
Capítulo 820
Advento das Três Calamidades
No começo, não era óbvio.
"Acho que por hoje é suficiente. Você deve estar se sentindo melhor. Removi parte do gelo dentro do seu corpo. Se precisar de mais ajuda ou sentir qualquer desconforto, por favor, me avise. Eu vou verificar e ajudar."
"...Obrigada!"
Velho Sal acariciava a barba, sorrindo para Evelyn.
"Você foi de grande ajuda, jovem moça."
"Ela... ela."
Evelyn deu um sorriso desconfortável.
Jovem moça...
p era assim que o velho chamava Evelyn. Ela ainda parecia não estar acostumada, forçando uma risada pequena e constrangida em resposta.
"Haha, o que eu falei sobre chamá-la assim? Olha para ela? Ela está claramente desconfortável."
Chloe entrou no quarto, rindo baixinho enquanto colocava a mão sobre a cabeça de Evelyn e começava a esfregar.
"Ei—"
"O quê? O quê?"
Apesar dos protestos de Evelyn, Chloe continuou esfregando a cabeça dela.
As duas tinham se aproximado muito ultimamente.
"O que eu disse sobre o meu cabelo?"
"E daí...? Não é como se tivesse alguém por quem você quisesse mostrar seu cabelo."
"Isso não importa!"
"Não fale assim comigo."
"Hiaak—!"
A cena foi recebida com risadas e gargalhadas. O ambiente havia melhorado consideravelmente comparado ao estado anterior. A melancolia que antes tomava conta do quarto começava a desaparecer, e a esperança começava a surgir nos corações de todos os presentes.
Mas será que estava tudo realmente bem?
Estreitei os olhos observando Evelyn. Ela estava sorrindo e parecia estar bem, mas algo parecia errado. Quanto mais eu olhava para ela, mais parecia que suas reações eram forçadas, como se ela estivesse fingindo.
Mas será que era só eu...?
Não podia dizer que conhecia Evelyn como a palma da minha mão. Isso seria mentira.
Eu a conhecia, mas não profundamente.
No entanto, também não era como se eu não a conhecesse de forma alguma.
p tenho percebido, mas além das vezes em que está com as meninas, Evelyn nunca realmente mostra seu verdadeiro eu. A forma como ela está agindo agora, e a forma como ela normalmente age, são bem diferentes. Será que estou pensando demais...?
"Mhm."
Saindo dos meus pensamentos, uma voz arrastada me alcançou.
Quando virei a cabeça, Penelope estava apertando os olhos, esfregando os olhinhos com suas mãozinhas antes de puxar suavemente minha roupa.
"...Você pode me contar uma história?"
Ela então se esticou para a esquerda, sacudindo o menino ao lado dela.
Eventualmente, Ilyen acordou, piscando algumas vezes antes que a menina pegasse sua mão e traçasse algo na palma de sua mão.
Os olhos dele se iluminaram.
'Eu também!'
A voz dele ecoou dentro da minha mente.
Olhando para as duas crianças, só consegui suspirar.
"Bem, tudo bem."
Isso era o que eu me tornado ultimamente.
Uma babá.
'Não é como se eu tivesse muito mais o que fazer."
p era isso ou treinar.
De tempos em tempos, eu saía para verificar Leon e os outros, mas não podia ir muito longe sem sentir que não conseguiria voltar. No fim, a única coisa que podia fazer era ficar aqui enquanto esperava que Evelyn descobrisse uma forma de curar as pessoas da maldição dela.
Em essência...
Ela era a única esperança desta cidade.
p ...Espero que ela se apresse. Já desperdiçamos tempo demais aqui. Também não sei por quanto tempo Leon e os outros conseguem aguentar. O máximo que posso fazer é injetar minha mana nos corpres deles para preservá-los, mas isso não é suficiente.
"Rápido."
"Hm, não me apresse."
Esfurei a testa.
Isso...
"Rápido!"
"Tudo bem! Tudo bem!"
Eu estava prestes a começar quando uma voz repentina atraiu minha atenção.
"Vou ir ao banheiro. Voltarei para verificar os outros em breve. Por favor, esperem um pouco."
Voltando minha atenção para Evelyn, observei enquanto ela se sacudia e se levantava. Limando o suor do rosto, ela seguiu em direção à porta. Enquanto a observava ir, um pensamento cruzou minha mente.
'Vale a pena verificar."
Orbs de todas as cores diferentes apareceram na minha visão.
Mas uma em particular me chamou a atenção.
Aquele dentro do corpo de Evelyn.
'...Ah."
Não era apenas pequeno. Cobria quase todo o corpo dela.
Orb roxo.
Medo.
'Então eu não estava errado, estava?'
Tique—!
A porta se fechou logo depois.
Passo, Passo—!
O eco silencioso dos passos reverberava pelo corredor escuro.
Mechas de cabelo roxo balançavam a cada passo enquanto Evelyn se aproximava da porta principal. Ela a empurrou, e o mundo congelado além dela se derramou em vista. Seu corpo estremeceu com o frio repentino, uma pequena película de mana se espalhando por todo o seu corpo para bloquear parte do frio.
Mas como isso poderia ser suficiente?
Evelyn começou a tremer assim que saiu, sua mana se esgotando, mas apesar disso, ela permaneceu calma.
Crunch! Crunch!
A neve estalava a cada passo.
Abrindo os braços ao redor de si mesma, ela se aprofundou na neve.
Por razões óbvias, os banheiros do local não funcionavam. Naturalmente, alguém teria que cuidar de suas necessidades do lado de fora. Mas será que esse era realmente o caso de Evelyn?
Crunch—
Ela caminhava bem rápido.
O lugar não era longe, e não demorou muito até que ela parasse.
Cinco estátuas apareceram diante dela.
"....."
Evelyn ficou em silêncio, encarando as figuras congeladas que representavam as estátuas.
O silêncio se estendeu pelos próximos minutos. O corpo de Evelyn começou a tremer não muito depois, mas não por causa do frio, e sim pelas emoções avassaladoras que de repente começou a temer.
E mais importante—
Swooosh!
Evelyn puxou a manga, revelando seu braço.
Ou, mais precisamente, o que parecia ter sido seu braço agora havia se transformado em gelo.
"H-haaa."
O peito de Evelyn tremeu.
"D-droga."
Apertando os dentes, ela amaldiçoou.
"...Por que está assim?"
Se alguém estivesse perto, seria capaz de ouvir a total frustração e desamparo no tom de Evelyn.
De fato, ela estava desamparada.
Apesar de treinar incansavelmente todos os dias, nunca permitindo um momento de descanso, ela levava seu controle ao limite. O progresso era claro, mas ainda estava longe de ser suficiente.
"D-droga."
Evelyn amaldiçoou novamente, seus dentes mordendo o lábio inferior.
Olhando para Kiera e Aoife, Evelyn sentiu algo queimar dentro de seu peito.
Era...
Ciúme.
Sim, ela estava com ciúme.
Sempre foi assim.
Ambas, Kiera e Aoife, fizeram seus nomes ao longo dos últimos anos. Aoife em particular. O nome dela era algo que todos conheciam. Ela era destemida e liderava exércitos para combater o exército de seu irmão.
Kiera não era muito diferente.
Na verdade, podia-se dizer que ela era a mais forte das três.
Mas e ela?
É verdade que havia progredido muito ao longo dos últimos anos, mas o progresso era mais lento que o das outras duas. Sua fama também não era nem de longe comparável à das duas.
Havia também o fato de que as duas geralmente lidavam com as coisas muito melhor do que ela.
E ainda assim—
"....."
Evelyn mordeu os lábios, tentando empurrar todos esses sentimentos horríveis para longe.
Ela sempre foi assim.
Um monte de emoções diferentes que ela constantemente tentava reprimir para se encaixar.
Dependendo do dia, ela usava uma máscara diferente.
Uma feliz. Uma séria. Uma triste.
Mas o mais importante sobre sua máscara era que ela precisava combinar com a situação. Ela não podia deixá-la escorregar. Não queria que as pessoas vissem seus verdadeiros pensamentos e emoções.
Mas neste exato momento...
Agora que estava sozinha.
Ela deixou a máscara escorregar.
"-I... eu... fui útil."
Sua voz tremeu enquanto ecoava no ar.
p>Olhando para as estátuas diante dela, ela lambeu os lábios.
"...Eu acho que sou a única capaz de resolver toda esta situação. Esta... é a primeira vez para mim."
O coração de Evelyn apertou fortemente enquanto ela se sentava na neve, suas mãos repousando sobre seus joelhos enquanto a brisa soprava seu cabelo roxo diante de seu rosto.
Evelyn empurrou o cabelo para trás.
"Eu estou sempre metendo em sempre... eu tentei acompanhar o ritmo... de vocês duas, mas até isso é difícil. Sinto como se... vocês duas estivessem ficando cada vez mais distantes de mim. Eu vejo vocês duas resolvendo situações por conta própria enquanto eu... apenas assisto."
Evelyn riu fracamente.
"É por isso que foi estranho ver as pessoas me agradecendo por... algo. Esta é a primeira vez que... isso acontece comigo, e eu... não posso decepcioná-las."
Pausando, Evelyn olhou para seu braço.
"Mesmo se... isso me machuque."
Evelyn desabafou todos os seus sentimentos verdadeiros.
Ninguém estava ouvindo, mas parecia libertador para ela.
Como se um peso enorme tivesse sido tirado de seus ombros, mas ao mesmo tempo, seu sorriso desapareceu.
Olhando para seu braço mais uma vez, ela cerrou os dentes.
'Eu não posso falhar."
Esta era a primeira vez que Evelyn sentiu o peso de tal responsabilidade.
Ela era a única capaz de curar todos, e não queria decepcionar.
Não, ela não podia decepcionar.
Evelyn pensou no Velho. Apesar de sua personalidade excêntrica, ele era bem engraçado. Sempre fazia piadas com ela.
Ela pensou nas duas crianças. Apesar de mudo, o menino era sempre curioso.
Apesar de cega e apesar do frio, a garotinha estava sempre alegre.
Apesar de tão grande, Reginald era bobo.
Apesar de tão irritante, Chloe era... como uma irmã mais velha.
Pensando em todas as pessoas que dependiam dela, Evelyn sabia que precisava continuar nesse caminho. Mesmo que, em contrapartida, isso a transformasse em uma estátua.
'Sim, quem se importa comigo? Pela primeira vez, eu estou realmente fazendo algo. Eu estou—'
Crunch!
Assustada pelo estalo repentino, Evelyn virou a cabeça e se levantou.
"Quem!?"
Não demorou muito até que uma figura emergisse, o vento soprando através de seu cabelo e envoltendo soltos fios pelo rosto. Parando a algumas passos de Evelyn, Julien parou.
"Ah, é você."
Vendo que era Julien, Evelyn relaxou.
"Você quase me deu um infarte."
Ela bateu no peito.
Mas logo em seguida—
"Você precisa parar."
A voz dele ecoou silenciosamente pela vizinhança.
"...Se você continuar curando eles, não demorará muito até se transformar em uma estátua."