
Capítulo 831
Advento das Três Calamidades
"Hic... Hic..."
Pequenos soluços ecoaram ao redor.
Uma menina pequena sentava-se sozinha, os olhos inchados enquanto lágrimas corriam por seu rostinho.
"....."
Encarei-a em silêncio, sem saber como reagir.
'Isso está começando a fazer cada vez mais sentido. No fim das contas, toda aquela escuridão que encontrei dentro do corpo da Eugenia [...] vinha de Elvira. Tendo sido exposta desde muito pequena e com Noel se certificando de que tudo ficasse contida em seu corpo, era natural que ela tivesse se tornado assim.'.
Honestamente, eu não sabia o que sentir com essa revelação repentina.
Eu compreendi o motivo de ele ter feito aquilo, mas também comecei a sentir pena do que tinha acontecido.
'...Acho que é assim que eu costumava ser no passado.'
Olhei para Emmet.
Seu olhar era frio enquanto encarava Elvira. Não havia qualquer traço de emoção em seus olhos ou em seu corpo. Ele parecia quase... sem alma. Foi a visão dele que trouxe certas lembranças à minha mente, enquanto eu começava a compreender cada vez mais o estado de espírito em que costumava me encontrar antigamente.
'Naquela época, eu não sabia o que era real ou o que era falso.'.
Novas visões surgiam constantemente.
Nas visões, eu revivia certos eventos e situações.
Quanto mais eu as encontrava, mais começava a perder minha noção de realidade.
Comecei a questionar a mim mesmo e o mundo em que estava.
Qual era a minha realidade de verdade?
O que era real? O que era falso...?
Milhares, se não centenas de milhares de cenários e situações inundavam constantemente minha mente. O fato de eu ainda estar de pé, conseguindo até mesmo falar, era um milagre por si só.
'...Não admira que eu eventualmente tivesse morrido.'.
Simplesmente não era sustentável.
A limpeza de memória também era compreensível. Não, necessária.
Eu não teria conseguido continuar são de outra forma.
"Hic... Hic..."
Ouvindo os soluços de Elvira, voltei minha atenção para ela.
Mas, no momento em que o fiz, minha expressão congelou.
Finas linhas negras começaram a se espalhar por sua pele, se alastrando lentamente até cobrirem quase cada centímetro de seu corpo, pulsando em sincronia com seu batimento cardíaco. Uma energia sinistra irradiava dela, trazendo uma certa pesadez ao ar.
O suficiente para me fazer estremecer.
Tensão começou a subir no ar enquanto meu corpo se contraía.
E logo em seguida—
Zás!
Sua cabeça virou na nossa direção, e meu corpo inteiro travou no lugar enquanto sentia um arrepio percorrer meu inteiro corpo.
Não me atrei a fazer qualquer som naquele momento, sentindo seu olhar percorrer todo o meu corpo enquanto meu coração batia alto dentro do meu peito.
Encarando a pequena Elvira, vi que suas lágrimas haviam cessado. Sua expressão agora era fria, seus olhos escuros enquanto ela examinava lentamente a área ao meu redor. Ela não podia me ver, mas eu sabia que podia sentir que eu estava ali.
O pensamento me fez estremecer, mas, felizmente, Emmet estava preparado.
Com um único movimento de mão, a expressão de Elvira congelou.
Ela ficou imóvel por um momento antes de eventualmente fechar os olhos.
Tum!
Ela caiu de bruços no chão, as veias negras ao redor de seu corpo começando a desaparecer. Não demorou muito para que a energia sinistra ao redor de seu corpo se dissipasse e tudo voltasse ao normal.
"...".
Encarei a cena em silêncio, sem saber como reagir.
Mas, quando virei a cabeça para olhar para Emmet novamente, minha respiração cessou.
Ele...
Ou melhor, o "eu" anterior havia desaparecido.
'Ah, merda.'.
Foi o momento em que percebi que estava sozinho.
'...O que eu devo fazer agora?'.
Olhei ao redor em busca de quaisquer vestígios do meu eu anterior, mas, independentemente de onde procurava, ele tinha sumido. No fundo, eu também entendia que ele não voltaria. Ele tinha me mostrado tudo o que precisava ser mostrado e explicado tudo o que precisava ser explicado.
Tirando um momento para me acalmar, processei todas as informações que "ele" tinha compartilhado comigo.
'Há nove Seres Exteriores no total. Um foi destruído por Noel e Panthea, deixando oito remanescentes. As Três Calamidades servem como vasos... hospedeiros para três desses seres. Uma vez que se corrompem, podem abrir portais entre a Terra e os Seres Exteriores, permitindo-lhes reconstruir a Dimensão do Espelho novamente. Cada ciclo aprisiona mais almas, recriando uma nova Terra no processo, antes de se repetir.'.
Essa era a melhor forma que eu podia resumir a situação atual. Era um plano sinistro, e um que fazia meu coração ficar pesado.
Pelo que eu entendia, esse novo ciclo que os Seres Exteriores estavam prestes a iniciar seria também o mais aterrorizante.
Seria um onde as pessoas aprisionadas dentro dele nem sequer saberiam que estavam aprisionadas.
'...Não tenho certeza se isso é uma coisa boa ou má. No entanto, mesmo que eles consigam criar essa prisão perfeita, tenho certeza de que vão repetir o ciclo. Não há absolutamente nenhuma maneira de que nunca haverá uma pessoa que não perceba a verdade. Eles provavelmente sabem disso também e provavelmente reconstruirão uma nova Dimensão do Espelho a cada poucos milhares de anos.'.
O pensamento fez meu coração pesar ainda mais, enquanto eu fixava minha atenção em Elvira no chão. Seus olhos ainda estavam fechados, e as veias negras em seu rosto haviam quase completamente recuado.
Vendo-a franzir a testa durante o sono enquanto sua expressão se contorcia com dor, agachei-me para observá-la melhor.
Eu não sabia muito sobre Elvira.
Ela não era alguém com quem eu interagia muito.
Normalmente, ela conversava com Aoife e Kiera. Ela tinha um tipo de relacionamento com Eugenia e [...] também era próxima de Leão.
Em relação ao meu relacionamento com ela...?
Não tinha certeza.
Eu realmente não sabia, mas, ao olhar para ela, ou mais precisamente, para a membrana sutil e leitosa ao redor de seu corpo, finalmente encontrei a resposta que procurava.
'Fonte.'.
A única forma para mim de conter a escuridão que a estava dominando.
Voltando minha mente para o "presente" em que eu estava, meu coração afundou.
Eu sabia que não tinha muito tempo.
Mas como eu deveria acessar esse poder? Não só isso... Quanto tempo eu tinha à minha disposição? Quando a terceira folha seria concluída?
Esses pensamentos pesavam fortemente em minha mente enquanto eu lutava para encontrar uma resposta.
Mas logo—
"Mmh.".
Uma voz suave ecoou.
Os olhos de Elvira tremeram, e um momento depois ela abriu os olhos.
No momento em que o fez, olhou ao redor.
"Onde... eu estou?".
Sua pequena voz estava um pouco rouca.
Ela não parecia estar ciente do que tinha acontecido, tendo até mesmo esquecido do incidente com Eugenia por um breve momento.
Observando-a, cerrei os dentes.
Eventualmente...
"Ei.".
Chamei-a, alterando meu [Lamento de Mentiras] e transformando-me na versão menor de Eugenia.
"Eugenia...?".
Elvira piscou os olhos lentamente ao me enxergar.
No momento em que o fez, como se as lembranças do que tinha acontecido ressurgissem em sua mente, lágrimas começaram a transbordar.
Meu lábio tremeu.
"...Pare. Desculpe-me.".
Imediatamente pedi desculpas a ela, tirando um lenço e usando-o para limpar seus olhos.
"Eu estava com raiva.".
"Você foi mau!!" Elvira gritou comigo, sua pequena voz ecoando alto ao redor enquanto ela me encarava com fúria.
Só pude acalmá-la enxugando suas lágrimas, impotente.
"Sim, sim.".
"Mau!"
Ela continuou a gritar comigo, e eu só conseguia responder: "Sim, você tem razão. Desculpe. Muito desculpe. Eu estava cansado. Desculpe," e assim por diante.
Ao mesmo tempo em que tentava acalmar Elvira da melhor forma possível, observei a substância branca e turva ao redor do corpo dela. A cada segundo que passava, ela começava a desaparecer, e eu sabia que não demoraria até se dissipar completamente.
'Não, preciso de mais tempo.'.
Podia sentir algo se agitar dentro de meu corpo enquanto observava.
Por já ter acessado a Fonte antes, estava familiarizado com ela.
Sendo assim, só precisava de mais tempo para compreendê-la.
Mas...
"Diga de novo que sente muito!"
Elvira estava realmente dificultando isso, se debatendo para longe de mim.
"Você foi mau!"
".....".p>
'Será que eu poderia apenas nocauteá-la e estudar isso?'
O pensamento cruzou minha mente por um momento antes de eu o afastar.
Eu estava prestes a pensar em uma desculpa para acalmá-la quando ela de repente me propôs algo.
"Para compensar isso, coma comigo!"
"Hm?"
Olhei para Elvira estranhamente.
Ela me encarou de volta.
"O quê?"
No fim, pude apenas concordar.
Com [Sentido de Mana] ativo, eu mais ou menos sabia quem estava ao redor e o que estava acontecendo. Eu também já estava ciente do fato de que uma certa presença havia notado minha presença, e sem mais delongas, segui Elvira de volta à mansão enquanto ela me levava até uma sala particular onde doces e todo tipo de comida estavam prontos.
"Sente-se!"
Elvira estava no modo "jovem mestra," me mandando com uma expressão séria.
Fofo.
"...Tudo bem."
Sentei-me diante de uma grande mesa oval coberta por uma toalha branca. No centro, repousava uma bandeja reluzente de prata carregada com uma variedade de doces, seu doce aroma enchendo o ar. Elvira ficou olhando para ela por um bom minuto, com saliva escorrendo pelo canto da boca.
"....!".
Apressando-se por perceber como estava indecente, ela limpou a boca antes de me encarar novamente.
Olhando para o outro lado, fingi não ter visto.
Fofo...
A jovem Elvira era certamente fofa.
Mas, acima de tudo, estava ficando mais familiarizado com a substância turva ao redor do corpo dela.
'Isso não é um poder que pode ser compreendido. A única forma de acessá-lo é criando uma conexão direta com a Fonte. Eu já senti a Fonte, mas ainda não criei uma conexão com ela. A quantidade que alguém pode absorver e perceber da Fonte também depende de sua compreensão.'.
As coisas estavam ficando cada vez mais claras em minha mente.
O que Emmet tinha feito... Ou, para ser mais preciso, o que o eu anterior tinha feito era algo que o eu atual podia fazer. Talvez não tão bem, mas era certamente possível para mim fazê-lo.
Não só isso...
'Talvez no momento em que eu recuperar meu sangue de Sithrus, eu consiga recuperar a conexão que tinha anteriormente.'.
Minha mente ficou clara a partir daquele momento.
Eu sabia o que precisava fazer, e queria começar imediatamente.
Mas—
"Aqui.".
Um doce surgiu flutuando diante dos meus olhos.
Uma voz suave o seguiu.
"Coma."