Advento das Três Calamidades

Capítulo 810

Advento das Três Calamidades

BANG—!

Uma explosão assustadora ressoou, destruindo tudo ao redor.

O que veio depois foi uma pressão aterradora que varreu os arredores, seguida de uma luz intensa que cegou tudo.

SWOOOOOOOSH!

A luz diminuiu nos momentos seguintes, revelando uma antiga igreja que permanecia de pé no topo de uma colina.

Corpos espalhados por todo lado, uma figura desalinhada de pé do lado de fora, sua mão segurando a cabeça de outro, sua respiração cada vez mais difícil.

"Você..."

Panthea não muito longe dele, com uma expressão serena.

"O que foi?"

Sua voz sussurrou calmamente pelos arredores, seu olhar fixo no Santo Vivo, cujo corpo inteiro estava encharcado com o sangue das pessoas que ele achava estar do seu lado.

"Está tudo bem? Pensei que você fosse assumir minha posição e se tornar o novo Deus. Mas olha só..."

O olhar dela percorreu os inúmeros corpos e membros espalhados pelo chão, sangue acumulando-se pelas rachaduras do piso da igreja enquanto ela lentamente balançava a cabeça.

"...Eles se foram."

O corpo do Santo Vivo tremeu, sua expressão se contorcendo ao ver a Deusa à sua frente.

No fim, quando parecia que ele ia explodir, ele se acalmou, seus olhos se estreitaram.

"Cometi um erro ao pensar que isso era suficiente. Também errei ao achar que você não recorreceria a uma armadilha dessas. A culpa por tudo estar assim é minha, por não ter percebido quem você realmente é."

"Hã?"

Panthea ergueu uma sobrancelha.

"O que você achava de mim antes? Fico realmente curioso agora."

"...Eu costumava pensar que você era uma Deusa ingênua e gentil. Alguém que se escondia, tentando se recuperar de suas feridas o tempo todo. Eu... nunca imaginei que você fosse o oposto do que pensava. Por tanto tempo achei isso, e ainda assim..."

O corpo do Santo Vivo tremeu, sua expressão se contorcendo mais uma vez.

"Nunca pensei que você fosse uma vadia louca como realmente é!"

"..."

Os lábios de Panthea se curvaram num sorriso largo, seus olhos brilhando de alegria enquanto olhava para o Santo Vivo.

"Hehehe."

Ela até começou a rir baixinho.

"Você tinha essa imagem de mim? Hehehe."

Seu riso ecoou por toda aquela condição decadente.

Com a mão na boca, ela se deteve por um momento, respirando fundo antes de abrir a boca novamente.

"...Fico feliz em saber que você, e todos os outros, tinham uma imagem tão positiva de mim. Eu me esforço bastante, mas... hehehe."

A Deusa riu de novo, seu sorriso ficando mais largo.

"Seria ingênuo achar que eu seria uma pessoa normal. Nenhum de nós, os sete, é normal."

Ela apontou para sua têmpora, seus olhos arregalados por uma insanidade visível.

"Todos nós temos problemas na cabeça. Os anos passaram e cobraram um preço na nossa sanidade, e o que sobrou de nós não passa de loucura. Se pudéssemos, queimaríamos o mundo inteiro com nossas próprias mãos... hehehehehehe!"

Um leve brilho emanava do corpo da Deusa, as chamas em seus olhos tremulando descontroladamente enquanto ela olhava para o Santo Vivo, seu rosto se distorcendo ainda mais ao ouvir seus pensamentos.

E logo, seu sorriso desapareceu.

Um frio intenso tomou conta de seu corpo um instante depois.

"Mate-se."

BANG!

O Santo Vivo não hesitou nem um segundo.

Sua mão se moveu sozinha, indo para a têmpora, formando um círculo mágico e espalhando sangue por toda parte.

O que restou de seu corpo caiu frouxamente no chão um momento depois.

Thump!

Por alguns minutos, o ambiente ficou em silêncio absoluto.

Panthea permaneceu calmamente na quietude, observando o corpo morto à sua frente antes de de repente ficar pálida. O sorriso que antes tinha se apagou enquanto ela apressadamente levava a mão à boca.

"..."

As chamas em seus olhos diminíram, seu rosto ficando cada vez mais tenso. Por fim, incapaz de segurar, sangue começou a escorrer de um dos cantos da boca dela enquanto a cor ao redor de seu corpo desaparecia completamente.

"Droga..."

Uma maldição escapou de seus lábios enquanto suas sobrancelhas se franziram.

Mas justo quando tentava estabilizar sua condição, uma voz sussurrou no ar.

"Nossa, parece que você não mudou nada nesses anos. Você é tão louca quanto era no passado. Quem diria que colocaria tais selos dentro dos corpos dos seus seguidores?"

A expressão de Panthea congelou, ela levantou lentamente a cabeça, os olhos fixos no espaço à sua frente, que se distorcia e torcia até que, enfim, uma figura emergiu do próprio ar.

Os olhos de Panthea se estreitaram.

"...Sandra."

Mas logo um sorriso apareceu em seus lábios.

"Justo quando eu estava torcendo para que você estivesse morta. Que pena."

***

"…Estamos chegando à terra! Todos se preparem!!"

A voz de Anne chegou a todos presentes enquanto sua tripulação começava a içar a âncora, pronta para atracar a qualquer momento.

Olhei para fora do navio e observei inúmeros fragmentos de gelo flutuando no mar carmesim, suas arestas pontiagudas captando a luz fraca. Mais longe, massas maiores flutuavam como ilhas congeladas, mas até elas desmoronavam ao menor contato com o casco do navio.

Se um iceberg fosse muito espesso, um membro da tripulação avançava para quebrá-lo, às vezes com um pouco de magia rápida, outras com um golpe de arma.

Isso atrasava um pouco a jornada, mas não o suficiente para fazer uma diferença real.

"Está realmente ficando cada vez mais frio, né?"

Leon apareceu ao meu lado, segurando o corrimão com uma mão enquanto olhava para o mar escuro e agitado abaixo.

Ele ficou quieto por um momento, o som das ondas preenchendo o silêncio, antes de virar o olhar para mim.

"Qual é o plano a partir de agora? Você veio aqui sem uma estratégia, né?"

"….."

Desviei o olhar.

Na real, não tinha muita ideia. A ideia era simplesmente seguir para o território de Veltrus e, pelo caminho, tentar encontrar Delilah.

Pelando pelas palavras de Panthea, ela poderia estar em perigo.

Mesmo sem saber exatamente como poderia ajudar, e ciente de que não estava preparado para enfrentar um Deus, ainda assim queria vê-la.

Não fazia muito tempo desde a última vez que a vira, mas o mesmo não podia ser dito por ela.

Passaram-se três anos.

Coisas podem mudar muito em três anos.

Porém, será que tudo seria tão simples assim?

Quão difícil seria encontrar a Delilah?

Eu realmente achava que não seria fácil. Na verdade, talvez fosse impossível.

Se fosse assim…

"Vamos avançar mais para dentro do território e ver no que dá. Meu principal objetivo é chegar ao território de Veltrus. Preciso salvar meu irmão."

"Hã? Linus...? Por que você precisa salvar o Linus?"

"….."

Olhei para Leon sem palavras.

Que Linus!?

Obviamente, eu só—

"Tô brincando. Sei que você tá pensando no Mortum."

Leon me deu um sorriso fraco, meio sem jeito, antes de virar o olhar de volta para o mar. Ficou ali em silêncio por um tempo, o vento carregando sua voz baixa quando finalmente falou novamente.

"Como… ele está?"

"Meu irmão?"

"Sim. Que tipo de pessoa ele é?"

"….."

Novamente fiquei sem palavras. Era evidente que a pergunta era sincera, que ele realmente tinha curiosidade, mas…

'Como dizer a ele que conhece meu irmão muito bem? Aquele é o chefe da família de que ambos víamos com medo. E também é quem te sequestrou quando você era criança.'

Queria muito me jogar no mar, mas consegui manter a compostura.

"Pensei que você já tinha conhecido ele e aprendido com ele. Deveria saber mais ou menos como ele é."

"Mas isso é diferente."

Leon respondeu, recostando-se um pouco.

"Não interagi muito com ele, e tudo que sei foi mais por causa do Cálice. Meu interesse é saber qual ele é na vida real. O lado diferente que nunca tive chance de ver."

"Entendi."

Segurei o corrimão, voltando minha atenção para o mar também.

Observei os blocos de gelo passando enquanto coçava a cabeça. Como descrever Noel? Tinha várias palavras na minha cabeça, mas se tivesse que escolher umas, diria: “Burrinho ingênuo”.

Ele era um burro ingênuo.

Apesar de estar diferente do passado, sempre foi meio inseguro demais.

Talvez o motivo de ter se metido na confusão toda fosse confiar demais nas pessoas perigosas muitas vezes.

'Acho que também tenho culpa nisso.'

Na época, não consegui ensinar Noel direito.

Estava ocupado demais cuidando de outros assuntos.

Mas, acima de tudo—

"Ele tem um bom coração."

De todos os 'deuses', Noel provavelmente era o mais gentil e dócil. Mudou bastante do que era antes, mas ainda era uma boa pessoa por dentro.

…Ou pelo menos, eu queria acreditar nisso.

'Talvez sequestrar uma criança, torturar um menino e tentar incutir ideias nele não sejam as coisas mais gentis, mas provavelmente ele fez tudo sob minhas ordens. Isso dá pra perdoar.'

Eu não era como Noel.

Não era gentil.

Era egoísta e só me importava com o que me interessava.

Isso sempre soube e nunca neguei. Não era um cara bom, e nunca fingi ser.

'...Sim, acho que as coisas não vão mudar no futuro.'

O objetivo de Toren era 'nobre', mas eu não me importava com isso.

Meu objetivo era diferente, e eu realmente não me importava com a humanidade. Só me importava comigo e com as pessoas ao meu redor.

Claro que, como a humanidade está intimamente ligada ao bem-estar, sabia que, eventualmente, teria que encarar os Seres Externos pessoalmente, e, por isso, precisava estar preparado.

Preciso me tornar ainda mais forte.

"Chegamos!"

Uma voz de repente quebrou meus pensamentos.

Virando a cabeça, observei o contorno tênue de uma cidade vasta tomando forma diante de meus olhos. A névoa cobrindo o horizonte obscurecia seus detalhes mais finos, mas, mesmo assim, sua imensidão era inegável. Retirei as mãos do corrimão e me aproximei da proa do navio, atraído pela visão.

O ar parecia ficar mais frio, e vários outros chegavam à proa, todos olhando para a cidade distante.

"Sejam bem-vindos a Eisylra."

Anne murmurou, a voz baixa enquanto o contorno da cidade ficava mais nítido, revelando altos prédios inteiramente feitos de gelo.

"...A cidade de gelo."

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