
Capítulo 780
Advento das Três Calamidades
Lembrei dessa cena. Na verdade, quase a tinha decorado na minha cabeça. Como pude esquecer dessa cena?
Essa cena...
Foi uma que vi durante a Cúpula.
Na época, eu estava extremamente confuso, surpreso e até meio perdido. Não entendia nada, e só sentia uma sensação de impotência.
Mas agora...?
'Entendo. Faz sentido.'
Fiquei olhando para a garotinha, ou melhor, Sithrus, e para minha versão mais jovem que estava ao seu lado. Ele me olhava assustado, com a boca aberta de surpresa.
Será que era assim que eu me via naquela época?
Eu parecia idiota.
A ideia quase me fez rir.
Mas isso não importava, pois voltei minha atenção para Sithrus, que me encarava divertido.
Ele sorriu, alternando o olhar entre nós dois.
"Hehehe."
Seus olhos pareciam cheios de alegria.
"....Você realmente tem uma mão em tudo, Oraculus."
Foquei meu olhar totalmente nele, cujo formato se assemelhava ao da Theresa. Era estranho vê-lo assim, mas uma coisa eu conseguia perceber: aquele Sithrus na minha frente não representava uma ameaça.
'Parece que ele não consegue usar seus poderes na visão.'
Faz sentido, pois meus lábios se abriram e eu disse:
"Você passou do ponto. É hora de ir embora."
"Você acha...?"
"Sim."
Não podia permitir que ele continuasse assistindo essa cena. Não era algo que ele deveria ver.
"Que droga, mas acho que tudo bem. Já vi e aprendi o suficiente. O que quer que esteja tentando mexer, não vai conseguir me parar. Você ficou mais fraco, e eu—"
Com um movimento da minha mão, a pequena garota congelou.
Fechei meu punho, e sua forma se dissolveu no ar, desaparecendo sem deixar vestígios. Ela nem teve chance de reagir. Não deixei essa opção.
O ambiente ficou em silêncio por um momento.
Mas logo, voltei minha atenção para meu eu do passado.
"....."
Meus olhos se estreitaram ao ver aquela versão minha.
'Ele é fraco.'
Era por volta da época da Cúpula. Eu conseguia mais ou menos recordar minha força geral naquela época.
'...Acho que ele está na quarta fase, tentando chegar à quinta.'
Eu ainda não era forte.
Porém, a diferença entre o eu daquela época e o eu atual era enorme.
Isso me fez perceber o quanto eu tinha evoluído.
"Eu..."
Uma voz me interrompeu, fazendo eu olhar para minha versão mais jovem. Vi a confusão no olhar dele ao me encarar, e, ao recordar as memórias daquele tempo, abri a boca.
"De fato, sou você."
Isso era o que eu podia dizer.
"Este é realmente o futuro."
Um que eu acabara de conquistar.
"...E o que você está sentindo é real."
Fechei lentamente meus olhos, concentrando meu olhar total na minha versão mais jovem. Era importante que ele notasse tudo.
"Não desgrude de mim. Em breve será sua vez."
"Uh?"
O choque dele só aumentava, mas deixei assim mesmo. Era tudo o que eu me lembrava de dizer, e também sabia que não tinha mais tempo para falar. Havia coisas que eu precisava fazer.
"Espera...!"
Uma voz chamou, mas não respondi.
Em vez disso, voltei minha atenção para outra figura, uma mais frágil, enquanto aparecia diante dela.
"Não consigo... fazer... não posso..."
Os suaves soluços de Leon ecoavam silenciosamente ao redor.
Ele estava de joelhos, olhando para suas mãos trêmulas com o rosto pálido. Parecia um verdadeiro desastre, incapaz de completar suas ações. Ao seu lado descansavam duas espadas, e meu olhar se fixou em uma delas enquanto a peguei.
'Essa deve ser a que eu dei a ele antes de partir.'
Eu ainda lembrava daquele momento.
Com essa espada na mão, significava que, tecnicamente, eu tinha duas espadas iguais comigo. Mas, diferente da que eu tinha agora, essa não era para mim ficar.
Mesmo assim, guardei por enquanto.
'Por que ele está tão hesitante?'
Não conseguia entender bem por que Leon agia assim.
Ele parecia extremamente frágil. Seus cabelos estavam despenteados, e seu rosto extremamente pálido. O que tinha acontecido enquanto eu estive fora? ... E quanto tempo eu tinha desaparecido?
Olhei ao redor, especialmente para o domo escuro onde sentia a presença das meninas, junto de Julien real, e voltei meu olhar para Leon.
Algo despertou dentro de mim enquanto falava.
"Levante a cabeça."
Minha voz saiu mais fria do que pretendia.
No instante em que falei, o corpo de Leon congelou, e ele lentamente levantou a cabeça para me olhar. Nesse momento, o mundo ficou em silêncio enquanto os dois nos encarávamos.
"N-você...."
Os olhos de Leon mudaram de expressão, tremendo.
De relance, eu percebi que ele já sabia que eu vinha, mas havia algo errado com ele.
'Sai dessa.'
Avancei e segurei seu rosto com as duas mãos, surpreendendo-o.
"O que você está fazendo?!"
Ignorei seus chôros e falei.
"....Não esqueça sua missão."
Injetando magia emotiva na minha voz, ela se sobrepôs, cheia de emoção.
Não tinha escolha: Leon não estava em condições de agir.
Aprumi meus dentes e proferi as próximas palavras.
"Tudo pelo que você trabalhou duro... Não deixe tudo virar pó nesse momento. Já conversamos sobre isso. Você precisa fazer isso."
"Наа.. Наа..."
A respiração de Leon começou a ficar mais pesada.
"M-mas..."
"Você se esforçou pra isso."
Interrompi-o antes que pudesse falar, reforçando minha voz.
Já discutimos isso antes.
Era a única maneira de eu voltar. Por que ele hesitava tanto? Será que tinha medo que, ao matar 'Julien', eu não voltasse?
Bobagem!
Eu tinha tudo planejado.
Ele... só precisava escutar.
"Você chegou até aqui. Não deixe tudo passar por um sentimento seu. Ele não é nada!"
"Haa... Haa... Haa..."
"Termine o que começou."
Inclinei minha cabeça para melhor visualizar Leon, cuja respiração ficava cada vez mais agitada.
Segurei seu ombro com a mão e, reforçando minha fala, continuei.
"Não deixe uma morte sem sentido nos impedir."
"Наа... Наа... Наа... Нааа..."
Clang!
Olhei ao redor e chutes na espada inútil no chão, pegando a espada que ele tinha despejado há pouco e entregando-a de volta a ele.
"Vai."
Mais uma vez, reforcei minha voz.
"Termine."
"Наа... Наа... Наа... Нааа... Hаа...!"
Os olhos de Leon ficaram vermelhos.
Mas ainda assim, não era suficiente.
Não o suficiente para que ele se compromete totalmente.
"Faça..."
Murmurei mais uma vez, inclinando minha cabeça na direção do domo. Justo onde Julien apareceu.
"....Me mate,"
mumblei de novo, ajustando minha magia emocional ao máximo.
"Наа... Наа... Наа...!"
Foi tudo o que Leon precisava para perder o controle, suas mãos desesperadas buscando a espada e agarrando-a, os olhos dilatados, como se uma adrenalina estivesse correndo pelo corpo dele.
Ele pulou em direção ao domo escuro, onde sua figura desapareceu.
....
De repente, tudo ficou silencioso.
Apesar disso, eu podia ver tudo o que acontecia dentro do domo. Tudo se desenrolou exatamente como eu lembrava.
E logo—
Cra Crack!
Um som sutil de rachadura ecoou pelo ar.
Levantei a cabeça e vi a luz começando a escapar do domo preto, primeiro fraca, depois se espalhando pelas rachaduras à medida que mostrava sinais de quebrar. Mais fissuras surgiam em sua superfície, formando uma teia intrincada que se estendia ao redor do domo, enquanto eu permanecia em silêncio até—
Pá!*
Tudo se quebrou, revelando as sombras de cinco figuras.
Pum!
Kiera, Evelyn e Aoife estavam no ar, enquanto Leon ficava atrás de Julien, que estava ajoelhado no chão, com uma espada cravada nas costas.
As meninas estavam em silêncio.
Leon também, em silêncio.
Eu fiquei em silêncio.
O mundo permaneceu em silêncio.
Todos os olhares focados em Leon, que estava diante de Julien, de costas para mim.
O cálice estava espalhado pelo chão, derramando seu conteúdo.
A expressão de Leon tinha mudado. Agora, mais calma, mais fria. Parecia que o ataque foi o suficiente para ele finalmente sair do medo.
"Não se preocupe. Vou fazer tudo rápido."
Sua voz ecoou suavemente, quase tranquilizadora, enquanto o mundo parecia parar.
Aoife, Kiera e Evelyn... Pareciam alheias à minha presença, paradas, com expressões e corpos congelados no tempo, todas olhando para Leon.
"Este é o último passo, certo? ...O último passo antes que meu inferno finalmente acabe?"
Leon murmurou as mesmas palavras que ouvi várias vezes.
De tanto ouvi-las, acabei decorando e assenti lentamente.
"É."
Mas isso não era só o inferno dele.
Era o meu também.
"O que você está esperando? Você já fez a parte mais difícil."
Leon apertou a camiseta, lentamente amassando-a enquanto seu rosto tremia.
"...Hah."
Um sorriso borroso apareceu no rosto dele.
"Vou fazer."'
Ele baixou a cabeça para olhar Julien.
Uma mudança ocorreu no momento em que falou. Julien, ainda ajoelhado, de repente levantou a cabeça, seus olhos fixando nos de Leon, que tremeram.
Um lampejo de hesitação surgiu em seu olhar.
Franzi a testa diante daquela cena, cortando a hesitação dele.
"Pare de enrolar."
As palavras foram suficientes para que ele despertasse.
"Ah, sim... Não vou mais enrolar."
Leon ergueu a mão, revelando o brilho frio da espada. Seus olhos cinzentos, pálidos, tremelicaram ao mesmo tempo em que a lâmina descia em um movimento fluido.
SHILING-!
"Esperei demais por isso."
Pouco depois, uma cabeça rolou, parando aos meus pés enquanto eu a recolhia. Sangue escorria do pescoço cortado, mas, ao olhá-la, não senti nada. Estava completamente anestesiado por aquilo, enquanto voltava meu olhar para a distância.
Para uma figura que observava escondida.
Seu corpo ficou imóvel ao eu focar novamente na cabeça.
"Você vai entender logo."
Ainda não tinha acabado.
Faltava uma coisa que eu precisava fazer.
Voltei meu olhar para a terceira folha enquanto falava.
"....Tudo que você precisa fazer é lembrar."
Pressionei meu dedo nela.
"Lembre-se de tudo que aconteceu."
O mundo diante de mim se transformou.
Appearei diante de uma sala onde uma grande mesa se destacava, dominando o espaço com uma superfície de madeira bem polida e reluzente. Sobre ela, repousava uma luminária antiga, cujo brilho suave lançava uma luz tênue e misteriosa pelo cômodo.
Este cômodo...
Era bastante familiar.
Era a primeira memória que tinha desde que cai na esse 'mundo'. Era onde tudo começou, e, ao olhar para a figura sentada em frente à mesa, completamente alheia à minha presença, estendi a mão para pegar uma espada específica.
Era a espada que deveria estar comigo e que eu tinha que usar.
Dentro dessa espada, havia uma alma.
Uma que havia arrancado há pouco tempo.
Respirei fundo, observando a figura que ainda não tinha me notado, e, em um movimento rápido, empurrei a espada para frente, na direção das costas expostas de Julien.
Spurt—!
Isso também marcou o momento em que transferti minha antiga alma para o corpo.
Este foi, na verdade, o início.
O começo da minha transmigração.