Advento das Três Calamidades

Capítulo 828

Advento das Três Calamidades

"É, acho que tô realmente perdido."

Não fazia muito tempo que eu tinha voltado, e já estava perdido. As ruas eram as mesmas, mas, apesar disso, muitas outras coisas não eram exatamente como eu lembrava. Minhas memórias dessa época eram meio confusas, e quanto mais eu olhava ao redor, mais estranho tudo parecia.

"...Acho que me acostumei demais com o mundo em que tô vivendo agora."

Respirando fundo, caminhei pela calçada enquanto olhava para cima.

O sol estava mergulhando no horizonte, tingindo o céu de laranja. Encaixado entre dois arranha-céus, ao lado de uma rua que corria direto até ele, o cenário era de tirar o fôlego.

Ou pelo menos seria, se não fosse a rachadura gigante que aparecia suspensa no ar.

Minhas sobrancelhas tremeram.

Memórias vagas vieram à tona na minha mente.

"Isso deve ser os primeiros sinais do Espelho Dimensional."[1]

Tudo começou com uma rachadura.

Só disso eu me lembrava.

Ninguém sabia o que a rachadura significava, mas sua presença já era suficiente para deixar o mundo inteiro apreensivo.

"Me pergunto quanto tempo falta para o Espelho Dimensional tomar conta completa deste mu—Ukh!"

Uma dor aguda cortou minha mente de repente.

Nada grave, mas, enquanto acontecia, várias memórias vieram à tona mais uma vez, e eu parei no meio do caminho.

Sem nem pensar duas vezes, me virei e segui na direção oposta.

"Eu sei."

Acelerei o passo.

"...Eu sei pra onde preciso ir."

*

O mundo depois da rachadura era muito diferente do que tinha sido no passado.

Nações se uniram, e novas nações surgiram.

A cidade se chamava Nova Esperança. Era uma metrópole gigantesca que figurava entre as mais importantes e influentes do mundo. Era ali que a maioria dos Guildas e poderes se concentravam. Era também onde a maioria dos governos mundiais se estabeleceu para gerenciar a crise global que se instalara.

A sede dos Sete "Deuses" ficava no coração da cidade.

Era uma torre imponente, visível de todos os cantos da cidade. Sua estrutura massiva se erguia sobre o horizonte, a ponta afiada perfurando as nuvens alaranjadas que flutuavam preguiçosamente acima.

Qualquer um pensaria que eu iria até lá para me encontrar, mas, em vez disso, fui para um lugar completamente diferente.

Um lugar que eu conhecia muito bem.

[J.D Electronics]

"....."

Parei diante do prédio, erguendo a cabeça para encaráá-lo enquanto ele se erguia sobre mim.

Com mais de trinta andares, o prédio era colossal. Sua estrutura de metal escuro e as amplas janelas de vidro lhe davam um ar frio e corporativo, enquanto meus olhos se fixavam nas portas de correr à minha frente.

Sem pensar duas vezes, entrei no prédio, adentrando a recepção familiar.

Ocultando minha presença com [Lamento das Mentiras], passei despercebido pelo posto de segurança e segui para os elevadores. Entrando, apertei o botão [11] e vi as portas se fecharem com um leve sinal sonoro.

O elevador foi rápido, e não demorou nada para chegar ao andar designado.

Ding—

As portas se abriram um momento depois.

Foi também o momento em que o caos atrás das portas se revelou para mim.

"Posso garantir que ofereceremos os melhores serviços possíveis! Olha, me escuta quando eu digo isso... Você pode tentar qualquer outro concorrente no mercado, mas nenhum deles vai conseguir oferecer o mesmo que nós. Posso te garantir isso com a minha vida."

"Que tal isso? Se você comprar nosso modelo X7 mais recente, eu cubro o custo de entrega. Direto na sua porta."

"...Fique tranquilo, nossos produtos são os melhores do mercado. É verificado pelo SNNSL. Sim, temos o certificado."

"Garantia? Não se preocupe. Temos cobertura por 10 anos."

Era um caos.

Caos puro.

Papéis voavam por todo lado enquanto pessoas vestindo ternos amassados corriam de um lado para o outro, revirando os papéis nas mãos.

O cheiro forte de tinta e papel pairava no ar, e, ao olhar ao redor, um leve sorriso surgiu em meus lábios.

Esse cheiro...

Essa vibe...

Estava exatamente como eu lembrava, logo fixei meu olhar em uma certa figura. Ele estava sentado em sua própria baia, com o telefone ao lado do orelho, usando um par de óculos para esconder suas feições. Mas olhando para ele, eu sabia.

Sabia que era eu, e, como se sentisse minha presença, "ele" logo virou a cabeça e nossos olhares se cruzaram.

O mundo pareceu congelar por um momento.

Mas só por um momento, enquanto ele fechava os olhos e murmurava: "Peço desculpas pelo inconveniente, mas não poderei atendê-lo devido a uma situação repentina. Vou transferi-lo para um dos meus colegas. Como eu disse, peço desculpas."

Ele desligou um momento depois, levantando-se da cadeira e pegando seu casaco.

"Hã? Emmet...? Você tá saindo cedo?"

"Emmet? O que você tá fazendo?"

"O que foi com você?"

Todos o questionaram, mas ele apenas sorriu para eles, respondendo: "Nada demais. Só vou dar uma fumada", antes de passar por mim e seguir para os elevadores. Ele nem sequer reconheceu minha presença enquanto as portas do elevador se abriam e ele entrava.

Conhecendo a mim mesmo, não disse nada e o segui para dentro do elevador.

Exatamente quando as portas do elevador estavam prestes a se fechar, uma mão se estendeu, impedindo-as com um baque seco.

Um momento depois, uma mulher com cabelos loiros macios, sardas e feições não muito agradáveis entrou.

"Vai dar uma fumada?"

A mulher olhou para Emmet, mas ele não respondeu.

Como se estivesse acostumada com esse "ombro frio", ela apenas sorriu e se encostou no fundo do elevador.

Foi só quando as portas do elevador se fecharam que o sorriso lentamente desapareceu de seu rosto.

Ela ergueu a mão para afrouxar a gravata, depois tirou os óculos, revelando um rosto completamente diferente por baixo. Suas feições eram impecáveis, seus cabelos loiros macios caindo pelas costas enquanto ela exibia um par de olhos dourados. Uns olhos que pareciam assemelhar-se a um par de sóis.

No momento em que avistei tais olhos, meu coração quase saltou do peito.

"Porra!!"

Memórias inundaram minha mente de repente.

Eu me lembro!

Panthea...

Ela era minha colega de trabalho, porra!

"Sinceramente, não acredito que você ainda queira trabalhar apesar de termos responsabilidades mais pesadas. Você devia olhar pro Toren. Ele é mais novo que você, e mesmo assim já sabe o peso da situação. Ele tá praticamente assumindo a maioria das responsabilidades que deveriam ser suas."

"....."

Emmet permaneceu em silêncio, seu olhar fixo nos números digitais que marcavam os andares pelos quais o elevador passava.

"Você vai continuar me ignorando?"

Panthea parecia irritada.

"Você sabe que o Toren te admira muito, né? Não seria melhor se você o orientasse melhor? Ele ainda é bem novo. Mais novo até que o Noel. Ele é imaturo do seu jeito, e se você não o guiar direito, ele vai acabar viran—"

"Não importa."

Emmet murmurou, finalmente falando.

Mas suas palavras não eram as que Panthea desejava, e ela franziu o cenho.

"Como assim, não importa? Claro que importa! Você, mais do que ninguém, deveria entender o poder e o potencial que o Toren tem. Você e eu sabemos o quanto somos limitados em nossa força. Ele é nossa maior esperança de derrotar 'eles'!"

"...Você acha?"

Emmet olhou para ela e, então, por apenas um breve momento, virou o olhar na minha direção.

Foi só por um instante, e logo seu olhar se desviou.

Encostando-se no fundo do elevador, ele continuou a conversa: "Mesmo que eu orientasse o Toren, não mudaria nada."

"Por que você diz isso?"

"...Porque o poder vai corromper cada um de nós."

"Ha."

Panthea cobriu o rosto, murmurando coisas como: "A única razão pela qual eu não te espanco é porque eu te amo. Porra, por que eu fui gostar de um cara desse?"

Eventualmente, ela balançou a cabeça.

"Você sempre diz isso, mas ainda não aconteceu. Talvez seja verdade, mas isso é mais razão ainda para orientarmos ele. Ajudá-lo a manter a sanidade e impedir que o poder corrompa sua mente."

"...Talvez."

Foi tudo o que Emmet conseguiu responder após uma breve pausa.

Isso fez a expressão de Panthea se contorcer. Por um momento, quase pareceu que ela queria estrangulá-lo, mas, antes que pudesse fazê-lo, o elevador parou e as portas começaram a se abrir.

Sem um momento de hesitação, ela colocou os óculos de volta e ajeitou a gravata.

"Essa conversa não acabou."

As portas se fecharam um momento depois, seguindo viagem até pararem novamente.

Ding!

Uma escada nos recebeu assim que as portas se abriram, levando até uma porta de metal no topo. Subimos os degraus, e quando Emmet empurrou a porta, uma lufada de vento frio nos atingiu. Além dela, havia uma área grande e vazia.

Prédios se erguiam ao nosso redor enquanto Emmet fechava a porta atrás de si e caminhava até a borda, alcançando o parapeito de mármore e tirando uma caixa de cigarros enquanto olhava vagamente na direção dos carros lá embaixo.

Foi também nesse momento que cancelei [Lamento das Mentiras] e apareci diante dele.

Ele... Ou, para ser mais preciso, "eu", estendeu a mão para mostrar um maço de cigarros.

"Cigarro?"

Balancei a cabeça.

"Eu não fumo."

"Sério...?"p>

Pensei por um momento antes de balançar a cabeça: "Às vezes, mas prefiro não fumar."

"Tanto faz."

Acendendo o cigarro com um isqueiro comum, Emmet deu uma tragada, deixando a fumaça se espalhar pelo ar.

*Puff*

Ele ficou imóvel, saboreando o cigarro em silêncio antes de murmurar: "Você finalmente encontrou um deles?"

Minha expressão congelou por um segundo.

Por um momento, quase perguntei: "Como você soube?", mas logo me lembrei com quem estava falando e sorri amargamente.

"Sim."

"...Entendo."

*Puff*

Emmet deu outra tragada no cigarro, seus olhos ficando ainda mais vagos.

Eventualmente, ele murmurou uma única palavra ou nome.

"Akhyrn."

No momento em que o fez, o mundo pareceu desacelerar até parar; os carros lá embaixo e as nuvens no céu congelaram completamente.

Não demorou muito...

Cra Crack—!

A rachadura no céu se expandiu, e uma energia aterrorizante se espalhou pelo ambiente.

Uma que eu senti ser vagamente familiar.

*Puff*

Sem demonstrar qualquer preocupação, Emmet deu outra tragada no cigarro em sua mão antes de murmurar.

"...A Terceira Calamidade."

[1] - "Mirror Dimension" (Espelho Dimensional): Uma dimensão paralela ou reflexa que ameaça substituir o mundo real, um conceito comum em narrativas de fantasia e ficção científica.

Comentários