Advento das Três Calamidades

Capítulo 643

Advento das Três Calamidades

— Você quer que eu te treine? —

Anne ficou atônita ao ouvir as palavras do mercador. No entanto, ao refletir, fazia sentido. Se eles realmente encontrassem um dos senhores durante a jornada, na prática, ele não poderia fazer muita coisa.

Provavelmente, as informações sobre suas habilidades extremamente emotivas já tinham chegado até eles.

Tudo o que precisavam era entrar na água, e suas habilidades emotivas diminuiriam significativamente.

Para ter alguma chance contra eles, ele realmente precisava aprender a lutar na água.

— Então... Você vai me ajudar? —

Anne o olha e suspira.

— Que escolha eu tenho? —

Estavam na mesma embarcação agora. Literalmente e figuradamente.

Quanto mais forte ele ficava, melhor era para eles.

— Isso é bom. —

Os lábios de Lazarus se curvaram suavemente enquanto ele voltava sua atenção para o mar.

Observando-o, Anne começou a ponderar sobre a situação deles.

— O tempo mais curto que levaríamos para chegar ao Sul do Remanescente é de um mês, enquanto o mais longo pode chegar a até quatro meses, dependendo das circunstâncias à frente. No caminho, espero que encontremos um dos senhores na metade do percurso. Isso significa que você precisa estar pronto até lá, dentro do próximo mês. —

Os outros senhores não eram os únicos perigos no oceano.

O Mar Carmesim estava repleto de todo tipo de monstro. Ao longo do caminho, eles precisariam tomar cuidado com eles.

Embora a embarcação tivesse diversos recursos para detectar monstros próximos, nem sempre eles seriam capazes de perceber sua presença.

Não só isso, mas também precisavam manter uma certa velocidade.

Se o barco fosse rápido demais, aumentaria a chance de atrair monstros.

— Então, vamos começar seu treinamento. —

Anne olhou para Lazarus de cima a baixo, até que um sorriso súbito surgisse em seus lábios.

Ela conhecia bem o processo de treinar recrutas novos.

Esse processo...

Ela gostava bastante dele, e ao pensar em como ele lhe tinha ordenado não faz muito tempo, sentiu que ia aproveitar ainda mais esse momento.

Anne apontou para o mar abaixo.

— No começo, não vou ser muito dura com você. Por enquanto, apenas pule na água e comece a nadar.

— ... —

O rosto de Lazarus permaneceu neutro enquanto ele a olhava.

Era difícil discernir seus sentimentos atuais; no entanto, pelo leve tremor em seus olhos, parecia que ele começava a se arrepender do pedido.

O sorriso de Anne virou uma carranca.

— O quê? Você já está começando a se arrepender? —

— ..... —

Lazarus permaneceu em silêncio enquanto a encarava.

Por fim, fechou os olhos, balançou a cabeça e falou.

— Não, não estou. Mas estou tendo dificuldades para entender como isso pode ajudar. Sou mago. Eu— —

— Você acha que eu não sei o que você está pensando? — interrompeu Anne, voltando para um empregado que se aproximava com um livro nas mãos.

Era um livro azul, bastante usado.

Anne pegou o livro e lançou para Lazarus.

— Aqui. —

Ao pegar o livro, Lazarus abriu na primeira página, onde vislumbrou um círculo mágico complexo.

Seus olhos estreitaram enquanto contava as runas.

Um, dois, três...

Dezoito.

No total, havia dezoito runas.

'Um feitiço de nível intermediário.'

— Este é um feitiço de nível intermediário chamado [Respiração na Água]. Não só permitirá que você respire debaixo da água, como também dará a capacidade de falar. —

O feitiço não era nada de especial ou secreto.

Era apenas o feitiço padrão dado a recrutas que alcançavam certo nível.

O problema é que era um feitiço do elemento [Água], ou seja, para quem não tinha talento com magia do tipo [Elemental], geralmente levava bastante tempo para aprender.

Por sorte, Anne criou um método bastante útil para fazê-los aprender rápido.

— Vá em frente, a água não vai esquentar mais, —

De fato, era para que os recrutas pulassem na água diretamente e tentassem desbloquear o feitiço nessas condições.

Ela descobriu que a maioria conseguia desbloquear o feitiço bem mais rápido dessa forma.

Não exatamente porque ela estivesse mirando especificamente o mercador, e como se entendesse suas intenções, Lazarus suspirou silenciosamente antes de começar a tirar suas roupas.

— Woo~ woo~ —

Anne assobiou ao vê-lo tirar suas roupas e revelar seu corpo perfeitamente torneado.

Seu corpo era tão perfeito que quase parecia falso.

Era a primeira vez que via alguém assim. Inevitavelmente, sua atenção foi atraída.

'Agora que penso nisso, ele realmente é bastante bonito.' —

Ele também parecia ter a mesma idade que ela.

Anne assobiou novamente enquanto Lazarus tirava tudo, só ficando com a cueca. Ele lançou só um olhar para ela, depois abriu o livro novamente e estudou o feitiço. Logo que memorizou tudo, saltou na água.

Splash!

E assim começou seu treinamento infernal.

Um que Anne gostou bastante.

***

Enquanto isso, em outra parte da embarcação.

No topo do corrimão de madeira, olhando para Lazarus que lutava na fria água vermelha, um corvo e um gato estavam sentados.

— O que vocês acham? —

O Corvo-Poderoso perguntou, lançando um olhar ao gato ao lado que começava a se limpar.

Ao colocar a pata no chão, Pebble olhou para Lazarus.

— Ele está começando a perder o senso de si mesmo. Se continuar assim, é bem provável que ele fique preso com essa personalidade. —

— ... Então você também sentiu isso. —

O tom do Corvo-Poderoso era grave enquanto olhava para Lazarus.

Ambos podiam sentir as mudanças acontecendo com Lazarus. Especialmente Pebble, que ainda representava a vontade de Lazarus.

Se a situação continuasse assim, tinham medo que Julien desaparecesse completamente.

Mas, por outro lado...

— O humano é bastante capaz. Ele deve saber o que está fazendo. Tenho certeza de que ele tem algum plano para lidar com isso. —

— Você acha? —

Pebble olhou para o corvo com uma expressão de dúvida.

Olhando para trás, o Corvo-Poderoso deu um simples "sim".

— Sim. —

— Bem, se você diz... —

Apesar de ainda estar um pouco preocupado, Pebble conhecia bem o humano e sabia que ele era capaz.

Espera aí, preocupado...?

O quê—

— É uma cena bastante interessante. —

No meio de seus pensamentos, uma voz surgiu, e ambos voltaram a olhar para cima, vendo uma pequena caranguejo observando-os de baixo.

Um caranguejo?

Os olhos de Pebble se estreitaram, e uma ideia surgiu na cabeça do gato.

— Você pode ser... ? —

— Sim, sou eu. Essa forma é bem mais confortável para mim, pois me permite me mover melhor. —

O caranguejo era justamente a criatura-monstro de colmeia que tinha ajudado Julien recentemente.

Vendo-o assim, tanto Pebble quanto o Corvo-Poderoso ficaram surpresos.

Mas logo, o caranguejo olhou para eles com uma expressão curiosa.

— Dei uma olhada um pouco nas suas memórias... mas vocês devem ser os três que conseguiram subir de nível por causa do humano. —

Os olhos do Corvo-Poderoso se estreitaram ao ouvir as palavras do caranguejo, mas logo ele assentiu lentamente.

— Isso mesmo, sou eu. —

O corvo não detectou nenhuma ação hostil do caranguejo.

Parece que eles só queriam conversar.

Se aproximando, o caranguejo se sentou no corrimão de madeira com eles, enquanto sua atenção se voltava para o humano lutando abaixo.

Ao longe, ouviram Anne gritar.

— Mais rápido! Mais rápido...! Você está muito lento! Foca! —

Na mão dela, uma chicote.

Espera, chicote...?

Kacha!

A água se espatifou enquanto Lazarus acelerava o ritmo.

— Oh, meu— —

O caranguejo observou a cena com preocupação.

Porém, para sua surpresa, nem o gato nem o corvo pareciam preocupados.

Como percebendo sua expressão, o corvo respondeu,

— Isso é nada. Ele já passou por muito pior, e... gosta quando lindas mulheres humanas mais velhas o batem. —

— Sim, sim. —

Pebble concordou ao seu lado.

— Ele deve estar feliz agora. —

Kacha!

'Quer mais?! Mais rápido!'

— Viu? — Pebble ergueu a pata, apontando para Lazarus e balançando a cabeça. — Está vendo como ele está diminuindo o ritmo. Ele está adorando isso. —

De fato, olhando para baixo, o caranguejo viu o humano desacelerar.

Kacha!

A chicote acertou a área ao lado dele.

— Ah... —

O caranguejo não tinha mais nada a dizer.

Não entendia nada sobre como os humanos reproduziam ou atraíam parceiros. Provavelmente essa era a forma deles fazerem isso.

Para ele, parecia estranho, mas raças diferentes tinham seus próprios modos...

— Outra coisa, —

O caranguejo olhou para o gato e o corvo.

— Vi que vocês têm nomes. Como isso aconteceu? —

— Nossos nomes? —

Pebble e o Corvo-Mighty se olharam.

Então... —

Seus semblantes começaram a se contorcer, olhos arregalados e bocas formando sorrisos maliciosos.

Foi só um instante, antes de voltarem à sua expressão usual e indiferente.

Voltando lentamente ao caranguejo, Pebble olhou para ele com desprezo.

— Ah, sim... O humano nos deu nomes. É algum costume deles. Uma forma de homenagear a gente, de um jeito próprio. —

— Ah? Ah? —

O caranguejo escutou interessado.

Lenvando de forma indiferente suas patas, Pebble prosseguiu.

— Meu nome é bastante respeitado. Pode parecer apenas um nome criado sem muito cuidado, mas tem um grande significado. Na língua humana, significa poder, força e união. —

— Oh!!! —

O caranguejo ficou totalmente envolvido, enquanto o corvo assentia silencioso.

— O mesmo vale para mim. —

O tom do corvo ficou ainda mais despreocupado.

— Meu nome, na verdade, é mais explícito. O 'Mighty' no meu significa minha força absoluta. —

— Oh!!! —

O caranguejo ergueu as garras, completamente absorto.

Estava tão investido que não percebeu as mudanças na expressão dos dois animais, cujos lábios se puxaram ainda mais para cima.

Finalmente...

Finalmente, era hora de alguém sofrer o mesmo destino que eles.

Eles foram ingênuos no passado. Totalmente inconscientes do nome sinistro que o humano lhes dera.

Quando o Corvo-Mighty percebeu, já era tarde demais.

O nome tinha grudado.

Pebble, por sua vez, tinha sido prometido a uma mudança de nome, mas isso nunca aconteceu.

A dor...

O sofrimento causado pelos nomes deles...

— Quer um nome? —

O peito de Pebble arfou enquanto olhava para o caranguejo, que olhava de volta para o gato.

— Nome? Eu...? Posso...? —

— Claro que pode. Eu... kuk... passei tempo demais no mundo humano para aprender seus costumes e seu modo de dar nomes. Sou mais do que qualificado para te dar um nome. —

— Ele realmente pode. —

O Corvo-Mighty apoiou ao lado, dizendo com firmeza.

Ao fazer uma pausa, o caranguejo olhou para ambos e percebeu a sinceridade nos olhos deles.

Um nome, hein...?

Nunca tinha pensado nisso antes.

Mas, na real, não parecia tão ruim.

Tinha uma certa curiosidade.

Qual seria o nome dele?

Depois de um breve momento, ele assentiu com a cabeça.

— Sim, gostaria de um nome. —

— Kekekek. —

— Kukukukuku —

A expressão do gato e do corvo se distorceu ainda mais ao olharem para seu caranguejo vitorioso, envaidecido.

Então...

Após uma breve pausa, Pebble falou.

— Wobbles... kuk. Esse será seu nome. —

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