
Capítulo 649
Advento das Três Calamidades
'An'as... não precisa se preocupar com uma pequeniníssima machucadura como essa. Sangrar só ajuda a tirar o sangue ruim. Confie na sua mãe, ok?'
An'as ainda lembrava das palavras reconfortantes da mãe.
As palavras que ela costumava dizer sempre que ele se machucava ou se feria quando era criança.
A Dimensão Espelho era um lugar traiçoeiro.
Era um lugar onde sobreviver era um luxo. E ainda assim... de alguma forma, ele conseguiu viver até a sua idade atual, vinte e oito anos.
Pode-se dizer que teve sorte.
Mas será que ele realmente teve...?
"M-mae..."
An'as olhava fixamente para a figura que se agarrava ao seu tornozelo, os olhos tremendo. Ele a reconhecia à primeira vista. Como não poderia reconhecer aquela mulher que o criou e cuidou dele desde pequeno?
"An'as..."
O sorriso gentil também estava lá.
Aquele sorriso caloroso que ela sempre lhe dava.
"Meu filho... como você está?"
A voz dela tremia enquanto o olhava lá de baixo.
Ao olhar para ela, An'as sentiu seu corpo ficar mais fraco. Quanto tempo fazia desde a última vez que a vira?
O coração dele tremia, os lábios tremiam.
Uma dor que ele há muito tempo havia esquecido volvió à tona no peito enquanto ela olhava para ele.
"Como... Como você está aqui, Mãe? Você... deveria estar morta."
Ela tinha apenas quinze anos quando morreu.
Foi uma doença que a levou. Para sustentar ele e garantir sua sobrevivência, ela fazia vários bicos. Os trabalhos eram exaustivos.
'Ha-ha... Você não precisa se preocupar comigo, An'as. Estou bem.'
'Está... tudo bem.'
'...Está cheio? Tem mais se quiser.'
'Estou bem. Aproveite. Um dia, tenho certeza que você vai poder me ajudar.'
'Está bom.'
Estou bem... estou bem... estou bem. Estou bem. Estou bem.
An'as sempre se lembrava de sua mãe pelas mesmas palavras que ela sempre dizia para ele.
Estou bem...
Mas ela não estava bem.
Quando criança, ele não entendia completamente, mas mesmo assim, podia ver a slowly deterioração no rosto dela. Sua pele, que antes era bonita, tornava-se pálida e afundada, e a voz que antes soava como um sino matinal ficava rouca e frágil.
E novamente... suas palavras eram: 'Estou bem.'
Um simples 'Estou bem' que An'as passou a detestar.
Não, ela não estava bem.
Como ela poderia estar bem?
Mas o que ele poderia fazer? Ele tentava trabalhar, mas era fraco.
O estado da mãe dele piorava, e ele ficava desesperado.
Desesperado a ponto de vender seus próprios órgãos. Isso era tudo que podia oferecer.
Era tudo que valia.
"Cough! Cough...!"
"M-mãe, aqui. Toma isso..."
"An-as."
"Não fale. Só coma."
O dinheiro era suficiente para sustentar sua mãe doente.
Por um momento, An'as não se sentiu tão inútil. Ele se sentia útil. Querido. Apreciado.
Ele continuou alimentando sua mãe, mas sua condição nunca melhorava.
"Mãe, fica aqui. Deixa comigo cuidar de você."
Quando o dinheiro acabava, ele vendia algo mais.
Para cuidar da mãe, An'as estava disposto a sacrificar tudo isso.
Mas...
"An'as..."
Perdido completamente em sua própria aflição, An'as nem percebia o olhar que sua mãe lhe lançava. Ele estava tão focado em cuidar dela que não notou o olhar que ela lhe deu naquele dia.
...Só percebeu quando já era tarde demais.
Ela...
Cometeu o ato de tirar a própria vida.
"N-não..."
Parecia que o seu mundo inteiro desabava naquela manhã.
A única razão da sua existência... havia desaparecido. Assim, de repente.
Naquele dia, An'as permaneceu parado naquela mesma sala em que sua mãe estava. Ele não se mexeu. Ele não conseguia se mover.
Ele só podia olhar para ela.
Totalmente perdido.
E quando conseguiu se recompor, se viu diante de um grande espelho.
Foi então que viu. Sua própria imagem refletida.
Rosto pálido, bochechas afundadas, olhos fundos...
'Sou eu?'
An'as ficou sem saber o que pensar ao olhar para o reflexo. Não parecia nada com ele do passado. Era completamente diferente.
Ele parecia mais com...
"M-mãe."
E foi nesse momento que finalmente compreendeu.
Ela...
Era exatamente como ele.
Para mantê-lo vivo, ela vendeu coisas que não deveriam ser vendidas.
Coisas que eram só dela e dele.
E foi nesse instante de revelação que An'as caiu na desesperança.
Todo o seu corpo ficou sem forças.
Naque dia, ele perdeu toda razão de viver.
Era apenas um cadáver sem vida.
Um que vagava pelas ruas de Virith-Anash, esperando pelo seu fim inevitável.
Ele se tornou insensível a tudo.
Até à dor...
Não, mas havia momentos em que ele a sentia.
Momentos em que os cortes no braço faziam ele sentir algo.
Mas então...
Ele se lembrava das palavras da mãe.
'An'as... não precisa se preocupar com uma ferida tão pequena. Sangrar só ajuda a eliminar o sangue ruim. Confie na sua mãe, ok?'
An'as forçava um sorriso toda vez.
Olhando para o sangue que escorria de sua pele ressecada, ele começava a questionar se ele era feito de nada mais.
Seus dias estavam contados, até que...
A escuridão finalmente tomava conta de sua visão.
Finalmente, ele podia partir.
Finalmente, podia retornar à sua mãe.
Ele poderia...
"O que você está fazendo?"
No meio da sua escuridão, ele viu uma luz.
Uma luz tão intensa que quase cegou. Quando conseguiu abrir os olhos novamente, percebeu uma visão que parecia olhar para o próprio sol. Era tão brilhante... tão quente, e tão delicada.
Nesse momento, An'as lembrou-se de que naquela manhã, o Santo Vivo do Templo da Luz viria até Virith-Anash.
Naquele instante, seus olhos se encontraram.
Ele olhava diretamente para ele. Direto para alguém como ele, e sua mão se estendeu em direção a ele...
"Parece que você deixou o mundo te derrotar."
Sua voz era tão calorosa quanto...
"Mas você está com sorte."
A mão o puxou de volta para cima.
"A Deusa não se importa com sua origem ou status. A Deusa se importa profundamente com todos. Sou seu emissário direto. Minhas palavras são dela, minha atenção também. Então... espero que nos encontremos em breve. Espero que você almeje se tornar alguém capaz de compartilhar o mesmo amor que a Deusa possui."
A vida de An'as mudou a partir daquele momento.
O templo acolheu-o.
Eles o alimentaram. Forneceram abrigo. Roupas. Novos órgãos... e ambição.
Sua vida mudou drasticamente desde então.
Foi também nesse momento que começou a adorar a Deusa.
Ela era tudo para ele.
Sua vida.
Ele queria retribuir a bondade dela.
Sem ela, ele já teria sucumbido às trevas há muito tempo.
Seu impulso cego pela Deusa veio dessa época. Ela esteve presente no seu pior momento.
Ela o levantou, e ele se tornou uma nova pessoa.
Seu sangue deixou de ser ruim, e ele se tornou completo novamente.
'Pela Deusa. Pela Deusa. Pela Deusa.'
A Deusa era tudo o que ele pensava e sua única força motriz.
"An'as... faz tanto tempo desde a última vez que nos vimos."
Enquanto a voz de sua mãe ecoava novamente lá de baixo, as mãos de An'as pararam de tremer. Era uma ilusão. Sua mãe estava morta.
Aquela parte dele também estava morta.
Agora ele tinha um novo objetivo.
Uma nova ambição.
"...Desculpe."
E assim, ele puxou seu pé de volta.
"An'as...?"
A voz de sua mãe tremia, quase como se estivesse de coração partido. Os ombros de An'as tremeram, mas ele resistiu. Essa não era mais sua mãe. Sua mãe estava morta. Ele não era mais o mesmo de antes.
Para ele, a Deusa era tudo.
Ele não podia cair nos truques da ilusão.
An'as não olhou para trás e atravessou a superfície da água.
"Por que você está fazendo isso comigo, An'as?"
"Você está partindo meu coração."
"...An'as?"
A voz de sua mãe continuava sussurrando de trás dele, mas An'as permanecia indiferente a ela.
Pelo menos, parecia assim.
No entanto... só uma pequena parte dele desejava ouvir sua mãe.
A mulher que ele havia amado com toda sua alma.
"An'as!!!"
O vozer dela acabou se transformando em gritos enquanto ela o chamava.
Mas An'as não olhou para trás.
Ele não podia se permitir olhar para trás. Precisava seguir em frente.
Esquecer tudo e—
Estouro!
".....!"
O rosto de An'as mudou ao ver uma mão sair da água, agarrando seu tornozelo novamente. Antes que pudesse reagir, outra mão saiu do rio e segurou seu outro pé.
"Que diabos!"
Os olhos de An'as tremeram enquanto ele ficava alerta.
Olhou para baixo e viu sua mãe aparecer. Ela o encarava de maneira ameaçadora, com a face distorcida.
Perto dela estava...
Ele mesmo.
Ou melhor, a versão vazia do que ele costumava ser.
Ele também olhava para ele com o mesmo olhar distorcido que sua mãe tinha.
"O que você está fazendo?"
"Por que está fugindo?"
"Volte. Volte para sua mãe."
"Você precisa apoiá-la. O que está fazendo?"
An'as sentiu seu ar escapar enquanto mais mãos surgiam da água, tentando alcançá-lo e segurá-lo.
"Não, não..."
Ele tentou se livrar, mas quanto mais mãos tentavam segurá-lo, mais difícil ficava de se mover.
Elas se enrolavam ao redor de seu corpo, apertando e grudando nele teimosamente.
Por mais que tentasse resistir, não conseguia.
E lentamente...
"Não, não!"
Ele era puxado para dentro da água.
"Droga, não!"
As mãos de An'as balançavam desesperadamente enquanto ele tentava agarrar algo, qualquer coisa que o impedisse de afundar. Mas por mais que procurasse, não encontrava nada. O frio começava a se espalhar lentamente, envolvendo seu corpo até consumi-lo completamente.
"Nãooo!"
Seus gritos ecoaram na névoa enquanto ele era completamente engolido pela água.
Quando sua figura desapareceu completamente, algumas ondas se formaram na superfície do rio, e uma figura parou exatamente onde An'as tinha estado, olhando fixamente para baixo.
Seus olhos brilhavam levemente antes de fechar os olhos.
"Só posso fazer até aqui."
Lázaro murmurou, seu corpo tranquilo.
Ele vinha observando por um tempo, e embora pudesse ter ajudado, decidiu não fazer nada.
Pelo menos por enquanto.
Era algo que An'as precisava descobrir por si mesmo.