
Capítulo 749
Advento das Três Calamidades
No final, eu nunca consegui contar a ela a verdade.
Não foi por falta de tentativa. Porém, naquele momento, entendi que o melhor seria manter a boca fechada.
Delilah não parecia estar na melhor saúde mental.
Foi, sinceramente, uma surpresa inesperada.
Delilah sempre me pareceu uma contradição estranha — jovem, quase infantil às vezes, mas irresistivelmente poderosa. Ela se queixava constantemente das responsabilidades na Academia, reclamando de quão exaustivas eram, e na maioria das vezes, mudava de assunto para falar sobre chocolate e o quanto gostava dele.
Ela também era do tipo que roubava uma fonte de chocolate e depois a levava para seus próprios eventos.
De vez em quando, contudo, quando a ocasião pedia, ela mostrava outro lado de si mesma. Uma presença régia, autoritária, que se impunha acima de todos.
Mas isso…
Isto era diferente.
Pela primeira vez, vi ela desprovida de sua fachada habitual. Não havia nenhuma pista de sua reclamação descontraída, nem vestígios do orgulho que às vezes exibia.
O que eu via, ao contrário, me causou desconforto.
Fria e alienígena.
Ela parecia...
Como uma pessoa completamente diferente.
'Isso é bastante preocupante.'
Tinha uma ideia do que estava acontecendo. Com base em todas as informações que tinha, não foi difícil entender o que estava se passando.
'...Agora que ela quase alcançou o Zênite, o sangue no corpo dela está se agitando. Provavelmente, ela está enfrentando as consequências disso.'
Consegui ainda perceber a escuridão absoluta que tomou conta do olhar dela por um instante enquanto conversávamos. A frieza da mão e o olhar distante dela.
Todos esses sinais apontavam para a mesma coisa para mim.
Além disso…
'Isso também pode ser a razão pela qual ela precisa eliminar todos os deuses.'
Não apenas por vingança, mas também por causa do sangue que corre pelas suas veias.
Ao pensar nisso, mordi o lábio. Uma pontada de dor, mais intensa do que eu esperava, percorreu meu corpo e, antes que percebesse, algo quente escorreu pelo canto da minha boca. Congelei. Minha mão se levantou instintivamente, passando pelo queixo, apenas para manchar algo molhado. Quando puxei de volta, uma faixa de Vermelho aderiu aos meus dedos.
"....."
Fiquei em silêncio, limpando a boca e olhando à minha frente.
'Por enquanto, isso é só uma hipótese. Não há necessidade de tirar conclusões precipitadas.'
Apesar dos meus pensamentos, meu coração afundou. Com tudo o que sabia, compreendia que essa era, provavelmente, a situação real.
Mesmo assim…
Nem toda esperança estava perdida.
'Ela disse que partirá assim que alcançar o Zênite. Ainda faltam alguns meses para isso acontecer. Tenho um pouco de tempo para avaliar a situação com calma e pensar no que preciso fazer.'
O mais importante era saber se valia a pena contar a ela toda a verdade.
Eu confiava em Delilah, mas era evidente que seu estado atual de espírito não era o mesmo que o que eu conhecia. Havia uma grande chance de ela agir impulsivamente por causa do sangue dentro dela.
Mas, por outro lado…
Esta era apenas a minha suposição.
"Ugh."
Mexi na parte de trás da cabeça enquanto voltava para o local da 'festança'.
Havia várias coisas nas quais eu precisava refletir. Desde encontrar uma maneira de consertar meu anel, descobrir o que o Marquês planejava, até a situação de Delilah, e também ficar atento às possíveis manobras das organizações de Toren.
Só de pensar em tudo que tinha que fazer, me senti sobrecarregado.
'Seja forte.'
Coloquei ambas as mãos nas bochechas e puxei para cima.
'Não adianta ficar assim. Tenho tempo. Não há motivo para pressa.'
Depois, com a respiração equilibrada, entrei no salão principal, onde imediatamente avistei várias figuras conhecidas.
"Onde você estava?"
Leon foi o primeiro a me cumprimentar. Ele segurava alguns pastéis na mão e, na outra, uma taça de vinho.
Eu cocei o rosto ao lado da orelha.
"No banheiro?"
"Por trinta minutos?"
"Foi uma longa."*
Os olhos de Leon se arregalaram antes de voltar a olhar na direção de Evelyn e Kiera, mas as duas estavam na própria vibe, experimentando o que quer que fosse de comida. De tempos em tempo, Evelyn pegava um pequeno bloco de notas e escrevia algo, causando um monte de palavrões de Kiera.
Eu encolhi os ombros e olhei de volta para Leon.
"Aconteceu alguma coisa enquanto eu estive fora?"
"Hmm. Na verdade, não."
Leon balançou a cabeça enquanto tomava um gole do vinho.
"Estava relativamente tranquilo. Tiveram umas conversas aqui e ali, mas nada demais. Você não perdeu nada importante."
"Entendi...?"
Fiquei um pouco surpreso, mas foi algo bem-vindo. Eu realmente não queria mais problemas.
Na verdade, eu queria descansar um pouco.
Não só por hoje. Mas por alguns dias, ao menos.
Estava exausto.
"Vamos embora?"
Como se tivesse percebido meu cansaço, Leon falou.
Olhei ao redor e assenti.
"Não vejo motivo para ficarmos aqui mais tempo. Só estou recebendo olhares estranhos, e as pessoas mais importantes já saíram. Acho que é hora de voltarmos para a residência principal."
"Sim, isso mesmo."
Leon hesitou um pouco, com os olhos brilhando de expectativa. Parecia que algo tinha mudado nele.
'O que há de errado com ele? Por que está agindo assim?'
Era uma cena bastante assustadora.
Decidi não dar muita bola ao comportamento dele e, calmamente, saí do salão, despedindo-me de Kiera e Evelyn ao mesmo tempo. As duas me desejaram adeus rapidamente, antes de voltarem às próprias atividades.
De qualquer forma, logo as veria de novo, então não fazia diferença a despedida.
"Está uma maravilha."
Ao sair do salão e sentir o ar frio da noite, pausei por um instante para apreciar a brisa, antes de direcionar minha atenção para uma carruagem em particular.
Justo quando dava um passo em direção a ela—
"Espera aí."
Uma mão agarrou meu ombro.
Quando me virei, vi Leon olhando com uma carranca.
"Não vamos de volta à Residência Evenus?"
"Vamos, sim."
Já não havia mais motivo para ficar naquele território.
Eu também tinha muitas coisas a resolver.
"É longe, né?"
"Na verdade, não tanto."
Azmonia ficava relativamente perto da Casa Evenus.
Precisava ser assim.
"Não, é longe."
"Como assim?"
Fiquei confuso ao olhar para Leon. Ele me encarava com uma expressão de raiva, como se dissesse: 'Concorde comigo, seu tolo. Apenas diga que é longe.'
"Mas não é..."
Os dentes de Leon rangeram.
"É."
"Não é."
"Mas é — Sabe de uma coisa, é longe."
Percebi que era melhor ceder, porque a discussão não ia para frente. Estava me preparando para virar e seguir rumo à carruagem, quando Leon puxou meu braço outra vez.
"Mas o que—"
"Porra!"
A voz de Leon se elevou, deixando-me momentaneamente sem palavras.
Será que ele tinha…
"Por que estamos usando a carruagem? Você tem um dragão de verdade! Deixa eu usar esse maldito dragão!"
"....."
Ah.
Então é por isso.
Assenti, compreendendo.
Mas mesmo assim…
"Não."
"Por quê? Por que não?"
"Porque não posso. Pelo menos, não até registrar."
"O quê? Que história é essa?"
"Não é invenção."
Usei meu dispositivo de comunicação e mostrei a ele minhas mensagens recentes com Aoife.
"Veja só."
Apontando para a última mensagem.
"Aparentemente, tenho que registrar o Pedra no Império antes de poder voar com ele. Então..."
Olhei para a carruagem.
"Vai de carruagem mesmo."
O rosto de Leon ficou pálido ao me ver. Parecia alguém que teve seu mundo destruído ali mesmo. Silenciosamente sorri ao vê-lo daquele jeito.
Honestamente, eu poderia voar, se quisesse.
Mas essa visão valia mais do que qualquer coisa.
Quem diabos escutava Aoife…
***
"...Hmm. Precisa de um pouquinho mais de tempero. Eu teria avaliado melhor se não fosse por esse detalhe."
Ela murmurava consigo mesma, anotando algumas coisas no bloco de notas antes de pegar mais um prato à sua frente. Tinha ficado um tempo sem fazer suas resenhas, e, por isso, as pessoas estavam começando a perder interesse na opinião dela.
Porém, isso era inevitável.
Ela tinha desaparecido por um bom tempo devido à expedição na Academia e aos eventos recentes. Não tinha tempo suficiente para fazer avaliações.
'Vamos experimentar esse aqui.'
Observando o prato à sua frente, que parecia ser algum tipo de prato de hidromel, ela deu alguns pressionamentos nos lábios antes de avançar as mãos em direção a ele.
Quando ela tinha acabado de alcançá-lo,—
"O que você está fazendo?"
Kiera interrompeu, com a cabeça surgindo por trás do ombro dela, olhando para o bloco de notas.
A face da Evelyn ficou estranha.
"Ainda fazendo isso?"
"...Me deixe em paz."
"Você sabe que isso é estranho, né?"
"Não é."
"Sim, é. Tenho certeza de que a Aoife pensa a mesma coisa."
"....."
Desde então, Evelyn decidiu ignorar Kiera. Ela não tinha tempo para se envolver com as maluquices dela. Isso era bem mais importante.
Ela tentou pegar o prato novamente, na esperança de conseguir comer sem problemas.
Mas será que isso realmente aconteceria?
"....!?"
Uma mão surgiu por trás dela, pegando a comida do seu prato e enfiando na boca.
"Ei!"
Immediate, Evelyn virou a cabeça para trás, xingando Kiera, mas já era tarde demais — ela já tinha comido a comida.
"O que—!"
Antes que Evelyn pudesse protestar, Kiera agarrou seu braço e a puxou para fora do local.
"Espera, o que você tá fazendo? O que…!"
Kiera não escutou.
Ela simplesmente puxou Evelyn, levando-a até uma grande carruagem.
Quando Evelyn viu a carruagem, parou por um momento, confusa e surpresa.
Mas então—
Clang!
A carruagem se abriu, e um cabelo vermelho apareceu na visão de Evelyn.
Ela ficou imóvel, de olhos fixos, enquanto Aoife sentava-se ao lado dela, sorrindo para as duas.
"Já faz um tempo."
Ela acariciou a área de couro ao lado.
"Tenho muita coisa que quero conversar com vocês. Pode dar um tempo?"