Advento das Três Calamidades

Capítulo 794

Advento das Três Calamidades

Pitter. Pitter.

A chuva continuava a cair.

Duas figuras estavam de lados opostos.

Uma parecia se fundir perfeitamente com a escuridão em si, enquanto a outra parecia encarnar a luz, com toda a sua figura envolta em tons mutantes que reluziam suavemente. Mas, se alguém olhasse de perto, perceberia como essas cores começavam a desaparecer aos poucos, como se estivessem sendo drenadas lentamente.

Ela claramente estava machucada.

"Deusa! Por favor, nos permita lutar!"

"Deusa!"

A ferida dela era óbvia para qualquer um que assistisse.

Assim, aqueles que a seguiam rapidamente se ofereceram para distraí-la, dando-lhe um tempo para se recuperar ou fugir.

"Permitam que nos sacrifiquemos por você!"

"Por favor, nos conceda a habilidade de ajudá-la! Minha vida pertence a você. Seria uma honra maior do que qualquer outra sacrificar-se se isso puder servir à sua vontade."

"P-por favor, façam isso."

A Deusa não hesitou em utilizá-los.

Ela precisava de o máximo de tempo possível para se curar. Em sua mente, seus seguidores estavam lá para protegê-la.

Sua vida era muito mais importante do que a deles. Ela lutava pela causa maior da humanidade, enquanto eles eram apenas peões no grande tabuleiro. Podiam ser descartados; ela não.

Mas, acima de tudo...

Olhando para a figura que estava diante dela, Clora rangeu os dentes.

"C-covarde."

O ataque veio sem aviso, pegando-a de surpresa e deixando-a ferida, mas o que mais a perturbava não era a ferida em si...

O que mais a incomodava era a natureza da ferida.

Não era algo que medicina comum ou luz pudesse consertar. A marca pulsava de leve sob sua pele, irradiando uma energia estranha e estranha que parecia devorar sua essência a cada segundo que passava.

Era uma energia com a qual ela tinha conhecimento demais.

'Aquela força...'

Aquela força repulsiva consumia sua própria alma.

Clora rangeu os dentes, o rosto se contorcendo ao ver a figura diante dela.

'Asquerosa! Asquerosa! Asquerosa! Asquerosa! Asquerosa!'

Swooosh! Swooosh!

Seus seguidores agiram rapidamente, todos correndo em direção à figura solitária. Apesar da presença deles, ela permaneceu imóvel, banhada pela chuva que caía do céu, as gotas vermelhas se misturando ao sangue dos seguidores caídos.

Ela não precisava dizer nada.

"Argghh!"

"Uekh——!"

"Aaaah!"

Um após o outro, figuras começaram a cair.

O processo foi extremamente rápido, com a figura simplesmente matando-os com um olhar. Quanto mais ela matava, mais forte era a pressão que emanava do seu corpo.

E logo—

Clique!

Ela começou a se mover em direção a Clora, cada passo marcado pelo clique constante do salto nos pisos molhados. A chuva escorria por sua figura em fileiras finas e reluzentes, misturando-se com o leve brilho que ainda persistia ao seu redor.

Cada movimento tinha uma certa graça, enquanto seus olhos escuros brilhavam ao ver a Deusa.

Quanto mais ela fixava o olhar em Clora, mais as memórias dormentes enterradas fundo na sua mente começavam a despertar.

'...Ah? Ela é algum tipo de experimento?'

'O que você vai fazer com ela? Vai fundir o sangue no corpo dela? Parece interessante.'

'Acredito que você não colocou o suficiente. E se ela morrer? Podemos apenas extrair o sangue e usar em outra criança.'

'Não me culpe tanto. Estou fazendo isso pelo bem da humanidade.'

'Olhe para isso. Não parece mais humano. Devemos simplesmente matá-la?'

'Que coisa repulsiva. Você cuida dela de agora em diante.'

Delilah ainda se lembrava das palavras que ouviu daquela mulher no passado. Elas ainda estavam vívidas em sua mente, replayando repetidas vezes.

Ela nunca mostrou isso ao mundo.

Nunca mostrou às pessoas mais próximas dela.

Ela... nunca revelou seus pensamentos.

Não porque não pudesse, mas porque tinha medo do que poderia se tornar se deixasse tudo escapar, e neste momento, ao olhar para uma das figuras que a atormentaram, algo dentro dela quebrou.

'Vou te matar...'

Swooosh!

O mundo ao seu redor escureceu.

Mãos começaram a surgir do chão, estendendo-se em direção à Deusa.

".....!?"

Depois de atingir o Zênith, Delilah já não era mais a mesma de antes. Parecia que o mundo estava ao seu alcance. Cada movimento seu era fluido, e ela não precisava pensar antes de agir.

O mundo simplesmente reagia a ela.

"...Que coisa repulsiva."

Apesar da ferida, a Deusa não era de graça uma Deusa.

No momento em que ela percebeu que Delilah não ia parar, as tonalidades ao redor de seu corpo se intensificaram.

As mãos negras, tentando alcançá-la, se despedaçaram instantaneamente.

Uma tensão ardente seguiu, envolvendo tudo ao redor e Delilah.

Suor escorria pelo rosto da Deusa enquanto ela agia.

'Q-que? O que está acontecendo?'

Sentindo uma fraqueza repentina, a Deusa quase cambaleou para trás.

"O que está acontecendo? Por que meus poderes..."

"Não adianta."

A voz fria de Delilah sussurrou no ar.

"Você já foi marcada por mim. Não pode escapar."

Clique!

O som do salto voltou a ecoar, fazendo Clora recuar, sua expressão se contorcendo enquanto a ferida no ombro latejava ainda mais forte.

'A ferida!'

Foi nesse momento que uma certa constatação a atingiu. Quanto mais ela usava seus poderes, mais a ferida tentava consumi-la.

'Repulsiva. Repulsiva. Repulsiva.'

A Deusa não deixou que isso a afetasse.

Combinar com o fogo criava uma certa sensação de frio. O chão tremeu, e o espaço sob Delilah se dobrou enquanto as rochas despencavam por toda parte, tentando aprisioná-la.

As sobrancelhas de Delilah franziram levemente, mas ela ignorou o ataque.

Clora não era conhecida por sua força de combate. Entre os deuses, ela era uma das mais fracas. Essa também foi a razão pela qual Delilah escolheu enfrentá-la primeiro, e agora, ferida, ela simplesmente não tinha chance contra Delilah.

Com um passo adiante, Delilah evitou o ataque com facilidade.

A face de Clora se contorceu, mas ela não desistiu. O ar se agitou. O chão tremeu. A temperatura subiu.

Parecia que o mundo inteiro estava sob seu comando.

Com um movimento de mão, o ar ao redor de Delilah desapareceu.

Por um breve momento, ela parou. E... o ar simplesmente sumiu. Ela não conseguiu respirar.

Mas...

Clique.

Ela ainda se Moveu, seu olhar fixo na Deusa.

Vozes sussurraram em sua mente.

'...Olhe para os olhos dela. Que coisa repulsiva. Ela é como uma boneca sem vida. Jogue fora.'

'Estou começando a reconsiderar. Vamos eliminá-la agora.'

'Por que você quer mantê-la? Ela é perigosa. Deixe-me matá-la. Faço isso por você se você não quiser.'

Quanto mais ela lembrava, mais seu coração se congelava.

Os olhos de Delilah ficaram um pouco mais vazios, enquanto a escuridão que a envolvia se intensificava ainda mais.

A expressão de Clara mudou.

Ela pôde sentir a mudança no corpo de Delilah. A força repulsiva que a envolvia crescia, e foi nesse momento que Clora teve uma certa percepção ao segurar o ombro, sentindo a pulsação fraca da ferida.

A maneira como ela olhava para Delilah mudou.

"Meus... meus poderes. Você é..."

Clique!

O som do salto ecoou novamente.

Antes que alguém percebesse, Delilah estava diante de Clora.

"....."

Delilah não disse nada.

Ela apenas olhou para Clora, com as imagens do passado surgindo em sua mente.

Quanto mais as memórias vinham à tona, mais seu coração se entristecia.

"Eu..."

Os lábios de Clara se abriram mais uma vez, sua face ficando bastante pálida.

Finalmente tudo começou a fazer sentido para ela.

A razão de ela se sentir tão desamparada era aquela figura diante dela. Não que ela fosse mais forte, mas porque ela estava absorvendo os seus poderes diretamente!

"V-você—"

Suas palavras foram abruptamente interrompidas quando Delilah levou as mãos à cabeça. Seus olhos nebulosos tremularam por um breve instante enquanto ela observava a Deusa.

Ela não disse nada, mas não precisava.

Uma simples olhada já era suficiente para fazer a Deusa recordar.

Era suficiente para lembrá-la da garotinha que ela tinha conhecido no passado.

A experimento fracassado.

Aquela que ela quis matar por causa do perigo que percebia.

Aquela que Toren permitiu que vivesse por um capricho dele.

"A-ah."

Finalmente, tudo começou a fazer sentido.

"Eu... eu tinha razão."

Aquela criança virou exatamente como ela esperava.

Ela virou o próprio perigo que queria evitar.

"Eu... eu deveria ter te matado!"

Os olhos de Clora brilhavam perigosamente, as últimas energias em seu corpo subindo enquanto sua mente fervia e ela começava a usar o poder que reservava há muito tempo.

Estrondo! Estrondo!

O ambiente tremer ao redor. O solo rachou, e os elementos do mundo começaram a se descontrolar.

Um poder capaz de fazer qualquer um estremecer emergiu pelo mundo.

Ela não tinha terminado, no entanto.

Fechando os olhos, tentou se conectar à fonte. Essa era a última carta que tinha, e quase a mais poderosa.

'Eu queria reservar isso para mais tarde, mas não tenho escolha. Preciso eliminá-la antes que seja tarde demais!'

Mas—

"Huh?"

Vazio.

A conexão com a Fonte...

Sumiu.

Estava completamente desaparecida.

Seus olhos se arregalaram, e sua expressão finalmente mudou.

Olhando para Delilah, seus lábios tremeram, sua boca se abrindo enquanto tentava dizer mais algumas palavras, mas Delilah nunca deu a ela essa chance.

Estalou!

Com um simples movimento das mãos, um som de rachadura ecoou.

Um corpo desabou logo depois.

Thump!

"..."

Além do som suave da chuva, o mundo ficou em silêncio. Sozinha sob a chuva forte, Delilah deixou as gotas frias atravessarem sua pele enquanto observava a figura desmaiada diante dela.

Ela não sentia nenhuma emoção.

Na verdade, as pequenas emoções que ainda permaneciam dentro dela começavam a desaparecer lentamente, enquanto seu olhar se mantinha fixo na figura à sua frente.

A aura colorida que envolvia a Deusa começou a se desfazer, flutuando para cima em finos filamentos que balançavam pelo ar, lentamente estendendo-se em direção a ela.

As pálpebras de Delilah se fecharam suavemente enquanto uma calorosa sensação de aconchego se espalhava por seu corpo, fluindo por cada canto como uma corrente tranquila.

Sentindo a energia entrar no seu corpo, algo dentro dela se agitou.

Era silencioso, mas ela podia sentir.

Seus poderes começaram a intensificar-se, e quando abriu os olhos mais uma vez, nada restava da mulher que um dia foi conhecida como Deusa Clora.

Apenas as marcas do que fora um campo de batalha.

Naquele dia, a Caçadora de Deuses matou um deus.

Naquele dia...

Ela se tornou a Matadora de Deuses.

"Um."

Era tudo que ela murmurou antes de desaparecer completamente.

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