Advento das Três Calamidades

Capítulo 763

Advento das Três Calamidades

A carta era relativamente curta.

No entanto, a mensagem era clara.

'Instamos veementemente que entregue o anel sem demora. Embora estejamos dispostos a oferecer uma compensação adequada por seu retorno, a recusa em atender a essa solicitação inevitavelmente resultará em consequências, as quais preferiríamos evitar, mas estamos totalmente preparados para implementar, se necessário.'

Foi assim que resumiria toda a carta. Também foi aqui que percebi por que tudo tinha sido tão fácil. O ferreiro...

Ele tinha sido perdoado desde o começo.

'Provavelmente fez um acordo com eles, no qual deixariam ele ir em troca de entregar esta carta.'

Mas será que as coisas eram realmente tão simples...?

Por que o Império simplesmente me daria uma carta?

Haveria mais por trás disso?

'Com certeza há mais do que isso.'

Percebi que eles consideravam o anel no meu dedo muito mais importante do que consertar os relicários em si. E, nesse aspecto, também compreendi o porquê.

No final das contas, o que eu realmente acreditava ser o verdadeiro interesse deles não eram os relicários, mas o sangue contido neles.

Se isso era algo desejado pelo imperador ou pelo 'Deus' que trabalhava ao lado dele, eu não tinha certeza. Contudo, essa era minha hipótese mais provável acerca da situação.

"Está tudo bem? Dei uma olhada na carta, e..."

Ouvindo as palavras de Leon e vendo sua expressão, coloquei a carta no bolso.

"Eu não estaria fazendo uma careta dessas se fosse você."

Comecei também a ficar um pouco preocupado com Caius. Pelo que suas ações indicavam, algo estava acontecendo dentro do Império. O fato de ele precisar fingir cooperação já dizia tudo.

'...Gostaria de contactá-lo, mas ele provavelmente está sendo monitorado. Por enquanto, parece tudo bem, mas não sei por quanto tempo isso pode durar.'

Todo esse conjunto de circunstâncias me parecia estranho.

O pior de tudo era que agora eu sentia como se tivesse um alvo nas costas. Sabia que a carta não era apenas um aviso do Império. Provavelmente eles já tinham começado a agir, e a carta era mais uma formalidade.

"Leon."

Olhei para Leon.

"Sua habilidade detecta alguma coisa?"

"Minha habilidade...? "

"Sim, há algo errado com a situação?"

"Isso..." Como se tivesse percebido algo, Leon franziu a testa. No entanto, depois de um tempo, ele balançou a cabeça. "Não, nada. Não sinto nada."

"Entendi."

Rangei os dentes, esforçando-me ao máximo para compreender a situação.

Justamente quando mergulhei em meus pensamentos, a voz de Linus se fez ouvir.

"O que você está tentando descobrir?"

"Não é algo que você precise se preocupar," respondi, afastando-o de certa forma. Não achava que ele pudesse ajudar.

Mas Leon pensou diferente.

"O Império enviou uma carta para Julien. Eles estão atrás do anel dele. Pelo que pude perceber, a carta é bastante formal, e parece que estão dispostos a pagar algum dinheiro pelo anel, mas, em caso de recusa, temo que..."

"Vão tentar tomar à força?"

Interveio Linus.

"Exatamente. E nós dois suspeitamos que eles já tenham feito isso. Mas não conseguimos provar."

"Ah."

As sobrancelhas de Linus se franziram intensamente, finalmente compreendendo a situação. No final, ele virou sua atenção para o meu bolso.

"Posso... ver a carta?" perguntou após uma hesitação.

Franzi o cenho, mas não via motivo para recusar, então entreguei a ele.

"Você tem alguma ideia?"

"Err... Talvez."

Respondeu Linus, abrindo a carta e ajustando as dobras. Então começou a lê-la enquanto Leon e eu o encarávamos em silêncio.

Finalmente, aos olhos surpresa de ambos, os olhos de Linus começaram a brilhar com uma tonalidade certa. Parecia entre azul celeste e branco.

No instante em que seus olhos brilharam, a carta se tornou translúcida.

Nesse momento, todos nós percebemos os fios negros entrelaçados na carta, espiralando como um parasita insidioso, cada tentáculo se movendo e se enrolando com uma aparência perturbadora de vida.

"....!?"

Meus olhos se arregalaram diante da cena.

Que tipo de...!

"Ukh! Ah, merda!"

De repente, Linus lançou o papel para o lado enquanto um tentáculo se aproximava de sua mão, agarrando-se a ela.

Corri apressado em direção à sua mão, mas, quando consegui alcançá-la, o tentáculo já havia desaparecido.

"....."

Seguiu-se um silêncio opressivo.

Todos os olhares se voltaram para a carta no chão.

"Sss..."

Respirando fundo, olhei para Linus.

"Qual foi a habilidade que você usou agora?"

"Olhos da Verdade."

Respondeu Linus pontualmente, apontando para os olhos.

"Ela vem de um osso de nível Terror que consegui há pouco tempo. Permite-me ver através de coisas que o olho normal não consegue."

"Isso..."

Franzii as sobrancelhas, refletindo um pouco. Pensando na fuga, e em tudo mais, quase senti vontade de dar um tapinha na cabeça dele. Mas, como se tivesse lido meus pensamentos, Linus interrompeu.

"A habilidade é relativamente fácil de detectar quando direcionada para uma determinada área. Mesmo se eu usá-la para enxergar através de paredes e detectar alguém, eles também perceberiam. Ainda é uma habilidade nova, então não tenho muito controle sobre ela."

"...Faz sentido."

Sabia, na pele, como algumas habilidades podiam ser problemáticas. Especialmente [Passo de Supressão]. Antes de evoluir, levei um tempo considerável para dominá-la. O mesmo vale para os fios.

'Talvez eu possa fazer ainda mais com [Olho da Existência]. Preciso treinar mais com ela.'

Mais uma vez, fui lembrado de tudo que precisava fazer.

"Deixa isso de lado por enquanto."

Voltei minha atenção ao conteúdo da carta, as sobrancelhas se cerrando enquanto lembrava dos fios pretos dentro daquela simples mensagem.

'O que exatamente era aquilo...? E será que entrou no meu corpo?'

Imediatamente, tentei checar meu corpo, mas, por mais que olhasse, não consegui sentir absolutamente nada. Isso me frustrou.

Sabia que aquilo que tinha acontecido não era algo simples.

E, ainda assim, não conseguia fazer nada para verificar.

Não, espere...

Olhei para Linus.

"Verifique meu corpo."

"Huh?"

"Use sua habilidade em mim. Veja se essa coisa negra estranha entrou no meu corpo."

"Mas—"

"Que graça tem? Você é meu irmão. Não seja bobo."

"....."

Depois de fazer algumas caretas estranhas, os olhos de Linus começaram a brilhar de repente. Um calafrio percorreu meu corpo quase instantaneamente, e naquele momento entendi por que ele tinha ficado tão relutante em usar a habilidade.

Era bastante claro que ele estava usando. Praticamente entregaria nossa localização.

'Dito isso, vejo que a habilidade é extremamente útil. Se ele conseguir treiná-la ao ponto de fazê-la de forma sutil e sem que ninguém perceba, poderá se tornar um ativo de extremo valor.'

"....!?"

De repente, ao ver a expressão de Linus mudar, meu coração afundou.

"Você encontrou algo? Entrou em meu corpo? Onde está...?"

"Eu..."

Linus olhou para mim, com uma expressão de horror e choque. Finalmente, deu um passo para trás, engolindo em seco.

"Você... Eu..."

"O quê? Fale logo."

Comecei a ficar irritado.

`Justo o quê—

"Em todo lugar."

Ele murmurou, entregando uma expressão ainda mais horrorizada.

"Consigo ver os tentáculos por toda parte do seu corpo."

"....."

Toda a minha concentração desapareceu naquele instante. Olhando para Linus, afinal, foquei meu olhar na aliança no meu dedo.

'No final, não é que eu não tenha sido afetado. Eu fui. Simplesmente nunca percebi.'

Respirei fundo, tentando manter a calma ao máximo.

Quando levantei os olhos, vi Leon com uma expressão preocupada. E, justo quando ele estava prestes a falar algo, Linus continuou.

"Porém, é estranho."

"O que é estranho...?"

Leon perguntou, voltando sua atenção integral para Linus. Por fim, com uma expressão de frustração, Linus comentou: "Embora todo o seu corpo esteja coberto pelos tentáculos negros, nenhum deles está atacando-o. É como se fossem incapazes. Não, espere... Vejo pequenas quantidades tentando, mas são extremamente diminutas. Ughh!" Linus bagunçou o cabelo, irritado. "Não sei... Isso é demais pra mim, muito complicado."

Linus voltou sua atenção para Leon.

"...Você, por outro lado, não tem tantos quanto ele. Mas tem alguns. Mas, ao contrário do Julien, eles entram no seu corpo e se fundem com seu sangue. Felizmente, a quantidade é bem menor."

"O quê...?"

O rosto de Leon mudou.

"Eu também tenho?"

"Só um pouquinho."

Respondeu Linus, olhando para sua mão.

"Não sou muito diferente. Um entrou em mim há pouco tempo."

A sala ficou em silêncio logo após isso. Nenhum de nós falou algo enquanto eu respirava fundo, relaxando a mente. Comecei a formar uma ideia do que estava acontecendo.

Muitas coisas começavam a ficar claras na minha cabeça.

'É como disse o ferreiro. Os relicários são perigosos. São chamados de maus por uma razão. Eles lentamente corrompem a mente de quem os usa. A parte mais chocante é que são incrivelmente difíceis de detectar. Se não fosse o Linus, eu nunca saberia que tinha essas coisas dentro de mim.'

Era uma preocupação real.

Mas, felizmente, parecia que isso não me afetava de modo grave.

Pelo menos, não de forma fatal. E eu sabia exatamente o motivo.

'Provavelmente tem a ver com o sangue dentro de mim.'

Meu sangue original impedia os tentáculos de entrarem no meu corpo. Mas, como não tinha a quantidade plena de sangue comigo, alguns ainda conseguiram entrar.

Isso levantou várias perguntas.

Especialmente...

'Quando perdi todo o sangue, o que aconteceu então?'

No momento em que entrei na Dimensão Espelho e adotei uma identidade diferente... O que exatamente aconteceu comigo? Os tentáculos se fundiram com meu corpo? Em que grau?

Comecei a ficar extremamente preocupado.

Precisava encontrar uma maneira de verificar. Felizmente, sabia exatamente quem podia fazer isso.

Ela era alguém em quem confiava bastante, e minha... noiva.

Após meses de reflexão e pensar bastante sobre a situação dela, tomei minha decisão há bastante tempo.

Para evitar mal-entendidos e para que ela me ajudasse, planejava ser honesto com ela.

Amanhã...

Planejava contar tudo sobre mim.

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