
Capítulo 634
Advento das Três Calamidades
.....!
Anne olhou na direção de Sylas com os olhos bem abertos. Segurando Lazarus com uma mão enquanto ele lutava contra seu aperto, suas mãos voando enquanto tentava alcançá-lo sem sucesso, ela não conseguia acreditar no que estava vendo.
Ele deveria estar morto.
Ela viu com os próprios olhos. O buraco enorme no peito dele, e o ar deixando o corpo.
Anne tinha ouvido, há muito tempo, falar de itens raros e substâncias proibidas que supostamente conferiam renascimento da própria morte. Um dos mais famosos era o sangue de Mortum, o sangue direto do Deus da Imortalidade.
É possível...?
'Não, não há como. Se ele tivesse algo assim, já teria desaparecido há tempos.'
Os colecionadores não eram coisas que eles poderiam provocar sem risco.
Deve ser algo diferente.
Algo—
.....Ah!?
A expressão de Anne mudou drasticamente ao ver os olhos de Sylas começarem a mudar. Aos poucos, eles passaram a ficar de uma cor branca familiar, e seu coração afundou ao ver Lazarus parecer lutar ainda mais sob sua força.
Ela quis se mexer, mas não conseguiu.
Seus olhos estavam fixos em Sylas.
Finalmente, ela passou a entender a situação, e seu coração afundou bem fundo no estômago.
'Um oco...'
Sylas.
Ele era um oco.
Ah.
Ah.
Um som estranho saiu da boca de Sylas enquanto sua cabeça começava a contorcer e torcer. Ela se contraiu algumas vezes antes de retornar ao normal, seu olhar lentamente abaixando-se para encontrá-la.
"Anne."
"Anne."
Sua voz foi como um sussurro silencioso. Um que parecia misturado com vinte outras vozes. Masculinas e femininas, jovens e velhas, suaves e guturais... dezenas de vozes sobrepostas. A harmonia anormal fez seus cabelos arrepiarem, e cada pêlo do seu corpo se eriçou.
Lazarus continuava a lutar sob o aperto de Sylas, que só apertava mais a cada segundo.
Seu rosto estava pálido, e suas lutas só aumentavam com o tempo.
Ele começava a ficar desesperado.
Anne queria ajudar, mas não podia. Ela não podia permitir ajudar, enquanto seu corpo inteiro ficava tenso ao olhar para Sylas.
Ela tentava compreender a situação.
Quando...?
Desde quando ele era um? Desde o começo...? Ou foi tomado por eles em algum momento?
Ocos não eram raros de se ver. Às vezes eles apareciam. Pessoas cujas mentes foram tomadas pelas vozes do passado.
Ela tinha visto vários oco no passado.
Mas nunca... nunca na vida encontrou um tão forte assim. Era uma crise enorme. Especialmente porque os ocos se alimentam de pessoas para ficarem mais fortes.
Eles se alimentam de pessoas e transformam-nas em vozes.
Por isso, a maioria deles era caçada assim que encontrada. Eles eram como parasitas. Extremamente perigosos.
...E o fato de Sylas ser um e ninguém ter percebido até então deixava tudo ainda mais estranho.
Essa situação era bem mais complicada do que ela imaginava.
"O que você está pensando tanto? Não precisa pensar tanto. Basta aceitar a situação calmamente e vir até mim."
"O que você está pensando tanto? Não precisa pensar tanto. Apenas aceite a situação e venha até mim."
A voz de Sylas sussurrou mais uma vez, atraindo sua atenção para ele.
"...Esperei por esse momento por tanto tempo. Planejei por tanto tempo, achei que ia demorar mais, mas então ele apareceu."
"...Esperei por esse momento há tanto tempo. Planejei por tanto tempo, achando que levaria mais tempo, mas então ele apareceu."
Sylas abaixou a cabeça para olhar para Lazarus, seus lábios lentamente se contorcendo enquanto seus olhos brancos piscavam.
"Ele era o último ingrediente que faltava há tanto tempo, e no momento em que o encontramos, soubemos que não podia mais esperar. Empurrou tudo pra frente e atraiu vocês dois aqui. Só com a presença de vocês pode finalmente ascender."
"Ele era o último ingrediente que faltava há tanto tempo..."
O rosto de Anne ficou pálido ao ouvir as palavras de Sylas.
Isso tinha sido planejado o tempo todo? Para avançar...?
'Espera, avançar?!'
Seu corpo inteiro congelou ao ouvir essas palavras. Se ele avançasse, quão forte ele poderia ficar?
Isso...
'Não posso deixar isso acontecer! Pode ser extremamente ruim!'
Se ele fosse permitido avançar, se tornaria uma existência terrivelmente assustadora dentro da Dimensão do Espelho. Poucos seriam capazes de pará-lo, mas, como uma criatura que crescia continuamente, não demoraria muito até alcançar um ponto onde só os primordiais ou os deuses poderiam fazer algo.
Os olhos de Anne se aguçaram enquanto ela olhava ao redor.
Ela precisava encontrar uma saída dali.
'Ele disse que sou um ingrediente. Então, enquanto ele não conseguir me pegar, poderei atrasar o plano dele por um tempo. Vou passar tudo para o Templo. Talvez consigam fazer a Deusa interferir diretamente...'
Embora pensasse assim, ela não tinha muita esperança na própria estratégia.
Parece que Sylas planejou essa situação com maestria, e ela também não tinha muita fé de que a Deusa fizesse algo de fato.
Ela, junto aos demais Deuses, era extremamente indiferente ao mundo.
Também não apareciam há centenas de anos.
Anne rangeu os dentes, os olhos arregalados e procurando freneticamente uma saída.
'Como faço? Como faço...? Como...—'
Foi nesse momento que aconteceu.
Em meio aos seus pensamentos, e justo quando Sylas ia abrir a boca, uma mudança ocorreu na direção de Lazarus.
Ele de repente parou de lutar. Quase como se nunca tivesse lutado.
Então...
Seu corpo começou a mudar lentamente. Seus cabelos ficaram de um cinza sem vida, e suas bochechas afundaram, afundando no crânio. A mudança veio de forma abrupta, assustando Anne e Sylas ao olharem para Lazarus.
Mas a mudança mais impressionante nem foi na aparência.
Não, eram seus olhos...
Que lentamente passaram a ficar brancos.
Brancos?
Anne parou, e foi aí que ela percebeu.
A figura bem atrás de Sylas, com a mão estendida na nuca dele.
Lazarus flutuava calmamente na água enquanto apertava a cabeça de Sylas.
'...Medo.'
Ele murmurou na mente enquanto canalizava sua magia emotiva.
Ele investiu tudo nas mãos.
Queria incapacitar completamente Sylas. Estava confiante de que sua magia emotiva era forte o suficiente para isso.
Mas...
"Kekek."
"Kekek."
A reação esperada nunca veio. Em vez disso, foi recebido por uma risada debochada enquanto Sylas lentamente virava a cabeça, e seus olhos brancos olhavam diretamente para ele.
"Como esperado. Não escolhi errado. Você foi a pessoa certa o tempo todo."
"Como esperado. Não escolhi errado. Você foi a pessoa certa o tempo todo."
A expressão de Lazarus permaneceu séria enquanto encarava Sylas. Ele estava calmo, apesar da situação, enquanto lentamente afastava a mão e assentia.
'Certo, ele deve estar atrás da minha magia emotiva.'
Ele mais ou menos tinha suspeitado disso na primeira vez em que se encontraram, especialmente quando tocou na mão dele.
Lazarus lembrou de sentir algo estranho ao colocar uma etiqueta emotiva nele. Ou pelo menos tentou. Claramente, a etiqueta não se fixou no corpo dele.
No começo, Lazarus ficou confuso, mas agora tudo fazia sentido.
Sylas...
Ou melhor, o oco.
Eles não tinham emoções. Eram apenas uma tela vazia de memórias remanescentes.
A situação se tornou mais clara para ele no momento em que encontrou o primeiro oco, e ele começou a juntar as peças.
'Minha suspeita anterior de que isso era uma armadilha não estava errada. Sylas me atraiu especialmente para esse lugar para me usar como um "ingrediente" na sua tentativa de avançar. O momento em que tudo começou também coincide com tudo o que descobri.'
Os olhos de Lazarus permaneceram calmos enquanto escaneava Sylas.
Apesar de sua magia emotiva não estar funcionando, sua expressão não demonstrava medo.
Por quê?
Anne pensou enquanto olhava para ele. Será que isso era algum tipo de fachada dele?
Mas ao observá-lo, parecia algo mais profundo que isso.
Ela não precisou esperar muito por uma resposta. No momento em que Lazarus levantou a mão do topo da cabeça de Sylas, Sylas atacou, seu braço cortando a água em direção a Lazarus, que permanecia parado, imóvel.
.....!
O rosto de Anne mudou ao ver Sylas agarrando o pescoço de Lazarus.
Ele nem tentou fugir enquanto Sylas sorriu de forma sinistra.
"Pegamos você..."
"Pegamos você..."
Mas o sorriso dele desapareceu logo, pois o corpo de Lazarus começou a desaparecer, substituído por um dos ocos anteriores.
Aparecendo logo abaixo, Lazarus olhou calmamente para Sylas.
"...Você não vai conseguir me pegar."
Uma das habilidades concedidas pelo Enxame Mental era a capacidade de trocar de lugar com qualquer coisa que tivesse uma mordida de coral.
A habilidade consumia muita mana e força mental.
Por isso, ele só podia usá-la algumas vezes.
Mas isso era mais que suficiente para simplesmente fugir.
Lazarus cruzou olhares com Sylas, e seus olhares ficaram presos por um longo momento pesado. Mas então, um sorriso lento e sinistro se espalhou pelos lábios de Sylas enquanto ele voltava a focar no altar abaixo.
As sobrancelhas de Lazarus se franziram fortemente ao ver aquilo.
Ele começou a sentir uma má sensação sobre a situação.
Mas, ao contrário do que esperava, Sylas levantou ambas as mãos, aparentemente em um gesto de rendição.
"Muito bem feito."
"Muito bem feito."
Sua voz sussurrou na água.
"...Vocês nos enganaram. Ótimo trabalho."
"...Vocês nos enganaram. Ótimo trabalho."
Sylas assentiu lentamente antes de virar sua atenção para Anne. Seus olhos se encontraram por um breve momento até ele sorrir.
E então—
Vuuum!
Desapareceu do local.
“Huh?”
“....?”
O acontecimento repentino pegou os dois de surpresa enquanto ficavam boquiabertos, olhando na direção onde Sylas havia estado anteriormente.
Ele...?
Ele acabou de fugir?
Esse foi o primeiro pensamento que passou por suas mentes.
Um sutil tremor pulsou sob eles, quase imperceptível, como consigo de algo antigo e ancestral.
Mas eles sentiram.
Ambas as cabeças se viraram rapidamente em direção ao altar distante, onde uma luz verde esverdeada começava a vazar pelas rachaduras.
Então, a superfície se rompeu.
Cra! Crack!
Lentamente, de forma antinatural, a pedra lisa do altar se abriu, não como uma máquina, mas como carne se separando relutantemente. Um olho úmido, brilhante, emergiu do escuro interno... Era enorme e assustador.
No instante em que sua pupila apareceu, o mundo parou.
O próprio tempo se fraturou.
A água congelou no lugar, bolhas presas no meio do caminho, o cabelo suspenso como fios de vidro. O som morreu. O movimento morreu. Até os pensamentos ficaram lentos.
Somente o olho se moveu.
E ele olhava diretamente para eles.
Ambos encararam de volta, com os corpos congelados, reconhecendo o olho.
Esse olho...
Era de ninguém menos que Xa'ruhl.
O grande primordial.