
Capítulo 792
Advento das Três Calamidades
"...Você não vai falar nada?"
Uma voz ecoou por toda a Catedral. Parecia pertencer a um dos Assentos de Solas, pois a pressão que emitia era muito mais intensa do que a do Santo Vivente. Contudo, a presença do Santo Vivente era bem mais calma e contida.
Com toda atenção voltada para mim, sabia que não poderia mais fingir ser um membro qualquer da igreja.
'Surpreende-me como me encontraram tão rápido, mas não que não esperasse por isso.'
Levantei ambas as mãos ao ar.
"Tudo bem. Vamos todos nos acalmar por um segundo."
Minha voz se espalhou suavemente por todo o lugar. Sentia pequenas mudanças vindo de Leon, Aoife e os outros atrás de mim, mas os paralisei antes que pudessem fazer algo extremo.
'Deixe comigo.'
Sussurrei num tom que apenas eles puderam ouvir.
Claro, se o Santo Vivente e os Assentos tinham ouvido, não tinha tanta certeza.
Não importava.
"Quem é você?"
A voz do anterior voltou a reverberar, fazendo as janelas no topo tremerem ao som da sua voz.
Virei minha atenção para a figura.
Ele vestia igual aos outros, mas consegui perceber pelo contorno de sua silhueta sob o capuz que ele era bastante corpulento. Sua máscara dourada brilhava sob o intenso brilho do farol, e ao fixar meu olhar nele, senti uma pesada sensação de repressão.
'Hoo. Vamos nos acalmar.'
Preciso tomar cuidado com minhas palavras.
Lentamente, desviei minha atenção dele e foquei no Santo Vivente.
Esse leve desdém não agradou ao Assento, mas falei antes que a situação escalasse.
"Nos encontramos novamente."
Tudo congelou no instante em que minhas palavras saíram, os olhares de muitos mudaram. O Assento também aparentou surpresa, seus movimentos pararam por apenas um breve momento.
Encara me lado, o rosto do Santo Vivente não mudou.
O sorriso persistia, e seus olhos permaneciam calmos.
Finalmente, seus lábios se abriram.
"Já nos encontramos antes? Acho que lembraria de alguém de sua força se você fosse meu contato."
Suas palavras causaram uma mudança na atmosfera, e meus lábios torceram-se discretamente.
"Está tentando perder tempo?"
A voz do Assento ecoou novamente. Desta vez, mais alto do que antes, juntamente com uma pressão maior emanando de seu corpo.
sons sutis de rachaduras ecoaram de seu corpo enquanto ele começava a se expandir.
'Caramba.'
Percebi que ele prestes a atacar, e sem perder tempo, puxei a máscara do meu rosto e a removi.
"...Nós estamos."
Ativei [Lament of Lies] ao mesmo tempo em que tirava a máscara.
"Chega de besteiras. Quero te pegar de surpresa primeiro e extrair algumas informações—"
"PARE."
O sorriso no rosto do Santo Vivente desapareceu completamente enquanto sua mão se estendia ao lado, impedindo o Assento de atacar na hora.
"Santo Vivente?"
Ações dele causaram confusão no local, inclusive nos Assentos, que voltaram sua atenção para ele.
Ele não disse nada, apenas continuou olhando para mim.
Por fim, seus lábios se abriram novamente.
"Reconheço o rosto, mas, diferente da última vez, consigo perceber que isso é uma ilusão. Você está tentando imitá-los?"
"Não."
Balancei a cabeça.
"...Na época, usei uma habilidade diferente para alterar minha fisionomia. Agora, estou usando meu rosto verdadeiro, coberto por uma técnica de ilusão."
O local ficou silencioso.
Com o olhar fixo em mim, o Santo Vivente não disse mais nada.
Cada segundo parecia uma eternidade, meu coração apertando forte contra o peito enquanto tentava manter a calma ao máximo.
Porém, era difícil.
Com tantos olhares em mim, sentia que lutava para não perder o controle.
Mas então—
"Ele não está mentindo."
An'as saiu ao meu lado, com a mão sobre a máscara, puxando-a para revelar seu rosto.
"Tenho certeza de que você consegue me reconhecer."
No instante que tirou a máscara, a multidão se agitou. O mesmo ocorreu com os Assentos.
Retirar a máscara e mostrar o rosto é uma espécie de tabu, pelo menos, para alguém na posição de An'as.
Mesmo assim, parecia que ele não se importava, mantendo o olhar fixo no Santo Vivente.
"Posso confirmar que é o mesmo Lázaro que vocês conhecem. Este é apenas seu rosto verdadeiro."
"Eu também posso confirmar."
Outra pessoa avançou, puxando a máscara e expondo seu rosto.
"....."
"....."
Novamente, o silêncio tomou conta do local, ainda mais agitado, com sussurros espalhados por toda parte. Os Assentos também demonstraram sinais de inquietação, suas expressões focadas no Santo Vivente que permaneceu em silêncio.
O olhar dele alternava entre mim e Anne, até finalmente se voltar para os que estavam atrás de mim.
Sorri de forma amarga ao ver isso.
'Parece que nada escapa ao seu radar.'
Abri a boca.
"Eles estão comigo."
Ele assentiu de leve, direcionando seu olhar para uma área diferente.
No exato momento, apontou a mão naquela direção específica.
WHOOM!
Um raio de luz forte desceu do céu.
A velocidade com que se moveu era quase surreal. Tão rápida que mal deu tempo de alguém reagir. E, quando terminou, o local onde tinha sido apontado estava vazio, apenas uma mancha escura de queimadura no chão.
Uma pesada sensação de opressão recaiu sobre toda a área, fazendo a multidão se mexer ainda mais.
Porém, como se não tivesse terminado, o Santo Vivente apontou seu dedo para diferentes áreas da Catedral, cada vez trazendo uma luz branca ao fazer isso.
Cada tentativa resultava no mesmo: uma marca negra de queimada no chão.
Ninguém teve tempo de gritar. Em poucos segundos, várias dezenas de pessoas tinham sido eliminadas de uma só vez.
Senti um suor frio escorrendo pelas costas ao ver suas ações.
Eu... tinha a sensação de que meu destino também teria sido selado, caso minha força presente não fosse suficiente.
De qualquer forma, pelo que estava vendo, era claro para mim que ainda não era forte o bastante para enfrentá-lo.
'Talvez eu consiga fugir, mas vencer? Não, acho que não.'
"Tudo bem."
A voz do Santo Vivente cortou o ambiente novamente, o sorriso retornando ao rosto dele enquanto se voltava para mim.
"Já eliminei todos os intrusos na sala. Espero que nenhum deles estivesse contigo. Caso contrário..."
"...Você não precisa se preocupar com isso."
Respondi, esforçando-me para manter a expressão firme.
"Fico feliz em saber."
O olhar do Santo Vivente permaneceu fixo em mim.
"Nesse caso, posso saber por que você veio aqui? Tenho certeza de que não é apenas para assistir ao que está acontecendo. Embora eu ficaria honrado em te receber para ouvir nossas palavras, esta é uma discussão privada, só permitida a membros da igreja. A menos que você esteja pensando em se juntar a nós, então, receio que não posso deixar você escutar."
"Tudo bem."
Na verdade, eu não queria participar mesmo.
Meu objetivo era outro.
"Gostaria de uma reunião com a Deusa."
".....!"
".....!?"
".....!"
Já esperava uma reação assim quando coloquei meu pedido, mas não imaginava que fosse receber esse tipo de resposta.
"O que você acabou de dizer?!"
"Como ousa um forasteiro...!"
"Isto é blasfêmia!"
"Inacreditável!!"
A raiva era palpável. Era como se tivesse cuspido na própria família deles com meu pedido. Por um momento, fiquei parado, surpreso.
'Que raio de gente é essa?'
Felizmente, o Santo Vivente estava presente. Com um rápido gesto de mão, ele fez todos pararem de atacar na hora.
"Acalmem-se."
Assim que falou, todo o barulho cessou.
Podia respirar novamente.
Ele voltou seu olhar para mim. Sentindo seu olhar, engoli em seco.
"Você quer se encontrar com a Deusa...?"
Assenti.
"Sim."
"....."
Seguiu-se um silêncio tenso.
Ele continuou fixando seu olhar em mim, tentando talvez interpretar meus pensamentos. Eu não desviei o olhar, mantendo a firmeza.
Até que, por fim, ele afastou o olhar e perguntou: "Por que motivo deseja encontrar a Deusa?"
"Isso..."
Franzi a testa.
Era algo que não podia compartilhar. Não podia dizer que queria perguntar sobre o paradeiro do meu irmão.
"...Procuro alguém. Ela é a única pessoa que pode me ajudar a encontrá-lo."
Achava que tinha respondido de maneira adequada, mas parecia um mal-entendido, pois o Santo Vivente fez outra pergunta.
"Quem?"
"Ehm."
Fiz uma careta, sem saber como responder.
No final, apertei os dentes.
"Peço desculpas, mas não posso compartilhar essa informação com você. Se puder transmitir a mensagem à Deusa, tenho certeza de que ela entenderá. Você já deve saber que a encontrei no passado. É uma questão extremely importante e urgente—"
"Insensato!!"
De repente, uma voz rugiu, interrompendo minhas palavras.
De imediato, desviei meu olhar do Santo Vivente para a voz.
'É ele...'
Reconheci a figura imediatamente. Era o mesmo homem forte de antes. Desta vez, no entanto, parecia completamente dominado pela raiva, e a pressão que exalava dele era ainda mais sufocante.
Olhando para mim e depois voltando a atenção ao Santo Vivente, falou:
"Por que ainda estamos ouvindo esse cara? Não acha estranho ele ter vindo justo na hora em que..."
O homem corpulento fez uma pausa, o que fez eu levantar uma sobrancelha. Consegui captar algo na sua voz. Algo aconteceu com a Deusa?
"Sua presença é perturbadora, e vir aqui perguntar pela Deusa durante a reunião é uma afronta. Me dá permissão para eliminá-lo agora. Não precisa sujar suas mãos. Eu farei isso com prazer, em nome da Deusa."
Ouvindo suas palavras, franzi a testa.
Que diabo de figura era essa?
Não buscava uma luta, especialmente naquele ambiente. Contudo, se ele realmente tentasse me desafiar, não pretendia me segurar.
Mais ou menos, conseguia avaliar sua força.
Estava por volta do Tier 8.
Isso era suficiente para mim.
Se ele realmente quisesse morrer, então...
"Deixe para lá por enquanto."
Romper a tensão foi o próprio Santo Vivente, que juntou as mãos em um movimento de aplauso e olhou para o farol, afastando seu olhar de mim.
"Transmitirei a mensagem à Deusa. Por ora, você pode deixar este lugar. Vamos ter uma discussão importante que não podemos compartilhar com vocês—Hmm."
De repente, o Santo Vivente parou, causando confusão no local.
Então...
Com todas as expressões de surpresa e dúvida, ele voltou sua atenção novamente para mim.
"Parece que você teve sorte. Pode ficar para a reunião."