
Capítulo 1026
Terramar: O Mar Encoberto
Lilith abraçou Lily por um longo tempo. Quando finalmente a soltou, ela tinha sofrido queimaduras que quase a deixaram irreconhecível.
No instante em que soltou Lily, seus ferimentos cicatrizaram rapidamente; o que seria fatal para vampiros comuns nem deixou sequer uma cicatriz nela.
As duas continuaram andando entre as estruturas e formações de terra bizarras da Ilha Cristal Sombrio. Lily aproveitou para observar com calma o terreno e a arquitetura únicos ao seu redor.
"A Fundação nos tratava como párias na era moderna caótica. Eles nos oprimiam incessantemente e faziam questão de que até mesmo viver fosse uma luta para nós. Claro, vampiros não eram os únicos a serem tratados assim.
"Todo mundo levava uma vida difícil na época."
Lily não fazia ideia do porquê tinha que ouvir as divagações da avó centenária ao seu lado, mas os modos que sua mãe lhe tinha ensinado fizeram-na perguntar suavemente: "A Fundação no mundo da superfície é realmente tão poderosa assim?"
"Você não resistiu de jeito nenhum?"
A Mãe segurou a mão de Lily com sua mão direita, que tinha unhas pintadas de vermelho. Ignorando a dor, entrelaçou seus dedos com os da garota e as conduziu pela rua.
"Nós resistimos, mas foi em vão, criança. Ouvi dizer que, anos atrás, existia uma relíquia viva chamada 315. Eles jogaram a Fundação num caos completo, a ponto de quase forçá-la a se dissolver."A expressão da Mãe escureceu lentamente enquanto ela dizia: "Mas que importa? No final, a Fundação executou o 315, e a execução foi transmitida ao vivo."
"Só quando cheguei no Mar Subterrâneo percebi que estávamos destinados a perder essa guerra. A Fundação não é o maior problema—são os bilhões de humanos por trás dela. Se você imaginar a humanidade como um coletivo, então a Fundação é a manifestação da vontade desse coletivo."
"Toda a sociedade humana é a fonte do imenso poder da Fundação. A Fundação sempre existirá enquanto houver seres humanos. Mesmo que seja destruída, ela certamente renascerá, só com um nome diferente."
"Enquanto humanos continuarem sendo os senhores do mundo da superfície, não conseguiremos virar o jogo contra eles."
Lily olhou para a mão entrelaçada com a dela e viu que ela tinha se transformado apenas em ossos. Ela estendeu a mão para acariciar levemente o ombro de Lilith, numa tentativa de consolar a vampira.
Um som de chiado ecoou quando o ombro de Lilith se abriu, formando uma ferida sangrenta no formato de uma impressão de mão.
Justamente então, os passos de Lilith ficaram leves e rápidos. Ela tocou o chão com a ponta dos pés e começou a dançar graciosa, ao som dos chiados que saíam de sua carne.
"Aqui não há sol para nos restringir, e os humanos também não são os senhores. Estou vivendo uma vida maravilhosa aqui. Apesar das coisas inimagináveis acontecerem com frequência, eu ainda gosto daqui."
Enquanto Lily olhava para Lilith, que vinha do mundo da superfície, lembrou-se de seu capitão—Charles. Apesar de estarem na mesma situação, as opiniões deles sobre o próprio destino eram completamente diferentes.
"Quando você chegou aqui vindo do mundo da superfície, já pensou em voltar? Sua família ainda está lá em cima, afinal," perguntou Lily.
"Voltar? Por que eu iria voltar? Criança, nós vampiros temos nossos próprios meios de reprodução. Embora me chamem de Mãe, você provavelmente sabe que aumentamos nossa número por conversão vampírica.
"Quer dizer, nossos laços familiares são bem mais fracos do que você imagina. E, no caso das conversões forçadas, o parricídio é uma consequência bem comum. Além disso, estávamos sendo caçados pela Fundação, então simplesmente não havia como viver em paz na época."
"Naquela época, por causa do sol, não ousávamos sair durante o dia. Só podíamos emergir à noite, vivendo pior que ratos. Além disso…" Lilith hesitou.
A curiosidade de Lily aumentou. "Além de quê?"
"Esquece, vamos parar de falar nisso. É coisa do passado distante. Nem tenho certeza se minha suposição está correta, mas quem poderia afirmar com certeza? Enfim, caminhar assim está muito lento, vamos voar ao invés disso."
"De qualquer forma, você está com fome? Que tal jantar na minha casa?" perguntou Lilith. Então, ela passou um braço ao redor da cintura magra de Lily e voou em direção ao horizonte. Em pouco tempo, surgiu diante delas um castelo preto como a noite, maior no topo e mais estreito na base.
As portas fechadas lentamente, rangendo, e um tapete vermelho foi desenrolado diante de Lily, como se fosse a língua vermelha do castelo.
"Seja bem-vinda à minha morada, criança. Sei que o interior é um pouco simples, mas sinta-se em casa," comentou Lilith. O castelo parecia sombrio do lado de fora, mas seu interior era bem aconchegante e iluminado. Lustres suspensos no ar iluminavam todo o ambiente.
O grande salão era feito de mármore branco, com cortinas vermelhas, pisos reluzentes e elegantíssimas estantes entre as colunas rubras. A maioria delas guardava ouro, prata e louças de vidro.
Lily olhou para cima e viu uma pintura mural feita com uma técnica e cores bizarras. Ela retratava a Mãe e seus filhos devorando o cadáver de um monstro marinho colossal e grotesco, de cor vermelha sangue.
As delicadas sobrancelhas de Lily se franziram ao parar bem na frente da sala. Por alguma razão, ela sentia que aquele castelo era perigoso.
No entanto, parecia que Lilith percebera a preocupação de Lily. Ela jogou uma ligação por fita, que parecia ser feita inteiramente de ouro, em direção à garota.
"O Governador da Ilha da Esperança está procurando por você," disse Lily.
Lily aceitou a ligação com um pouco de desconfiança. Contudo, o jeito de falar e a voz familiar do outro lado da linha disseram a ela que realmente estava falando com Bandagens. Mais especificamente, com o Bandagens deste mundo.
"Mmhm, eu parti. Sim, estou na Ilha Cristal Sombrio. Não estou fazendo nada. Só vim descansar, mas o dono da ilha insiste em me receber como hóspede.
"Mmhm... Se possível, talvez eu volte a morar lá. Certo, se eu decidir voltar, avisarei na Alfândega da Ilha da Esperança. Aliás, primeiro-oficial, você sabe onde foi parar o Sr. Charles? Ah, ok. Adeus."
Assim que a conversa acabou, Lilith pegou o telefone e o lançou ao ar. Alguns morcegos saíram das cortinas vermelhas e voaram embora levando o aparelho.
"Com certeza agora você pode ficar tranquilo, né? Não sou uma dessas criaturas que atacam sem discrição no mar. Ferir você também não nos seria útil," disse Lilith, puxando Lily para sentar à mesa.
"Quer um Bloody Mary?"
O líquido vermelho escuro, armazenado numa garrafa de cristal, foi derramado em uma taça.
Lily balançou a cabeça. "Obrigada, mas eu nem bebo."
"Na verdade, isso não é álcool, mas ok, pode experimentar de entrada," respondeu Lilith. Ela pegou a taça, deu um gole leve no líquido escarlate.
Uma travessa com uma linda variedade de alimentos em porções pequenas foi colocada diante de Lily. Um caviar dourado tentador rodeava o prato. Lily sentiu um pouco de fome ao ver algo tão apetitoso, mas sabia que era melhor não encher o estômago com comida suspeita.
Apesar de Lily não tocar na comida, Lilith não ficou brava. Ela gentilmente agitou a taça na mão e conversou com Lily sobre diversos assuntos, numa tentativa de deixá-la mais à vontade.
Elas conversaram sobre o enredo de uma peça famosa e alguns boatos sobre Charles. Depois do aperitivo veio a sopa, seguida do prato principal. Contudo, Lily não tocou em nenhuma das opções, deixando que a comida aromática e deliciosa escapasse de suas mãos.
Quando Lilith sentiu que era hora, disse: "Conte sua história, criança. Adoro ouvir as histórias dos outros, e tenho a impressão de que a sua deve ser fascinante."
Lilith parecia estar conversando e jantando com Lily de forma tranquila, mas a verdade é que cada ação dela até aqui foi apenas para obter mais informações da garota.