Advento das Três Calamidades

Capítulo 783

Advento das Três Calamidades

Nota do autor: Neste capítulo, sempre que mencionar Julien, refere-se ao Julien original (OG Julien).

***

Escuridão pura.

Uma escuridão tão pura que quase dava frio na espinha.

Era assim a existência de Julien.

Desde o momento em que nasceu até seus últimos instantes de vida. Ele nada mais era do que uma bola de trevas e ressentimentos. Por mais que tentasse conter essa escuridão, era impossível. Ela simplesmente era avassaladora.

— Hueeek—!

Um grito rasgou o ambiente ao redor. Alto e angustiante.

Os olhos de Julien se abriram de repente, vermelhos e ardendo, enquanto travavam contato comigo, enquanto eu tentava absorver a escuridão que se contorcia dentro do corpo dele.

‘Droga…’

Percebi rapidamente que aquilo não era uma escuridão comum.

No instante em que tentei absorvê-la, senti uma sensação intensa e avassaladora.

Minha mente ficou turva, e uma quentura pesada se espalhou no meu peito à medida que vozes tênues e indistintas começavam a sussurrar na periferia da minha mente.

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

As vozes eram esmagadoras, e por um momento, comecei a ver tudo vermelho.

Eu… comecei a enxergar o mundo e a visão de Julien.

— Me solta…! Seu pedaço de merda!

Seus gritos ecoaram enquanto eu continuava a absorver a escuridão. Mas, a cada segundo que passava, o peso no meu corpo ficava mais pesado, pressionando-me de todos os lados. As vozes rasgavam a borda da minha mente, mais altas e insistentes, até se tornarem tudo o que eu podia ouvir.

'Mate. Mate. Mate.'

O peito apertou, meus pensamentos começaram a se desintegrar, e por um breve momento, senti que ia escorregar, lutando para segurar-me enquanto tentava extrair cada gota de ressentimento dele.

— Como?!

Como alguém… alguém poderia…!?

— Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato! Eu te mato!

Com os dentes cerrados, comecei a receber notificações uma após a outra. Vi minha magia emocional começar a melhorar, enquanto meu peito se movia ritmicamente para cima e para baixo, uma sensação de queimar minha mente ao respirar fundo e com calma.

Mas—

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

As vozes continuaram a sussurrar na minha cabeça. Tornaram-se cada vez mais implacáveis ao longo do tempo, e logo percebi que começava a ficar sobrecarregado por elas, enquanto minha visão começava a ficar vermelha.

Dois olhos vermelhos e vítreos preencheram minha visão, surgindo de todos os lados, enquanto o ressentimento que entrava na minha cabeça começava a dominar minha mente completamente. Comecei a lutar, tentando ao máximo manter o ressentimento sob controle. Não podia deixar que ele me controlasse, mas isso não era fácil.

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

O ressentimento estava na sua forma mais pura, e as vozes que sussurravam na minha cabeça ficaram ainda mais pronunciadas, dominando meus pensamentos.

— Kh…!

Eu também comecei a lutar, minha mente inchando por causa das vozes.

E exatamente quando achei que tudo ia piorar—

'Pai… Cadê a mãe? Já não a vejo mais.'

'Ela se foi.'

'Por quê…?'

'…..'

Uma conversa em minha mente começou a surgir. Uma que se apagava ao fundo das outras vozes que cochichavam na minha cabeça, mas quanto mais eu prestava atenção, mais percebia o que era ao olhar para Julien. Seus olhos ainda vermelhos, o olhar distorcido, mas dentro da escuridão contida no corpo dele, senti algo.

Por menor que fosse….

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

'Por que você não me diz?'

'… É por minha causa, não é?'

'Eu sou o motivo.'

'Eu… sou o motivo de a mãe ter ido embora.'

'Sou estranho, não sou? Por que sou estranho?'

Quanto mais focava na voz que sussurrava ao fundo do ressentimento, mais começava a sentir outra emoção. Esforcei-me para prestar atenção nela, e, ao fazer isso, meu peito começou a tremer.

Era doloroso, mas a dor era diferente das outras que senti antes.

Essa dor…

Era muito mais crua do que qualquer outra que já experienciei.

Era…

'Tristeza.'

Percebi rapidamente que tipo de dor era essa. Era tristeza. Uma que me fez pausar por um momento.

Mas isso acabou sendo um erro, pois o ressentimento tomou conta da minha mente logo depois.

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

Começou a sobrecarregar meus pensamentos, e por um breve momento, senti uma vontade de agir diante de Julien, como se fosse esmagar a cabeça dele até virar uma polpa.

— A-Ah.

Fechei a mão ao redor da cabeça dele, apertando com força.

'Mate… Eu deveria matá-lo.'

Pensei em tudo que ele tinha feito comigo, e a raiva e o ressentimento que tinham começado a ferver na minha mente ficaram ainda mais nítidos.

'Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate. Mate.'

Ah, eu realmente queria matar esse desgraçado.

Pela tudo que ele fez por mim. Por… todos os mal-entendidos que provavelmente causou com suas ações.

— Porra!

Meus dentes cerraram forte, e meus dedos afundaram ainda mais ao ouvir o estalo de seu crânio. Minha força continuava a aumentar, e sob a pressão, o rosto dele começou a se contorcer, seus traços se deformando de dor.

— Hah! Ha! Haa!

Sua respiração pesada ecoava nos meus ouvidos enquanto ele me encarava de frente, com os olhos vermelhos fixos nos meus. Foi então que percebi. Gotas sutis, mas inconfundíveis, escorriam pelas bochechas dele, pegando a luz fraca enquanto caíam.

Era uma visão que me fez pausar por um momento.

Espere... O quê?

Chorando?

Por que ele—

Uma estranha clareza começou a invadir minha mente logo após, cortando a névoa mesmo enquanto as vozes continuavam a sussurrar e girar dentro da minha cabeça.

'Será… que a mãe foi embora porque eu sou estranho?'

'Ouço vozes na minha cabeça.'

'Elas me dizem… para fazer coisas.'

'Não quero fazer, mas elas continuam mandando.'

'Eu…'

"Haaa…! Haa! Haaa!"

Minha mão tremia enquanto o som da minha própria respiração rugia dentro da minha cabeça, cada inspiração e expiração mais altas do que as anteriores. Olhando para Julien, para as lágrimas escorrendo pelo rosto dele, por um momento breve, consegui apagar toda a raiva acumulada dentro de mim.

Deixei tudo de lado e simplesmente o observei.

Eu… realmente comecei a olhar para ele.

— Ukh... hur…

Ele estava um desastre. Seus olhos vermelhos, saliva escorrendo de um lado da boca, expressão carregada de raiva, saindo sons estranhos da boca. Mas, ao olhar bem para ele, percebi.

A desesperança nos olhos dele, enquanto me encarava.

— Deixe-me… ir.

Ele falou em tom rouco, o rosto tremendo.

— Me deixe… ir… por favor…

A desespero agora estava claramente estampado. A raiva e o ressentimento que queimavam dentro dele permaneciam tão intensos quanto antes, mas algo mais começava a emergir. Um leve brilho azulado escorria pelas fissuras da escuridão que eu vinha absorvendo lentamente, infiltrando-se, espalhando-se como tinta na água até dominar as sombras dentro dele.

— Eu… quero…

Quanto mais eu absorvia a escuridão, mais intenso se tornava o azul. A… tristeza. O olhar vítreo começou a se modificar, e as lágrimas escorriam mais e mais.

Gotejando! Gotejando…!

— H-ic! hurkh…!

Ele começou a chorar.

Parecia patético.

Por um instante, comecei a vacilar.

Ao ver a tristeza escondida por trás toda aquela raiva, quase me senti compelido a parar. Mas, apertando os dentes, permaneci firme.

— A-ah… Haaa…!

As lágrimas escorreram pelo rosto de Julien enquanto eu absorvia silenciosamente o restante do ressentimento, as vozes ainda sussurrando na minha mente como antes.

'Mate! Mate! Mate! Mate!'

'Patético! Patético! Patético! Patético! Patético! Patético! Patético! Patético!'

Na verdade, elas começaram a ficar ainda mais intensas, e quanto mais as ouvia, mais alegria sentia ao ver ele em desespero bem diante dos meus olhos.

'Sim, sim. É assim que deve ser. Chore mais, seu filho da puta. Chore por tudo que causou. Você merece nada além de dor!'

Comecei a ficar assustado com meus próprios pensamentos, mas eles não eram algo que pudesse parar. Tornaram-se mais evidentes e incontroláveis, alimentados pelo ressentimento que invadia minha mente. Eu sabia que isso era perigoso e que deveria parar, mas, ao ver as inúmeras notificações que surgiam diante de mim, não queria desistir.

Sim, sim… Continue assim.

— Po-por favor…! Pare…

Os gritos de Julien ecoaram ao fundo enquanto um sorriso doentio surgia nos meus lábios. Ver ele sofrer me dava tanta alegria que comecei a perder o sentido de mim mesmo nas emoções.

'Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim. Sim.'

Senti-me nojento.

Asqueante.

E, ainda assim—

'Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais. Mais.'

Não conseguia parar. Perdi-me completamente nas emoções, absorvendo tudo o que havia a oferecer. Sentindo a magia emotiva, que estava estagnada há algum tempo, crescer e atingir um novo nível que nunca imaginei ser possível, solucei de prazer.

'Sim, mais!'

Comecei a rir, completamente entregue às emoções.

Olhar para a figura tremendo diante de mim, gritei bem alto:

— Grite mais. Suplica mais!

— N-Não…!

— Haha, sim! Quero ouvir mais. Quero—

— N-Não seja como eu.

— Huh…?

O que ele acabou de—

— Y-você está ficando como eu.

O sorriso congelou por um instante, meu olhar voltou-se para Julien enquanto ele tremia sob minha pressão. Enquanto as vozes continuavam a sussurrar na minha cabeça, o olhar de Julien permanecia fixo em mim.

— N…não fique como eu.

Ele repetiu, a voz trêmula e vacilante.

— Não ficar como você? O quê—

— Claro.

Julien me interrompeu, a voz soando melhor agora.

— Minha mente está clara. Pela primeira vez…

Julien ergueu a cabeça para me encarar. Seus olhos, antes vermelhos, agora estavam limpos, fixos em mim. E naquele instante, eu percebi. Clareza. Uma nitidez afiada e firme.

Seus olhos…

Estavam tão claros, tão dolorosamente brilhantes, que por um momento pareceram cegantes. Minhas mãos vacilaram, e interrompi o que estava fazendo.

Aquele foi o instante em que tudo ao meu redor pareceu parar.

Julien me olhou enquanto sua esperança tremia.

— Você… precisa parar.

Ele falou, a voz rachando através das vozes que cochichavam no ar. Isso turvou minha mente. — Você está se tornando a minha cópia.

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