
Capítulo 655
Advento das Três Calamidades
Virellith.
Esse era o nome da cidade principal mais próxima dentro do Remanescente Sul. Localizada às margens do mar, a cidade não era difícil de avistar de longe, principalmente devido à imensa torres que perfurava o céu.
"Aquela é a Torre Ardente."
Anne pronunciou as palavras suavemente, seus olhos fixos na estrutura ao longe.
"É um dos símbolos mais icônicos de Virellith — faz parte da Catedral da Luz. Serve como o centro de todos os templos e igrejas dedicados à Deusa da Luz."
Erguendo a cabeça, ela focou no topo da torre.
"...Alguns chegam a dizer que a própria Deusa da Luz habita lá. Mas ninguém sabe ao certo. Faz muito tempo desde sua última aparição. Há até rumores de que ela morreu, mas ninguém confirma."
Os olhos de Lazarus se estreitaram ao ouvir as palavras de Anne.
Todos ainda estavam concentrados nas ações do Primordial, mas por ora, a atenção só podia se voltar para a cidade no horizonte.
Levando o rosto para olhar a torre, os olhos de Lazarus piscaram.
'Então há uma chance de ela morar lá dentro?'
Ele apertou os lábios com firmeza.
Essa era uma notícia interessante.
"Bem, são apenas rumores, então não dê muita importância. O verdadeiro problema é que estamos na região da Deusa da Luz, e, pelo que já fizemos antes, o melhor é sermos cautelosos."
"Certo..."
Lazaurus passou a mão no rosto.
Será que ele tinha que mudar sua aparência de novo?
Isso era um pouco... estranho...
"Eu também preciso trocar meu rosto, porque sou bem reconhecível. Felizmente, não é a primeira vez que faço isso."
Rindo calmamente, Anne entregou um anel para An’as e Lazarus.
"Isto é...?"
"Uma relíquia especial que usamos para fazer as pessoas esquecerem nossa aparência após nos verem."
"Hã?"
Tanto Lazarus quanto An’as ficaram surpresos ao ver o anel.
"Geralmente funciona na maioria das pessoas. Mas, se houver alguém com um [Mente] excepcionalmente forte, vão conseguir se lembrar de nossos rostos. Por isso, o melhor é ficar na surdina enquanto estivermos na cidade."
"Ah."
Lazarus mexia no anel com a mão. Ele era completamente preto, quase igual ao outro anel que usava.
De repente, veio-lhe uma ideia.
"E o Bocal Eclipsado? Onde fica isso?"
"...O Bocal Eclipsado?"
Anne virou-se para Lazarus antes de inclinar a cabeça.
"Não fica muito longe daqui, mas não é o melhor momento para irmos até lá. A maré está forte neste momento. Diria que devemos esperar uns três dias antes de partir."
"Três?"
"Sim, ir agora seria muito perigoso."
"Hmmm."
Lazarus ficou pensativo, mas ao levantar a cabeça, percebeu que a expressão de Anne ficou ainda mais estranha.
"Você quer ir lá, não quer?"
"Sim."
Lazarus não negou.
Esse sempre foi seu objetivo. Precisava ir até lá para coletar os Olhos de Oracleus — o último artefato restante antes de completar as quatro relíquias.
"Sabe de uma coisa, nem vou perguntar."
Anne suspirou e deu um sinal para sua tripulação parar o navio.
"Vamos ter que ficar aqui. Se avançarmos mais, corremos o risco de sermos vistos pelos enviados da igreja. Existe uma recompensa alta por nós, então o melhor é sermos cautelosos."
Enquanto dizia isso, ela se inclinou para um lado do navio, onde apareceu uma embarcação menor.
"De onde veio isso?"
A embarcação tinha cerca de um quinto do tamanho do navio principal, e aparentemente surgiu do nada, enquanto Lazarus e An’as olhavam surpresos para Anne.
Colocando o anel no dedo, Anne sorriu sutilmente.
"Não sou uma das sete senhoras do Mar Carmesim à toa. Tenho motivos para ainda estar viva e ativa."
Sem esperar que os dois dissesse algo, ela chutou o chão e pulou em direção ao barco abaixo.
An’as e Lazarus só podiam olhar um para o outro antes de seguir atrás.
Batida!
Ao aterrissar na embarcação, eles olharam ao redor.
O barco... não era nada extraordinário ou luxuoso como o anterior. Parecia um velho barco de pesca, com anzóis ao lado e várias caixas espalhadas por toda parte.
"Somos pescadores? Essa é nossa identidade?" An’as perguntou, olhando ao redor com uma expressão meio estranha.
"Não."
Anne balançou a cabeça, caminhando até uma das caixas e chutando-a, revelando vários ossos.
"Somos comerciantes de ossos."
"Que porra..."
Os olhos de An’as se arregalaram ao ver a quantidade de ossos no chão. Havia mais de cem, e até Lazarus ficou surpreso com o volume de ossos ali espalhado.
"Não são nada de especial. Muitos ossos de nível infantil, e alguns de nível terrorista misturados. Dá pra enganar os guardas da cidade. Já estive lá, fiz isso antes... Ei, deixa o osso no chão, não toque nele!"
Pausando no meio da frase, ela começou a repreender An’as, que mexia nos ossos, fixando o olhar em um osso escuro específico.
Ele quase lambia os beiços.
"Posso...?"
"Não, não pode."
"Por quê?"
"Porque é caro."
"Mas isso pode me ajudar a ficar mais forte..."
"De qualquer forma, não é pra você, então para de se atrasar comigo."
"Por favor?"
"Vou te dar uma surra."
An’as só pôde resmungar e colocar o osso no chão, soltando um suspiro.
'Não espero nada diferente de um pirata...'
"O que foi isso?"
"Nada."
Indo para o interior do barco, Anne começou a movimentar a embarcação.
Vários símbolos mágicos se acenderam, e o barco passou a navegar pela água, afastando-se do navio principal em direção à terra distante.
Quando a embarcação começou a se mover, uma garota jovem, de sardas e cabelo em dois raminhos, apareceu do interior do navio, assustando An’as.
"Que porra?"
Ele se levantou, olhando para a figura nova.
"Quem é você? Quando —"
"Sou eu."
Só quando ela abriu a boca e sua voz saiu é que An’as percebeu quem era.
"Você mudou sua aparência? Por quê? Eu achava que..."
"Ao contrário de vocês dois, preciso tomar cuidados extras. Sou bem conhecida aqui. Vocês estão com uma recompensa, mas suas caras não são tão famosas. Mesmo que descubram sua disfarce, talvez não associem a mim. No meu caso, é diferente."
Depois, ela virou-se para Lazarus.
"Já que vamos nos passar por comerciantes de ossos, é melhor que você assuma daí."
"Eu?"
Lazarus ficou surpreso.
Porém, Anne apenas assentiu com a cabeça.
"Sim. Assim fica menos suspeito."
"....Entendido."
Lazarus não era contra a ideia, exatamente.
Só que…
Na verdade, ele não era exatamente um comerciante de verdade.
'Bom, não importa. Acho que já peguei o jeito de fazer isso mesmo...'
"Muito bem."
Lazarus se dirigiu ao extremo da proa do barco e olhou ao longe. O continente se aproximava, e enquanto seu cabelo balançava ao vento, ele murmurou:
"Parece que a Câmara Cinzenta vai estar de volta."
"Ah, é mesmo."
Como se tivesse se lembrado de algo, An’as falou de trás.
Lazarus virou lentamente a cabeça para olhá-lo.
"Tenho uma dúvida há um tempo."
"Qual é?"
"Por que chamam de Grupo de Comércio Câmara Cinzenta? Existe uma razão para isso?"
"Sim, existe."
Lazarus assentiu seriamente.
Depois, sob o olhar atento de An’as e Anne, ele apontou para o céu.
"É porque o céu é cinza."
"...."
"...."
*
Quando chegaram ao porto de Virellith, uma hora se passou. O céu permanecia baixo e cinzento, enquanto o mar carmesim agitado batia contra as pedras escuras que formavam o quebra-mar do porto.
Estouro! Estouro!
Cadeias de ferro grossas se estendiam até a água, rangendo a cada subida da maré, enquanto o navio do comerciante e sua tripulação balançava de um lado a outro.
Ao longe, dezenas, talvez centenas, de embarcações estavam atracadas, cada uma variando de tamanho, com várias embarcações altas brancas chamando mais atenção ainda.
Estouro!
Quando outra onda se chocou contra o quebra-mar, o trio finalmente conseguiu chegar ao porto.
As águas se acalmaram após aquele momento, e eles passaram por várias áreas até encontrarem um lugar para atracar.
Foi exatamente nesse momento que uma embarcação branca parou na frente deles.
"Quem vocês são?"
Um homem vestido de branco surgiu no topo do barco, observando-os de cima. Seus traços estavam ocultos por um manto branco sutil que cobria seu corpo.
"Olá."
Lazarus avançou, seus movimentos um pouco hesitantes, precisando ajustar sua persona para combinar com seu novo papel.
Deixando de lado uma das caixas para mostrá-la, empurrou levemente com o pé, fazendo-a tombar e revelar os ossos.
"Sou um comerciante de ossos procurando negócios em Virellith."
"Comerciante?"
O homem vestido de branco parou por um instante, antes de saltar para o navio deles, com movimento leve como uma pena.
Ele se curvou um pouco para analisar os ossos, sem encontrar nada suspeito. Olhou para a equipe e também não percebeu nada errado.
"Tudo parece em ordem."
Ele assentiu de leve e virou-se para ir embora.
Porém, justo antes de sair, parou e olhou para trás, seus olhos fixos em um dos ossos enquanto o recolhia.
"Você não se importaria de me presentear um deles, gostaria?"
"Hã?"
Lazarus levantou uma sobrancelha ao olhar para o osso e depois para o homem de branco.
Logo um sorriso surgiu em seu rosto.
'Oh, não...'
Percebendo que a situação lhe era muito familiar, a expressão de An’as ficou pálida ao encarar o homem de branco.
Ele apressadamente balançou a cabeça.
'Não faça isso. Pelo seu próprio bem, NÃO FAÇA!!!'
Mas, claro, o homem de branco não podia ouvir os pensamentos de An’as.
"Posso?"
"Pode?"
Lazarus riu de repente, batendo palmas.
"Claro que pode!"
Ele se aproximou do homem de branco, colocando a mão no ombro dele.
"Por que eu seria tão sem graça a ponto de não te dar um osso após toda ajuda? Seria muito ingrato da minha parte! Kukukh."
Kukukh?
Anne olhou para Lazarus com uma expressão estranha; ele estava agindo de forma bastante esquisita.
"Sim, seria mesmo."
O homem de branco assentiu, enquanto An’as segurava a cabeça em desespero.
'Ele está acabado. Perdeu sua liberdade.'
Percebendo as ações estranhas de An’as, Anne franziu a testa e se aproximou, sussurrando:
"O que foi? Por que está assim?"
"Eu..."
An’as mordeu os lábios e, aos poucos, virou o rosto para olhar para Anne.
"Você não entenderia."
Finalmente, ele balançou a cabeça, com os olhos cheios de pena para o enviado.
"...A dor e o sofrimento que aquele homem vai passar a partir deste momento."
O corpo de An’as tremia ao pensar no que o enviado iria encarar.
"É..."
"Que diabos?"
Recuando um passo, Anne sentiu um calafrio percorrer sua coluna ao observar An’as.
Especialmente porque...
Ele estava sorrindo de uma forma tão sinistra.
"Kukukh."
Que porra?