Advento das Três Calamidades

Capítulo 636

Advento das Três Calamidades

"...Quem é você?"

O questionamento começou enquanto eu me via a bordo de um grande navio, cuja cabina de madeira era tenuemente iluminada por uma única lâmpada, o suficiente para distinguir Anne diante de mim.

Ela não perdeu tempo após sair da água, puxando An'as e eu para dentro de seu navio.

Nenhum de nós conseguiu resistir, e no final, fomos ambos puxados para lá.

Que sorte a minha...

"Você, especialmente."

Anne apontou a cabeça em minha direção, franzindo a testa.

"Nunca te vi antes."

"O quê?"

Olhei para ela de forma estranha.

"E por que você deveria ter me visto antes? Está dizendo que conhece a face de todo mundo dentro de Virith-Anash?"

Isso seria ridículo.

"Não."

A capitãbalançou a cabeça e apontou para seu olho, que brilhava com um tom esmeralda tênue.

"...Mas eu consigo dizer se já encontrei alguém antes."

Levantei uma sobrancelha, mas entendi.

'Ela provavelmente não está mentindo.'

Eu tinha visto o suficiente nela e nesses olhos estranhos para saber que provavelmente ela não estava mentindo. Fiquei curioso enquanto olhava fixamente para seus olhos.

Será que isso era um subproduto de um osso?

"Como não conheço você, presumo que não seja daqui. De onde exatamente você é?"

A capitã continuou a me pressionar.

Fiquei apenas encarando ela, recostado na cadeira de madeira em que estava sentado.

Era bastante desconfortável.

Além disso, não parecia que eu estava detido, já que não tinha algemas ou prisões, mas sentia como se estivesse. Não podia sair, mesmo que quisesse.

Se não estivesse detido, não sei o que eu era...

An'as também estava numa situação semelhante, embora parecesse um pouco familiar com ela.

...Ou pelo menos, parecia reconhecê-la.

Ele provavelmente estava aqui por minha causa.

"Sou apenas um comerciante viajante de longe. Estou aqui há bastante tempo. Também abri uma loja recentemente. A Chama Cinza—"

"Sim, eu sei."

"Então...?"

"Isso não muda o fato de que você é suspeito."

"E como exatamente isso te ajuda de alguma forma? Tenho certeza de que você tem questões mais sérias para cuidar."

Tipo, sabe... uma certa capitã que desapareceu magicamente do nada assim que foi revelado que ela era uma hollow?

'É, não tô comprando essa.'

Ele certamente estava planejando algo.

Ele não ia simplesmente nos deixar partir após revelar que éramos 'ingredientes' importantes para o plano dele.

Algo estava acontecendo por trás das cenas, e tudo remete ao momento em que ele desapareceu. Naquele instante, minha mente ficou vazia, e a criatura da Colmeia escorregou do meu pescoço, caindo no chão.

Algo aconteceu nesse momento.

Senti que aquilo era a chave para entender a situação e o que Sylas planejava.

"....."

Os olhos da capitã piscavam enquanto ela me olhava.

Seus pensamentos eram desconhecidos para mim, e cada segundo que passava parecia uma eternidade.

Mas tudo isso morreu um segundo depois, quando ela suspirou.

"Sim, você está certo."

Sentou-se na cadeira.

"....Embora eu ainda desconfie da sua origem, já vi o suficiente para pensar que você não está do lado dele. Pelo menos... por enquanto."

Seus olhos se estreitaram, e eu senti um calafrio percorrer minha espinha.

Só consegui manter a calma, olhando para ela.

Mas ao mesmo tempo, uma ideia surgiu na minha cabeça.

'Originalmente, planejava fazer com que Sylas me levasse ao fenda eclipsada. Mas, agora que ela está aqui, nada impede que eu a use.'

Ela era uma das sete senhores e, provavelmente, não era uma hollow.

Sobre essa parte...

Neste momento, qualquer um poderia ser uma hollow.

Ela fechou os lábios enquanto batia com o braço.

"A situação está bem complicada. Já relatei o caso aos do Templo. O melhor é esperar uma resposta deles antes de decidirmos o próximo passo."

"Próximo passo?"

Do que ela estava falando?

Ela rolou os olhos.

"Você é burro? Acha que o Sylas vai simplesmente sair assim? Ele claramente nos tem como alvo ou está nos controlando. Deve ter formado algum plano e está caçando ativamente. Não entendo por que ele de repente foi embora, mas tenho certeza de que faz parte do plano dele. Preciso que vocês fiquem comigo por enquanto."

"O—!?"

An'as foi quem gritou.

Ele olhou para Anne com os olhos arregalados.

"O que você quer dizer com ficar comigo por enquanto? Não, não, não... Eu não posso ficar aqui."

Ele se levantou, mordendo as unhas, circulou sua cadeira, olhou ocasionalmente na direção da capitã, e murmurou coisas como: 'Não posso deixar meu posto por muito tempo. Se eu sair, todo o meu trabalho será perdido. Preciso ser promovido. Não posso falhar assim.'

Ah, lá estava ele de novo...

Ele e sua obsessão pelo templo.

Olhar para ele e ver sua expressão só aumentava minha curiosidade. Sua obsessão... parecia meio estranha.

O que exatamente essa deusa fez para deixá-lo tão leal e obcecado por ela?

Verifiquei anteriormente, e não havia sinais de magia emotiva ou magia espiritual nele.

Parecia realmente a adorador dela.

"Que porra..."

Ao ouvir as palavras da capitã e virar a cabeça para encontrá-la, expliquei:

"Ele é do Templo."

"Ah—"

"Ah! Você não devia dizer isso!"

An'as rapidamente virou-se para mim, mas já era tarde. Ele só pôde olhar awkwardly para a capitã, que fez uma expressão bastante séria.

"Então, acho que não preciso usar força para te manter aqui, né...?"

"...Ah."

An'as olhou para mim em desespero. Também via vestígios de ódio ali, mas apenas balancei a cabeça.

'É por quase ter me matado lá atrás.'

Ele desistiu pouco tempo depois.

"É isso que tenho a dizer."

A capitã começou a se mover em direção à porta da sala. Ela nos empurrou com a cabeça.

"Me sigam, vou levá-los até o convés para vocês conhecerem o navio. Ficarão aqui até que eu resolva essa situação."

Clank!

A porta de madeira se abriu, e o forte aroma de ferro e sal entrou na sala.

Lázaro olhou na direção de An'as antes de segui-la atrás.

An'as só conseguiu acompanhar some tempo depois, ainda murmurando algumas coisas, mas já percebendo que não tinha muita escolha na situação.

Até o templo tinha que respeitar uma das sete senhores.

O que ele achava que poderia fazer?

Balancei a cabeça e saí da sala. Um longo corredor de madeira se estendia à minha frente, tenuemente iluminado por lâmpadas dispersas. Seguia por vários metros até terminar numa escada que subia.

Os três caminhamos em silêncio, passando por vários oficiais.

"Saudações, capitã."

"...Capitã."

Da forma como ela era cumprimentada, dava para perceber que todos a respeitavam bastante. Olhei ao redor, absorvendo a vista antes de subir as escadas, quando o cheiro de ferro e sal se intensificou e apareceu o céu cinzento, tão familiar.

Grandes velas brancas ondulavam ao vento, presas a um mastodôntico mastro, cada uma com pelo menos trinta metros de altura. Acima delas, uma bandeira verde tremulava ao vento.

"Certifique-se de que a âncora está pronta!"

"Hora de lavar o convés!"

"Verifique se não há apodrecimento!"

"Vede as emendas!"

O convés principal do navio estava tomado por tripulantes que circulavam, gritando e mandando ordens, numa agitação vibrante.

Olhei para a cena com interesse.

Era a minha primeira vez vendo piratas em ação, e era uma cena bem interessante. Até seus sotaques eram curiosos de ouvir.

"Este aqui é o convés principal. É onde fica o mastro central, bem no meio. E se você olhar para os lados..." Ela indicou para os canhões pesados alinhados nas margens do navio. "Você verá essas belezuras. Uma só flechada delas e de vocês dois vira pó. Mas é caro, então prefiro gastar só se for necessário."

Ela riu ao dizer isso.

Não achei que estivesse brincando. Olhando para os canhões e vendo os vários runas estampadas neles, percebi que não era algo simples.

"Não há uma regra específica que vocês precisem seguir a bordo."

A capitã começou a conduzir os dois pelo navio, explicando toda a sua disposição detalhadamente. Eu não tinha muita ideia de por que ela fazia isso, mas absorvi as informações na cabeça. Caso algo acontecesse, era melhor saber tudo sobre o navio.

Eu era bem azarado...

"As principais regras do navio são só para ouvir minhas ordens. O que eu mandar vale, é bem simples. Ah, e não matem nem façam besteira que não fariam na cidade. Coisas de bom senso, entendeu?"

"Ah."

Isso eu conseguia fazer.

Não era difícil de seguir.

A capitã começou a falar mais sobre o navio, sua origem, suas experiências, e todo aquele papo. Eu escutava atento enquanto olhava para o mar carmesim que se estendia em direção ao sol branco que pendia ao longe.

Algo na reflexão do sol branco sobre as águas vermelhas tinha um toque mágico.

Lázaro não conseguia desviar o olhar.

"Bonito, né?"

Só consegui sair dessa quando ouvi a voz da capitã sussurrando ao meu lado, enquanto ela cruzava os braços, com o olhar fixo no horizonte.

Quando ela se moveu até mim?

"Essa visão é uma das razões pelas quais faço o que faço."

Seus cabelos cacheados ondularam enquanto ela olhava ao longe.

"Arriscada como é, a Mar Vermelha... Também é de tirar o fôlego. Mas aquilo? Nem de longe é o melhor que ela tem para mostrar. Já naveguei por lugares tão mortais que dão calafrios na espinha, e mesmo assim, cada um deles era mais belo que o anterior. A Ilha das Promessas Quebradas, os Recifes Escaldantes, o Caminho das Lanternas, a Mandíbula Eclipse... Já vi todos."

Seus olhos esmeralda brilhavam enquanto ela falava, e eu... eu... Lázaro lentamente voltou sua atenção para o horizonte distante, também.

Ambos ficaram em silêncio, encarando o Mar Vermelho.

Realmente, era lindo.

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