

Ele mordeu os lábios para não chorar.

Durante o dia, nenhum deles falou sobre o braço perdido.

Era um entendimento tácito.

A mulher não queria que o filho se culpasse, e ele estava perplexo demais para falar sobre isso.

— Desculpa… —

Ele fechou os olhos e dormiu.

Alguns minutos depois, uma mão quente o acariciou e sua mãe cantou uma canção de ninar.

— Não foi sua culpa. Você nem tem oito anos — ela sussurrou e o beijou na testa.

O cansaço dominou o garoto, e ele caiu em sono profundo.

As próximas semanas foram um inferno.

O casal mãe e filho viveu na corda bamba, procurando comida, escondendo-se dos monstros.

Não eram mais atormentados pelos humanos porque eram fracos, mas isso não tornava a vida mais fácil.

As coisas mudaram quando encontraram outra base de sobreviventes.

— O que vamos fazer? — perguntou a criança. — Se esse lugar for como a nossa última base, eu não quero ir pra lá. —

— … —

A mulher olhou para o garoto ao invés de olhar para os portões.

Apesar de parecer esgotada pelas semanas passadas, sua atenção estava focada nas feridas dele.

Cortes sangrentos, bochechas afundadas, olheiras profundas.

A vida na base dos sobreviventes pode não ser fácil; porém, era mais segura.

Pelo menos, para o seu filho.

Ela tomou uma decisão e se aproximou dos portões da cidade.

O procedimento de entrada foi surpreendentemente simples.

— Senhora, nossa cidade de Arzew acolhe sobreviventes sem preconceitos. Nosso líder tem como objetivo criar um refúgio para todos, — disse o homem que abriu os portões.

— Seu líder deve ser uma boa pessoa, — comentou a mulher, com palavras vazias de entusiasmo.

— Eu sei. Eu sou simplesmente muito competente. —

O homem riu e sorriu de orelha a orelha.

— … —

— … —

A mulher e seu filho olharam para ele, confusos.

Ele coçou a nuca ao perceber que eles não entenderam a piada.

— Eu sou o líder da cidade. Estava me gabando para… vocês, sabe, fazendo uma piada. —

Vendo seu olhar sem graça, o rosto do homem ficou vermelho de vergonha.

Era um contraste agudo com sua aparência rústica e de barbas.

Uma risada escapou dos lábios da mulher e o menino começou a rir.

A vida na cidade de Arzew era realmente boa.

O menino e a mãe não eram tratados mal por serem fracos.

Na verdade, muitos humanos normais viviam em Arzew.

Não havia prescrição obrigatória, nem uso de não despertados como isca.

— Boa noite, — disse o líder da cidade, beijando a testa do menino antes de colocá-lo na cama. — Tenha sonhos doces. —

O homem virou-se para sair do quarto.

No instante em que ia atravessar a porta, o menino chamou por ele.

— Ei… —

— O que foi? — ele respondeu.

— … —

— Por que você não fala nada, tem medo de dormir sozinho? — ele brincou. — Nosso querido—

— As paredes são finas. — interrompeu a criança.

— …? —

— É difícil dormir quando você chega em casa à noite e faz barulho. —

— …!?! —

O homem e a criança se olharam por alguns segundos.

Quem quebrou o silêncio foi o homem.

Ele tossiu.

— … Vamos manter silêncio, ok? —

O homem fechou a porta e foi embora.

O menino suspirou.

Ele não tinha contado para sua mãe sobre o problema.

Ela perguntaria onde ele tinha aprendido essas coisas, e ele não queria envergonhar a mãe dizendo que ouvia ela e sua melhor amiga ‘trabalhando duro’ à noite.

E o homem?

Poderia levar um chute na bola, e o menino não lhe daria atenção.

Incapaz de dormir, o menino pegou um livro e começou a ler.

O tempo passou.

Os dias em Arzew eram satisfatórios.

O homem tinha pedido a mão da mãe dele e eles estavam oficialmente namorando.

Tudo ia bem até a expedição.

O homem e seus amigos partiram da cidade para fazer uma passagem segura ligando a base de Arzew à base de Oran.

— Volto em algumas semanas — disse o homem com um sorriso animado.

O passar do tempo parecia muito mais lento.

Os dias que antes passavam rápido se recusavam a terminar.

A mulher orava dia e noite pela segurança dele.

Retornaram uma semana além do previsto.

…O homem não voltou.

Apenas seu corpo retornou.

Era algo comum nesse mundo destruído pelo apocalipse.

A cidade e seus habitantes lamentaram.

Porém, tudo voltou ao normal após alguns dias e um novo líder foi eleito.

Porém, a mulher mudou.

Recusou-se a comer, a sair do cemitério onde o homem foi sepultado.

O garoto continuou levando comida para ela todos os dias, após e antes do trabalho dele.

Ela não dizia nada. Não pediu que ele parasse nem que voltasse.

'Ela precisa de tempo. Tenho certeza de que aceitará a morte dele.'

Os dias melancólicos continuaram.

O garoto continuou trazendo refeições para ela.

Mas…

Tudo mudou no dia em que viu sua mãe abraçando alguém chorando.

— Você voltou… Você voltou… — ela murmurou incoerentemente enquanto uma aura etérea a cobria, junto ao homem.

O menino ficou chocado.

Não podia acreditar nos olhos.

O homem…

Era o líder anterior da cidade e o namorado morto da sua mãe.

Ela o reviveu.

Demorou dias para o garoto aceitar a situação.

Sua mãe tinha despertado.

Sua característica era extraordinária.

Característica de nível S: Portadora da Vida

— Com sua característica, você se tornará uma lenda! Nosso familiar vai ficar famoso! —

— Pare, que é constrangedor. —

O homem e a mulher se aconchegaram, um de cada lado do sofá.

A cidade foi tomada por uma atmosfera festiva.

A aparição de uma característica de nível S era motivo de comemoração.

Os mitos eram os defensores da humanidade.

A mulher, que tinha potencial para se tornar uma mito, era uma luz no caminho dos perdidos na escuridão do apocalipse.

Ela se tornou símbolo de esperança.

Mas…

— Ei, seu mutante de merda! — gritou outro homem, que virou líder após a morte do antigo, — Eu disse pra você trazer alguma coisa que pudesse ser uma fraqueza da sua mãe! —

— O que diabos você quer dizer com que não vai fazer!? — gritou ele, o novo líder da cidade, após a antiga ter morrido.

O novo líder tinha perdido seu posto quando o antigo líder — agora pai do garoto — foi revivido, e os habitantes, felizes, votaram para que ele fosse o novo chefe.

— Devia contar pra todo mundo que sua mãe é uma puta!? —

— Sua mãe deve ser uma monstro! —

O homem bateu na criança.

— Ela… não é um monstro… —

— Hahaha, o que quer dizer que ela não é um monstro? —

— Mortos não se levantam de novo, criança. Só um Necromante consegue trazer os mortos de volta à vida. —

— Aposto que sua mãe é a [Mito dos Cadáveres Andantes]! Aquele Niles Radcliff falou que voltaria antes de ser selado. —

— Sua mãe deve ser a reencarnação dele! —

A criança tremeu de medo.

Não havia ninguém que não soubesse sobre o Necromante.

— Minha mãe… não é uma… monstro! — a criança gritou com raiva.

Ela tentou bater no homem, mas ele evitou facilmente.

— Criançinha, não tente reagir. Ou se esqueceu das fotos?! —

O homem sorriu e mostrou fotos ao garoto.

…A foto pelada da mãe dele.

Uma onda de raiva surgiu do fundo do coração da criança.

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