
Capítulo 799
Advento das Três Calamidades
'Ah, dane-se. Já estou começando a me arrepender dessa decisão.'
Tive feito várias escolhas ruins no passado. Sabia que não era um gênio, e às vezes me empolguei demais. Era algo que tinha bem consciente, e neste momento, sentia isso mais do que nunca.
"...Sua Deusa. Eu estou a raptando."
Olhando para as figuras à minha frente, cada uma irradiando mais poder que a anterior, meu estômago se contorcia de desconforto.
'Sim, essa é uma decisão bem burra.'
Por outro lado, era também a única decisão que eu podia tomar.
Panthea era completamente louca, e se as coisas continuarem como eu prevejo, não demorará para que me encontrem trancado em alguma prisão, sem braços ou pernas.
'Porra...'
Eu afrouxei a pressão na ferida da Deusa, mas assim que vi alguém se aproximar de forma um pouco demais, decidi aumentar a força do aperto.
"...!"
Talvez por ela estar na frente de seus seguidores, ou por ela estar entregue, no momento em que pressionei mais a ferida, ela não fez um som. O rosto dela apenas denunciou a dor que sentia.
Ao ver isso, franzi a testa, mas ao notar que os Seats e a Santa Viva ainda não tinham se movido de seus lugares, parecia que aquilo era suficiente.
'É, não preciso exagerar.'
"Por que você está fazendo isso...?"
Uma voz fria ecoou do outro lado da sala.
Vinha da Santa Viva, cuja expressão já não era mais amigável como antes.
Só pude dar um sorriso torto.
"Você não acreditaria em mim mesmo se eu dissesse. Digamos que a Deusa e eu nos conhecemos e estamos tendo uma espécie de desentendido."
"Desentendido?"
A Santa Viva virou seu olhar rumo à Panthea, tentando entender sua expressão, mas ao fazer isso, pressionei ainda mais a ferida dela, fazendo que seu rosto se contorcesse.
"Solte ela agora!"
Uma voz retumbou logo depois, uma pressão tremenda invadindo a sala.
Virando minha cabeça, avistei o mesmo homem forte de antes, com o olhar afiado como uma lâmina. A hood havia caído, revelando uma cabeça calva com cabelo só nas laterais, e um rosto musculoso e grosso, coberto por pelos curtíssimos que sombreavam sua mandíbula.
"Eu... deveria ter te matado quando tive a chance. Soube desde o começo que você não era uma boa notícia. E eu estava certo!!"
Quase rolei os olhos.
Ele não entendia porra nenhuma.
'Sim, entrei de surpresa e até consegui uma audiência com a Deusa, mas de jeito nenhum pareço um vilão. Absolutamente não...'
"Hik!"
Ok, talvez eu tenha sido.
De qualquer forma, ela era a verdadeira vilã da história.
"Você deveria soltá-la antes que nosso relacionamento fique irreparável. Posso garantir que, se soltar a Deusa, vamos deixar você seguir seu caminho."
Apesar das palavras do fortão, a Santa Viva ainda tentava manter a postura civilizada.
"Posso te garantir que não vou te machucar. O mesmo vale pelas pessoas ao redor. Se não acreditar, podemos assinar algum tipo de contrato. O que acha?"
"Desculpe."
Balancei a cabeça.
Como se um contrato tão bom pudesse existir...
Embora a Santa Viva parecesse gentil por fora, eu sabia que aquilo era só fachada. A orb vermelha girando ao redor de seu corpo deixava claro. Por trás daquela expressão calma, havia um desejo ardente de me despedaçar pedaço por pedaço.
"...Embora agradeça sua oferta, não é isso que estou procurando. A Deusa tem o que eu quero."
Virei-me para Panthea.
"Não é isso mesmo?"
Eu apertei seu ombro com mais força, fazendo-a estremecer.
"Você—!!"
"Que audácia!"
A pressão vinda dos seguidores dela na minha direção aumentou ainda mais, suficiente para me sufocar. Ainda assim, considerando a pressão que senti de Delilah no passado, ou de Xa'hurl, aquilo ainda parecia fraco.
Já sobrevivi a coisas piores, e por isso, não tinha medo.
Voltei minha atenção para os seguidores e abaixei minha voz.
"Vou dizer isso uma única vez. Se quiserem que nada aconteça com ela, perguntem pra eu passar. Se fizerem qualquer coisa com as pessoas que vieram comigo, podem começar a adorar outro Deus ou Deusa, porque este vai deixar de existir a partir de agora."
Sabia que era hora de levar as coisas a sério de uma vez, e considerando que eu tinha a maior vantagem, planejei usá-la ao máximo, puxando o corpo da Deusa comigo.
"O que você está fazendo...?"
A face do Santa Viva contorceu-se, ele deu um passo mais perto de mim.
"Você entende o que está fazendo? Aqui é o lugar onde a Deusa está mais segura e pode curar suas feridas. Se tirá-la daqui agora, vai colocar a saúde dela em risco!"
"É mesmo?"
Dei uma segunda olhada para o Santa Viva antes de olhar ao redor.
'Então, esse lugar realmente ajuda ela a se recuperar?'
"Este lugar fica bem acima do Farol. A ideia é usar as orações dos seguidores para curar ela diretamente com as runas que estão no chão. Se ela sair daqui, há grande chance de as feridas piorarem. Por favor, não tirem a Deusa deste lugar."
Por um momento, quase acreditei em suas palavras.
Porém, ao ver o vermelho ainda fervendo dentro dele, crescendo cada vez mais, soube que havia algo mais por trás do que dizia.
Hmm.
Meus olhos começaram a estreitar.
Quanto mais olhava para o Santa Viva, mais ele me parecia estranho. Não conseguia explicar exatamente o que era, mas a sensação era suficiente para eu não querer estar perto dele.
"...Vou lembrar disso."
A única coisa que puderam fazer foi recuar, enquanto eu arrastava a Deusa em direção à porta.
Parando bem na frente dela, a voz do Santa Viva soou mais uma vez.
"Tem certeza que quer fazer isso?"
Não olhei para trás, sorrindo para mim mesmo e ativando [Lament of Lies].
"Fiquem tranquilos, vou criar uma ilusão sobre o corpo dela para que ninguém perceba que ela desapareceu."
Estendi a mão em direção à porta e a puxei para abrir.
Clique!
***
Fora da Catedral.
"Quanto tempo acha que ele vai ficar lá dentro?"
"Não deve demorar muito."
An'as respondeu a Aoife, tirando alguns Solas de uma bancada e jogando-os para o lado do balcão, enquanto recebia várias bebidas em troca. Entregou para os outros, que agradeceram brevemente antes de voltar à conversa.
"Na última vez, acho que não levou mais de uma hora. Talvez até menos."
"Será que ele vai ficar bem?"
Evelyn perguntou, dando um gole na sua bebida enquanto estreitava um pouco os olhos. Depois completou: "Não sei por quê, mas estou com uma sensação ruim. Acho que algo vai dar errado, por algum motivo."
"Essa aí—Por que você está entrando na sorte de dar azar?"
Por um instante, parecia que Kiera ia bater na Evelyn, mas ela se segurou na última hora, respirando fundo e passando uma mão pelo rosto.
"Certo... Vou me controlar. Nada está acontecendo. Estou só ficando paranoica."
Ao mesmo tempo, ela sorriu de lado enquanto olhava para as outras.
"Imagina só, ele volta com a Deusa dizendo algo do tipo, 'Raptaram ela'. Kek."
Ela começou a rir, arrancando alguns sorrisos dos outros.
Evelyn foi a única que não conseguiu sorrir, estreitando os olhos em Kiera.
"Você não estava reclamando de dar azar e tudo mais?"
"Viu eu te bater?"
"Isso é outro assunto."
"Não é."
"É sim."
"Mas não é. Além do mais, vamos ser realistas... Julien não tem nem força para raptar uma Deusa. Seja mais prático."
"Você nunca sabe..."
A voz de Evelyn ficou um pouco mais alta. Mesmo assim, naquele momento, ela só tava discutindo por discutir, como se Julien fosse realmente raptar uma Deusa. Ele não era tão lunático assim.
"Enfim, deixando isso de lado, vocês não estão conseguindo nem um osso? Comprei um de nível Terror. Queria achar um de nível Desastre, mas esses são bem raros. Disseram que vai ter leilão em breve, mas não sei se quero ir."
"Hmm. Ouvi falar do leilão também. Talvez devêssemos ir."
Evelyn concordou. Ainda faltava ela preencher todas as suas vagas de ossos. Com os preços aqui tão baixos, achou que seria ótimo comprar um osso de nível Desastre.
As duas conversaram assim, com An'as e Anne participando de vez em quando.
Os únicos que ficaram relativamente quietos foram Aoife e Leon, os dois imersos em seus próprios pensamentos.
E, por fim—
"Finalmente achei vocês."
Um homem caminhou até eles, com a mão no ombro de uma mulher, enquanto todos pararam, tentando entender o que estavam vendo sem saber o que dizer.
Sabiam que era Julien só pelo sotaque.
Mas aquela mulher...
"Quem é essa?"
A primeira a perguntar foi Aoife, com os olhos fixos na figura ao lado de Julien, sentindo uma sensação ruim no estômago.
'Por favor, espero estar enganada. Não sei por que ele tem uma mulher nas mãos dele, mas espero que não seja nada sério. Meu Deus, se você existir, por favor, ouça minha oração.'
Ela não foi a única a sentir isso.
Leon, Kiera e Evelyn também tiveram a mesma sensação ruim.
Mesmo assim, queriam acreditar em Julien.
Com certeza...
"Ah, isso aqui?"
Julien olhou para a mulher ao seu lado e acenou com a mão para eles.
"Não precisa se preocupar. Estamos seguros."
Um momento depois, ele desativou [Lament of Lies], revelando a figura que tinha na mão. Sua pele era pálida como o sol fraco no céu, e o tênue brilho das chamas nos olhos dela tremia débilmente, à beira de desaparecer.
Com um simples sorriso, apresentou-a a todos.
"Conheçam Panthea. A Deusa da Luz. Pode dizer que ela é uma conhecida antiga minha."
"....."
"....."
"....."
"Então, eu... hum, a rapei no caminho? Precisamos também preparar um navio e partir? Não há tanta pressa, para ser honesto, mas seria melhor se fizéssemos isso?"