
Capítulo 661
Advento das Três Calamidades
Era ela, não era?
A possibilidade ficava cada vez mais concreta na cabeça dele quanto mais pensava nisso. Apesar de Lazarus ter ficado inicialmente chocado, logo se acalmou.
Seu coração... que antes pulava uma batida, estabilizou-se de forma bastante tranquila.
O que o substituiu foi uma certa indiferença.
"Você não diria que, desde que ela ficou mais forte, isso não foi um fracasso?"
Se realmente fosse ela, então o experimento não tinha necessariamente sido um fracasso. A falha de que ela falava estava muito próxima de alcançar o Apogeu.
Se—
"Não, ainda pode ser considerado um fracasso. Apesar de ela ter ficado forte, ela não vai resolver o problema para nós. Pode ser que eventualmente alcance o Apogeu e consiga competir com elas, mas isso não basta. Precisamos destruí-las. E, para isso, ela precisa entrar em contato com a Fonte."
"Você falou que ela é jovem. Se esperar—"
"Não temos muito tempo sobrando."
A deusa respondeu, com um tom mais baixo.
"Apesar das melhores tentativas de Toren de manter tudo escondido, a Entidade Exterior ainda percebeu suas ações. Embora eles ainda não tenham se movido, não vai demorar muito até que o façam. Simplesmente não podemos esperar por ela. Nem podemos criar outra. Há um limite para o quanto você pode extrair do corpo de uma Entidade Exterior."
"Entendo."
O rosto de Lazarus ficou sério.
A situação parecia ser muito mais crítica do que ele imaginava.
Nessa perspectiva, também compreendeu por que os outros deuses não lutavam entre si. Não era porque se gostavam, mas porque não podiam se dar ao luxo de fazê-lo.
Ou melhor,... alguns já haviam perdido toda esperança.
O único que ainda resistia era Toren.
Com uma simples conversa com a Deusa, Lazarus conseguiu entender muita coisa que tinha dúvidas. Tinha algumas outras perguntas, como por que precisava coletar as quatro relíquias e o que aconteceria depois, mas antes que pudesse sequer formular essas perguntas, a Deusa virou a cabeça.
"Detecto uma marca estranha dentro de você."
Ela parou por um momento, depois....
"Você foi marcado pela besta do mar?"
Consegui captar a surpresa na voz dela enquanto falava. Foi então que me lembrei da minha situação e assenti rapidamente: "Sim, fui. Você tem alguma forma de me ajudar a resolver essa situação?"
Como ela era uma Deusa, Lazarus tinha certeza de que ela teria um jeito.
Com a força dela, provavelmente conseguiria ajudar a resolver essa dor de cabeça enorme.
Mas....
"Não posso ajudar você."
A Deusa apenas balançou a cabeça negativamente.
"Já te disse antes. Eu não sou mais a mesma de antes. Perdi a conexão com a fonte, e ainda estou lidando com os ferimentos da luta. Até eu mesma não tenho certeza se conseguirei sair por cima contra aquela besta."
"....Ah."
Embora Lazarus estivesse ciente de sua ferida, não imaginava que fosse tão grave assim.
"Mas e seu povo? Se—"
"Se eles conseguem lidar com essa besta ou não, não importa. Minha ajuda vai até onde prometi a Noel. Se deseja coletar o Olho, precisa ir até a Boca Eclipse para pegá-lo. Enviaremos algumas pessoas para te acompanhar, assim, não haverá problemas."
Lazarus entendeu a mensagem.
Percebeu que a Deusa não estava disposta a ajudá-lo. Ele nunca teve a intenção de implorar por isso, de qualquer forma.
Mesmo assim, planejava ao menos obter mais informações sobre o grande primordial.
Estava prestes a fazer uma pergunta, quando a Deusa o interrompeu.
"Não se preocupe tanto com a besta. Assim que você pegar o Olho, será capaz de lidar com ela."
"Eu vou?"
Lazarus ficou surpreso.
O olho era tão poderoso assim?
"Você está pensando demais. Embora o olho possa ajudar contra essa besta, de jeito nenhum você será capaz de vencê-la. Você é longe demais de ser forte o suficiente."
A Deusa deu uma risadinha.
"Vejo que você ainda é bem jovem e bastante poderoso para alguém da sua idade, mas ainda tem um longo caminho antes de se tornar realmente forte. Talvez, com a ajuda da Noel, você acabe por se tornar forte o bastante para competir contra as Entidades Exteriores, quem sabe? Tenho certeza de que a Noel não ajuda qualquer um."
De repente, balançando a mão, a sala começou a se distorcer e a se curvar de formas pouco naturais.
Surpreso, Lazarus olhou ao redor enquanto uma luz cegante atravessava sua visão. Ao mesmo tempo, a voz da Deusa continuava a ecoar em seus ouvidos.
"Já disse tudo o que tinha que dizer. Por ora, caberá a você cuidar de tudo o mais. Desejo boa sorte na sua jornada, e quem sabe... possamos nos encontrar novamente."
".....!"
Quando Lazarus saiu dessa sensação, percebeu que estava de volta na mesma sala de antes.
A única diferença...
A Deusa não estava mais presente na sala.
Olhar ao redor, Lazarus tentou procurá-la, mas ela havia sumido completamente. Como se nunca tivesse estado ali.
E então—
"Parece que sua reunião com ela terminou."
Uma voz calorosa saudou Lazarus por trás enquanto ele lentamente virava a cabeça e via o Santo Vivo de pé na entrada da sala, com um sorriso gentil.
"Deixe-me te conduzir de volta."
Lazarus abriu a boca, mas acabou fechando.
Ainda tinha tantas perguntas, mas sabia que não receberia respostas. A Deusa já lhe tinha explicado as coisas mais importantes.
Por ora, planejava assimilar todas as informações enquanto procurava pelo Olho.
Estava certo de que obteria a maior parte das respostas ao coletar o Olho.
Portanto...
"Tudo bem."
Baixando a cabeça, ele seguiu o Santo Vivo pelas costas.
***
"Que a Deusa me ilumine com uma luz eterna."
"Ó Deusa, ouve minha prece."
"Desejo sua saúde eterna."
"Obrigadão. Sério, muito obrigado."
A entrada da catedral estava lotada de pessoas, todas de pé do lado de fora, com as mãos juntas em oração, suas vozes elevando-se em uníssono.
Ao chegar à catedral, An'as e Anne foram surpreendidos por um espetáculo assim, impedindo-os de avançar mais.
"O que está acontecendo?"
"...Nunca tinha visto algo assim antes."
Ambos ficaram impressionados. Porém, Anne foi a mais espantada, pois era a primeira vez que via algo assim em todos os anos que frequentara o Remanescente Sul.
Esse cenário parecia estranho, e de certa forma, também desconcertante para ela.
'Quantas pessoas essa Deusa terá lavado o cérebro?'
Anne não acreditava nos deuses nem por um segundo. Como poderia, se tinha que se arrastar para sair da lama em que viveu?
Quem realmente a ajudou foi ela mesma.
Para ela...
Os deuses eram apenas seres poderosos em uma viagem de autoindulgência pelo poder, levando as pessoas a adorá-los. Não se importavam com ninguém além de si mesmos.
'Tolos patéticos.'
Anne balançou a cabeça enquanto olhava para todas as pessoas de joelhos, reverenciando a catedral.
'...Se quer ajuda, deve ajudar a si mesmo, não pedir para os outros.'
Por fim, seu olhar caiu sobre An'as.
Exatamente...
Ele também era um desses ingênuos fiéis.
Mas...
Contrariando suas expectativas, An'as não demonstrou sinais de reverência como ela imaginava. Ele tinha uma certa calma nos olhos ao olhar para o prédio distante, quase parecendo outra pessoa.
Essa mudança era tão evidente que ela se dirigiu a ele e perguntou: "Você não sente algo ao ver a catedral?"
"Ah? É bonito..."
An'as respondeu, afastando os olhos da catedral.
"Não é tão impressionante quanto imaginei, mas é bem digno."
"...Isso é tudo que sente?"
"Mais ou menos," respondeu An'as acenando com a cabeça, seus olhos vagando pelo ambiente. "Mais do que isso, preciso descobrir onde aquele mercador foi. Não tô muito bem à vontade com a situação. Se—"
As palavras de An'as foram cortadas por uma agitação repentina.
Enquanto os dois levantaram a cabeça, seus olhares caíram imediatamente na entrada da catedral, onde surgiram duas figuras.
Imediatamente, seus olhos se arregalaram enquanto as pessoas no chão se prostravam ainda mais.
"Viva a Deusa!"
"Viva a Santa!"
"Viva a luz!"
Um estrondo de canto reverberou no ar enquanto as duas figuras emergiam, uma brilhando como o próprio sol, e a outra... o mercador que lhes era tão familiar.
"Isto..."
Os olhos de An'as tremeram ao ver a figura ao lado do mercador.
Seu corpo não conseguiu evitar a reação.
Aquela figura... era alguém que ele nunca conseguiria esquecer, mesmo tentando, e seu corpo começou a tremer.
"Você tá bem?"
Anne pareceu notar suas ações, focando em An'as. Porém, ela não conseguiu entender exatamente a razão de seus gestos.
Por fim, ela fixou o olhar na figura ardente e começou a conectar os dois.
'Então não era que ele não se importava. Ele ainda se importa...'
Da mesma forma, ao vê-los, Lazarus voltou sua atenção para eles enquanto os dois se aproximavam.
"Vocês aí."
"...Vocês chegaram atrasados," respondeu Anne, olhando para o Santo Vivo. Embora ele estivesse sorrindo e parecesse amistoso, ela sentia uma certa pressão vindo dele. Isso a deixou extremamente cautelosa.
Felizmente, ele parecia não se importar muito com ela e olhou seriamente para An'as.
"Hmm."
Ele inclinou a cabeça por um momento.
"Tenho a sensação de que já te vi antes."
O corpo de An'as tremeu.
Ele... lembra de mim? Apesar de fazer o possível para se manter calmo, ele estava lutando para continuar assim.
Essa pessoa, diante dele, era a mesma que mudou a sua vida.
Era a mesma que lhe trouxe esperança e o transformou em seguidor da Deusa.
Ele...
"Que coisa mais estranha..."
O Santo tapou a boca, franzindo a testa levemente.
"Costumo lembrar das coisas, mas por algum motivo... mesmo sabendo que te conheço, não me lembro direito. Que estranho."
As expressões de An'as, Anne e Lazarus mudaram quase ao mesmo tempo enquanto todos olhavam para baixo.
Nesse instante, perceberam.
Sua sombra...
Desapareceu.
Isso só podia significar uma coisa.
O esquecimento.
...Começou.